Home Destaque “Quero mostrar que a inclusão precisa estar em todas as áreas”, destaca Leandro Golin

“Quero mostrar que a inclusão precisa estar em todas as áreas”, destaca Leandro Golin

Surdo desde a infância, o candidato a deputado federal pelo PL conta os desafios de levar a pauta das pessoas com deficiência para a política

Enfrentar uma eleição e conquistar o voto das pessoas não é uma tarefa fácil. Para Leandro Golin (PL), o desafio inclui superar as barreiras de comunicação que ainda dificultam a participação política das pessoas surdas. Aos 48 anos, ele quer ser o primeiro deputado federal surdo sinalizante (que utiliza a Língua Brasileira de Sinais – Libras como sua forma de comunicação principal). Esta é sua segunda eleição: em 2024, foi candidato a vereador em Caxias do Sul e conquistou 1.466 votos.

Natural de Antônio Prado, Golin teve uma trajetória marcada pela busca por educação e acessibilidade. Aos três anos, mudou-se com a família para Flores da Cunha, onde permaneceu até os 12 anos, período em que recebeu acompanhamento e frequentou a escola. Depois, mudou-se para Caxias do Sul, onde estudou na Escola Helen Keller, voltada a pessoas surdas. Mais tarde, formou-se em Artes Visuais e atuou como professor na instituição.

Em entrevista ao jornal O Florense, realizada com o auxílio de sua intérprete oficial Letícia Francisco, que o acompanha desde a campanha para vereador, Golin fala sobre sua trajetória, a dificuldade de acesso à informação política para pessoas surdas e defende que a inclusão esteja presente em áreas como saúde, educação, esporte e trabalho.

O Florense: Como começou sua trajetória?
Leandro Golin: 
Eu nasci em Antônio Prado. Quando tinha aproximadamente um ano, tive uma febre muito alta e fui para o hospital. Minha avó começou a observar que eu não respondia aos sons e percebeu que eu era surdo. Minha mãe inicialmente não aceitava, mas depois fomos ao médico e descobrimos a surdez. A partir daí começou toda a minha trajetória de educação e adaptação. Quando eu tinha aproximadamente três anos, minha família se mudou para Flores da Cunha justamente para buscar acompanhamento. Fiquei em Flores dos três aos 12 anos. Depois fui para Caxias do Sul. Passei um ano em uma escola regular e, posteriormente, fui para a Escola Helen Keller, que é voltada para pessoas surdas. Foi ali que tive um contato maior com a comunidade surda e com a Libras.

O Florense: Quando surgiu a decisão de entrar na política?
A política era um sonho antigo. Tentei ser candidato a vereador três vezes, mas os partidos não aceitavam. Havia muito preconceito porque eu era surdo. Eu dizia que tinha capacidade, mas era difícil convencer as pessoas. O PL me aceitou, acreditou em mim e me incentivou. Tenho que agradecer ao (deputado federal Luciano) Zucco por isso.

Como foi essa primeira experiência eleitoral, em 2024, para vereador?
Foi minha primeira eleição e consegui 1.466 votos em Caxias do Sul. Fiquei como suplente. Foi uma experiência importante porque mostrou que as pessoas acreditaram em mim. Agora fui convidado para ser candidato a deputado federal e quero ampliar esse trabalho. Minha candidatura representa não apenas os surdos, mas todas as pessoas com deficiência.

O que pretende defender no Congresso?
Quero defender a inclusão. A inclusão precisa estar presente na saúde, nas escolas, no esporte, no emprego e em todas as áreas. A acessibilidade é um tema transversal. Não pode ficar restrita apenas à discussão sobre deficiência. Na saúde, por exemplo, quando um surdo chega para ser atendido, muitas vezes não existe comunicação. Isso pode gerar situações muito complicadas. Uma pessoa surda pode chegar ao médico e não conseguir explicar onde sente dor ou entender corretamente a orientação. Depois pode ir à farmácia e receber um medicamento sem ter compreendido adequadamente a orientação. Por isso precisamos de acessibilidade e de pessoas preparadas para atender a comunidade surda.

