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“Não dá para ficar dialogando somente com os seus”, defende José Fortunati

Candidato a deputado federal pelo PT, ex-prefeito de Porto Alegre fala sobre retorno ao partido e suas expectativas eleitorais em Flores da Cunha

José Fortunati iniciou oficialmente sua campanha a deputado federal no domingo (16), mas aproveitou o primeiro dia do período eleitoral para visitar Flores da Cunha. Natural de São Roque, no interior do município, o ex-prefeito de Porto Alegre aposta nos vínculos familiares e nas amizades construídas na cidade para conquistar votos.

Aos 70 anos e com 50 anos de vida pública, Fortunati voltou ao PT após uma passagem de mais de duas décadas pelo partido, seguida por sua atuação no PDT, legenda pela qual foi prefeito de Porto Alegre. Nesta entrevista ao jornal O Florense, ele defendeu o diálogo com diferentes setores, criticou o atual volume das emendas parlamentares e apresentou suas principais bandeiras para a campanha.

O Florense: Como foi este retorno ao Partido dos Trabalhadores (PT)?
José Fortunati: Eu fiz uma inflexão bastante interessante do ponto de vista partidário. Voltei para o PT há dois anos, depois de muito refletir. Sou fundador do PT. Em 1979, fiz parte da primeira comissão provisória do partido no Estado e, em 1980, já estava entre os fundadores. Fiquei 21 anos no PT. Depois fui para o PDT, onde tive uma trajetória importante. Tenho duas marcas que me orgulham muito. Fui o vereador mais votado da história de Porto Alegre, com 39.989 votos, pelo PT. E, como prefeito, também tive uma grande votação, vencendo a eleição em primeiro turno, com 65,22%, já pelo PDT. O grande patrimônio de quem é homem público é o voto, porque ele representa um reconhecimento. Voltei ao PT com força total e fui convencido a concorrer a deputado federal.

Por que disputar uma vaga na Câmara Federal aos 70 anos?
Tenho 50 anos de vida pública e acredito que a experiência acumulada pode contribuir. Sempre tive facilidade para transitar entre diferentes forças políticas. Uso, inclusive, duas palavras na minha campanha: diálogo e experiência. Tanto como deputado quanto como prefeito, sempre procurei manter uma relação ampla, não apenas com a base do governo, mas também com a oposição. Quero construir, a partir de 2027, um mandato que não seja apenas de um partido. Estou no PT e não nego isso, mas precisamos furar a bolha. Não dá para ficar dialogando somente com os seus. Temos que dialogar com todos os setores. O setor empresarial, por exemplo, é extremamente importante. Conheço empresários muito sérios, inclusive na agroindústria. Precisamos de uma economia forte para gerar empregos adequados, salários adequados e respeito à legislação.

Quais serão as principais bandeiras da sua campanha?
Uma das principais será a política pública voltada às pessoas com 60 anos ou mais. Comecei a me dedicar a esse tema quando era prefeito de Porto Alegre. Criamos uma série de políticas públicas voltadas aos idosos e a cidade acabou sendo reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como cidade amiga do idoso. Há um componente pessoal: minha mãe, Amélia, morava em Caxias do Sul e começou a enfrentar problemas de Alzheimer. Nós a levamos para Porto Alegre e procuramos uma instituição de acolhimento. Foi quando percebi as dificuldades para encontrar uma instituição de longa permanência adequada. Isso me fez perceber ainda mais a necessidade de o poder público investir em políticas voltadas aos idosos, não apenas nas instituições de acolhimento, mas em políticas públicas de forma mais ampla. Essa será uma das minhas principais bandeiras. Depois vem a economia, com um diálogo aberto com todos os setores; a defesa da criança e do adolescente; e a educação. Também não deixo de lado a causa animal, que é uma luta histórica minha.

Sobre a educação, o que chamou sua atenção em Flores da Cunha?
Fiquei muito impressionado com os resultados das escolas do município. Quando duas escolas conseguem índices tão altos, é uma demonstração clara de que é possível construir uma educação pública de qualidade. Não dá para simplesmente dizer que a educação pública não tem salvação. Tem, sim. Quando fui secretário estadual da Educação, no governo Rigotto, em 2004, as escolas públicas de ensino médio do Rio Grande do Sul foram consideradas as melhores do país. É possível conquistar bons resultados. Basta não apenas dizer que a educação é prioridade, mas colocar isso em prática.

