Natural de Flores da Cunha, Eriane Pacheco, disputa sua primeira eleição. Aos 16 anos, ela deixou o município para estudar em Porto Alegre, onde construiu sua trajetória acadêmica e política. Mestra em Políticas Sociais e Serviço Social pela UFRGS, foi chefe de gabinete da deputada estadual Bruna Rodrigues (PSB), e agora forma uma dobradinha com a parlamentar, que busca a reeleição para a Assembleia Legislativa enquanto Eriane concorre a uma vaga na Câmara Federal.
Com trajetória ligada aos movimentos sociais, ao feminismo e à igualdade racial, Eriane fala sobre a decisão de disputar sua primeira eleição, a baixa representatividade de mulheres negras na política, os desafios de uma candidatura sem uma grande estrutura financeira e a relação que pretende manter com sua terra natal, Flores da Cunha.
O Florense: Como foi a decisão de entrar na sua primeira disputa eleitoral?
Eu sou natural de Flores da Cunha. Meu avô é o Pedro Martins, que, inclusive, tem o nome de uma rua aqui. Vivi aqui até 2006. Fui para Porto Alegre para estudar e fazer faculdade. Consegui uma bolsa do ProUni na Ulbra, onde comecei Psicologia. Não me formei, mas depois mudei para o Serviço Social da UFRGS, onde entrei pelo sistema de cotas. Foi lá na universidade que conheci o movimento estudantil, a política e a organização coletiva. Comecei a entender a importância da política na nossa vida. Tudo é político, tudo passa por uma decisão política. Conheci a Bruna Rodrigues, que hoje é deputada estadual e foi a primeira mulher negra eleita deputada estadual no Rio Grande do Sul. Trabalhei com ela como chefe de gabinete durante esse período e agora sou candidata a deputada federal, enquanto ela busca a reeleição para deputada estadual. Somos uma dupla.
Já tinha a intenção de disputar uma eleição?
Nunca pensei em concorrer. Eu gosto muito da política, da boa política. A política tem suas complexidades, mas acredito que, se a gente se organiza, as coisas podem se transformar. É a política que muda as estruturas. Eu sou uma mulher negra do interior e tenho certeza de que vocês conhecem poucas pessoas negras aqui em Flores da Cunha. Não é fácil. Foi através da política e de políticas públicas, como as bolsas de universidade, que minha vida se transformou. Isso também foi uma escolha política. Gosto muito de pensar como as vidas podem ser mudadas através da política. Mas nunca tinha pensado em ter a cara em um panfleto.
Quem incentivou sua candidatura?
A (deputada) Bruna foi muito generosa. Ela sugeriu que eu fosse candidata. É uma ousadia, porque eu saí da coordenação da campanha dela. Fui chefe de gabinete durante cinco anos e isso acaba desestruturando um pouco a campanha dela. Mas é uma forma de ampliar o número de mulheres e também de mulheres negras concorrendo. Foi uma escolha que veio dela e que eu aceitei, mas é um desafio.
Você parte direto para uma candidatura a deputada federal, sem antes disputar uma eleição municipal. É uma decisão ousada?
É bastante ousada. Mas acredito que precisamos dessa renovação. Temos mais de 500 deputados federais e pouco mais de 20 mulheres negras. É uma representação muito pequena diante da população brasileira. Uma parcela significativa da população é formada por mulheres negras, mas somos nós que temos os piores salários, que estamos em maior número nos trabalhos informais e entre as empregadas domésticas. Minha mãe foi empregada doméstica aqui em Flores da Cunha e foi babá. Essa geralmente é a nossa representação: estamos na base da pirâmide. Precisamos ampliar a representação de uma população que ainda vive uma desigualdade muito grande.
Quais seriam suas principais bandeiras no Congresso?
Além da ampliação da participação política das mulheres negras, temos pautas relacionadas à questão racial. Existe, por exemplo, uma PEC da Reparação que está tramitando no Congresso e na qual quero poder contribuir. Mas acredito que representar um grupo não significa ficar restrita a uma única pauta. Também precisamos discutir a emergência climática e ter uma lógica voltada aos trabalhadores. Existe um diferencial muito grande na política porque, geralmente, os políticos vêm de famílias em que alguém já foi político ou têm uma estrutura muito grande. Precisamos transformar isso e ter uma política mais próxima do povo.
Por que acredita que a política precisa ser renovada?