Como pretende atuar em outras áreas?
A política para mim é algo novo, que começou como um sonho de defesa das pessoas. Também quero ajudar a explicar as questões políticas para a população de uma forma simples. Muitas vezes são utilizados termos técnicos que as pessoas não entendem. Precisamos adaptar essa linguagem. Quero usar minha imagem e meu protagonismo para ajudar nisso. Se estamos falando de uma rua, por exemplo, precisamos falar sobre acessibilidade. Se estamos falando de saúde, precisamos falar sobre comunicação. Se estamos falando de educação, também precisamos pensar nas pessoas com deficiência. Minha experiência como pessoa surda pode ajudar a mostrar esses problemas, mas não quero ficar limitado a uma única pauta.

A Câmara dos Deputados está preparada para receber um parlamentar surdo?
Vai ser difícil, com certeza. Estamos falando de uma representação nacional. Mas acredito que essa visibilidade é importante. Existem muitas pessoas com deficiência no Brasil e precisamos mostrar que elas também podem ocupar esses espaços. Quero mostrar o Leandro e usar meu protagonismo para ajudar outras pessoas. É uma responsabilidade grande, mas acredito que é importante para o Brasil.

Como é fazer uma campanha eleitoral sendo surdo?
É mais difícil por causa das barreiras de comunicação. Eu conheço muitos surdos e pessoas com deficiência. Converso bastante pelo WhatsApp e também viajo para diferentes cidades. Em lugares como Santa Maria, Pelotas e Porto Alegre, encontro pessoas que ainda não me conheciam e que ficam felizes ao saber que existe um candidato surdo. A comunidade surda precisa de apoio. O Rio Grande do Sul precisa olhar para isso.

E como era acompanhar as eleições antes de entrar na política?
Era muito difícil. Antes, eu não conseguia acompanhar adequadamente as campanhas. Se não havia intérprete ou legenda, eu não entendia o conteúdo. Muitas vezes a família acabava dizendo em quem votar. Então a pessoa não escolhia necessariamente por conhecer as propostas, os princípios ou os valores do candidato. Hoje, quando há intérprete e acessibilidade, a situação é diferente. É muito importante que as pessoas surdas possam entender diretamente o que os candidatos estão propondo para decidir seu voto.

Como funciona a presença da intérprete durante a campanha?
A campanha precisa ser toda adaptada. Não podemos pensar apenas no surdo. Precisamos pensar nas pessoas cegas, nas pessoas com diferentes deficiências e nas deficiências múltiplas. Eu tenho uma intérprete oficial, a Letícia Francisco, que me acompanha durante toda a campanha. Ela é contratada para estar comigo, fazer a interpretação e ajudar na adaptação das atividades e dos contatos que vamos realizando nas cidades. É uma parceria muito importante. Ela já me acompanha desde a campanha para vereador. Temos também uma amizade de infância, então existe uma conexão muito grande entre nós. Muitas vezes, só de nos olharmos já entendemos o que o outro quer dizer.

O que espera desta eleição?
É uma eleição difícil. Existem muitos candidatos bons, inclusive dentro do próprio PL, e a disputa para deputado federal é bastante concorrida. Mas acredito que precisamos fazer bastante divulgação, principalmente pelas redes sociais, porque temos pouco tempo de campanha. Quero chegar às pessoas com uma mensagem simples: precisamos de inclusão e acessibilidade. No Rio Grande do Sul, existe uma comunidade surda importante e um número ainda maior de pessoas com deficiência. Quero representar essas pessoas, mas também trabalhar por todas as famílias que precisam de políticas públicas mais acessíveis.

Eleições 2026:

O Florense realiza uma série de entrevistas com os candidatos a deputado estadual e federal que visitam Flores da Cunha e Nova Pádua durante o período de pré-campanha. O espaço permanece aberto a todos os postulantes que procurarem a redação para participar da série. Confira as entrevistas:

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