Qual é a sua posição sobre as emendas parlamentares?
Sou contra o atual modelo das emendas parlamentares. Considero uma excrescência da democracia. As políticas públicas deveriam ser construídas a partir de planejamento. Na saúde, por exemplo, existem conselhos municipais, estaduais e nacionais, conferências e toda uma estrutura democrática para discutir onde os recursos devem ser aplicados. Hoje, o orçamento do Ministério da Saúde gira em torno de R$ 215 bilhões, enquanto as emendas parlamentares em 2026 representam R$ 61 bilhões. É um volume absurdo. Grande parte desses recursos pode acabar sendo usada de forma populista ou desconectada dos projetos prioritários para o país. Além disso, há os desvios que vêm sendo investigados.

Na prática, muitos municípios e hospitais dependem das emendas. Como pretende agir caso seja eleito?
Chegando sozinho a Brasília, não vou conseguir acabar com as emendas parlamentares. Elas fazem parte do cotidiano do Congresso. Hoje, o grande problema é o volume de recursos. Por isso, minha defesa é pela redução do volume das emendas impositivas. Também defendo o fim das chamadas emendas PIX e das emendas sem autoria, além de mais transparência. Se um parlamentar destina recursos para o Hospital de Flores da Cunha, por exemplo, isso precisa estar devidamente identificado, carimbado e transparente. Uma emenda para o hospital pode ser correta e necessária. O problema é o modelo e a falta de transparência em determinadas situações.

Por que começar a campanha justamente em Flores da Cunha?
Houve uma feliz coincidência. O dia 16 de agosto foi o primeiro dia oficial de campanha e toda a nossa frente estava fazendo o lançamento oficial em Porto Alegre. Eu já tinha programado a viagem para Flores da Cunha. Minha família é de São Roque. Naquela região, a família Fortunati é muito forte. Tínhamos até um time de futebol com 11 atletas da família. Então aproveitei para unir duas coisas: o início da campanha e a relação afetiva com minha comunidade de origem. Gravei conteúdos para a campanha na minha cidade natal e comecei esse roteiro por Flores da Cunha.

O que o senhor espera eleitoralmente de Flores da Cunha?
Não quero criar uma falsa ilusão, mas acredito que posso ter uma boa votação dentro dos parâmetros de uma cidade do porte de Flores da Cunha. Tenho muitos amigos e mantenho relações construídas ao longo do tempo, desde São José, São Rafael, da Banda Municipal, da Furiosa e de outras atividades. Além disso, tenho família no município, tanto do lado Fortunati quanto do lado da minha mãe, a família Santini.

E o que diria ao eleitor que gosta de José Fortunati, mas tem resistência em votar em um candidato do PT?
Primeiro, acho que existe um ataque desmedido contra o PT. A polarização do país exagera nas críticas de lado a lado. Quando se fala do PT, muitas vezes são usadas adjetivações muito pesadas que não correspondem à realidade das pessoas que formam o partido. Basta olhar para as pessoas do PT em Flores da Cunha. São pessoas de bem. Esse é o PT que conheço. O segundo aspecto é que sempre fui uma pessoa que transita além do partido. Sempre procurei furar a bolha. As pessoas de Flores da Cunha podem ter certeza de que continuarei dialogando com todos os setores. Tenho interesse especial pelo setor vitivinícola, porque ele é a base da economia da região. Quero mostrar, acima de tudo, que é possível fazer um trabalho amplo, sem um ranço ideológico ou partidário exagerado. Claro que tenho um lado, estou em um partido e não nego isso. Mas acredito que é possível dialogar e construir pontes muito além das divisões partidárias.

Eleições 2026:

O Florense realiza uma série de entrevistas com os candidatos a deputado estadual e federal que visitam Flores da Cunha e Nova Pádua durante o período de pré-campanha. O espaço permanece aberto a todos os postulantes que procurarem a redação para participar da série. Confira as entrevistas:

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