As pessoas estão cada vez menos indo votar porque a política está muito saturada. Em Porto Alegre, por exemplo, na eleição, quem venceu a prefeitura teve menos votos do que o número de pessoas que não compareceram às urnas. As pessoas estão cansadas da polarização, de uma política que promete e nunca mais volta. A tentativa é fazer um pouco diferente.
Você nasceu em Flores da Cunha, mas construiu sua carreira política em Porto Alegre. Como vê essa relação com a cidade?
Eu cresci aqui, estudei aqui e conheço a cidade. Tenho família aqui até hoje. Existe um vínculo. Conheço as relações da cidade e a própria realidade da juventude, os espaços de lazer e as questões que fazem parte da vida de quem mora aqui. Tanto na cidade quanto nas colônias existe esse processo de sair para estudar e poucos voltarem. Essa foi a minha história. E isso é algo que a cidade precisa pensar: o desenvolvimento e a perspectiva para a juventude. A gente acaba exportando talentos e desenvolvimento.
Como a eventual deputada federal poderia contribuir com Flores da Cunha e a região?
Poderia contribuir mantendo esse vínculo. Imagine ter uma deputada federal ou alguém na Capital que tenha vínculo com a cidade. A política da região pode receber contribuições, seja por articulações políticas, seja pela destinação de recursos, emendas e pelo próprio trabalho de como funciona a política. Com certeza estou à disposição para contribuir.
Por que ainda são poucas as mulheres eleitas, apesar de elas serem maioria do eleitorado?
Acho que é uma questão da própria política, porque a política está muito afastada das pessoas. Ao mesmo tempo, existe uma estrutura financeira muito pesada. As verbas de campanha e o acesso ao eleitor são muito difíceis. Às vezes, as mulheres e as pessoas, de modo geral, nem têm acesso às candidaturas. Nem sabem quem são os candidatos, porque a máquina é muito forte. Chegar até o eleitor é muito difícil, seja pelas redes sociais ou pelo contato corpo a corpo. É preciso ter recursos para andar, para produzir e divulgar um vídeo. A política exige muito investimento financeiro. Às vezes, as pessoas simplesmente não sabem que existem determinadas candidaturas porque não têm acesso a essa informação.
Existe resistência ao discurso de mulheres na política?
Existe uma visão de que a pauta das mulheres é muito segmentada ou radicalizada. Existe a ideia de que as mulheres vão querer combater os homens. Eu não me apresento como uma candidatura “das mulheres”. Eu me apresento como uma candidatura que defende, por exemplo, o fim da violência contra a mulher. Trabalhei com a Bruna na Procuradoria da Mulher da Assembleia. Hoje, no Rio Grande do Sul, uma mulher morre a cada quatro dias, sem contar todos os outros casos de violência. Essa violência também é muito presente nas cidades do interior. O combate à violência contra a mulher não diz respeito somente às mulheres. Os homens também podem e devem se somar a essa causa.
Eleições 2026:
Na cobertura das Eleições 2026, O Florense realiza uma série de entrevistas com os candidatos a deputado estadual e federal que visitam Flores da Cunha e Nova Pádua durante o período de pré-campanha. O espaço permanece aberto a todos os postulantes que procurarem a redação para participar da série. Confira as entrevistas:
- Moacir Ascari Fera (Republicanos) – “Flores da Cunha sente falta de ter uma voz própria”
- Leandro Golin – “Quero mostrar que a inclusão precisa estar em todas as áreas”
- Comandante Nádia – “Mulheres fazem política todos os dias”
- Germano Rigotto (MDB) – “Hoje se debate mais nomes do que projetos”
- José Fortunati (PT) – “Não dá para ficar dialogando somente com os seus”
- Marisol Santos (PSDB) – “A Serra precisa ter cada vez mais voz”
- Diogo Siqueira (PL) – “Os municípios menores da Serra precisam ter uma voz mais forte em Brasília”
- Claudio Branchieri (PL) – “Defendendo menos poder para os políticos e mais liberdade para as pessoas”
- Maurício Marcon (PL) – “
- Divaldo Lara (Republicanos) – “Não precisa votar em louquinho da direita”
- Luis Fernando Rosa (PDT) – “Quero ser um pré-candidato da Serra”
- Carlos Gomes (Republicanos) – “Precisamos avançar na renegociação da dívida dos estados”

