Ex-governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto volta à disputa eleitoral após oito anos afastado de uma candidatura. Candidato ao Senado pelo MDB, ele esteve em Flores da Cunha na quarta-feira (19) e ressaltou seus laços com o município, onde construiu uma trajetória eleitoral expressiva ao longo da carreira política.
Em entrevista ao jornal O Florense, Rigotto falou sobre os motivos que o levaram a retornar à política, criticou a atual relação entre Executivo, Legislativo e Judiciário e defendeu mudanças na estrutura do Supremo Tribunal Federal. Também apresentou como prioridades para o Senado a responsabilidade fiscal, a questão climática, a dívida do Estado e a reforma tributária.
O Florense: O que o fez voltar as campanhas eleitorais?
Germano Rigotto: Quando as pessoas perguntam por que voltei depois de tanto tempo, primeiro é importante lembrar que não fiquei afastado de tudo. Durante esse período, dei palestras sobre cenário econômico e reforma tributária e atuei como conselheiro de grandes entidades. Também já havia uma expectativa do MDB para que eu fosse candidato quatro anos atrás. Naquela ocasião, eu estava aceitando, mas dei um passo atrás porque olhava para o Congresso Nacional e não me animava muito. Eu havia sido líder na Câmara, líder do MDB, líder do governo Fernando Henrique Cardoso e presidente de importantes comissões. Pensei: vou voltar para um Congresso totalmente diferente? Agora, além do partido, comecei a ouvir isso na rua. As pessoas diziam que eu precisava voltar, que o cenário nacional estava muito ruim e que minha experiência poderia contribuir. Eu nunca fui senador. Fui vereador, deputado estadual, deputado federal e governador. Tenho uma experiência acumulada ao longo do tempo e acredito que, dentro do quadro que estamos vivendo, ela pode fazer diferença.
Por que escolher o Senado, e não voltar à Câmara dos Deputados?
Porque são 81 senadores, enquanto a Câmara tem 513 deputados. Na Câmara há muito mais bancadas, muito mais líderes e uma dificuldade maior para trabalhar. Hoje existe uma preocupação excessiva com as emendas parlamentares, com cerca de R$ 60 bilhões envolvidos. Isso é um absurdo, na minha visão. Não importa quem seja o presidente da República. Seja Bolsonaro, Lula ou o próximo presidente, não é bom que o Congresso entre no orçamento da forma como está entrando. Há ainda o problema das emendas sem transparência, que podem levar a fisiologismo, clientelismo e corrupção. No Senado, pela quantidade menor de parlamentares, há mais possibilidade de elaborar uma pauta e discutir conteúdo.
Como trabalhar o diálogo em um cenário de tanta polarização política?
Minha vida política tem muito disso. Em 2002, ganhei a eleição para governador com uma proposta de pacificação do Estado. O Rio Grande do Sul vivia uma situação parecida com a que estamos vendo hoje em nível nacional. Não critico quem é de esquerda, direita ou centro. Cada um tem o direito de ter sua posição. O que critico é que, hoje, existe ódio, raiva, ideologização de tudo e personalização do debate. O debate político está muito centrado em duas pessoas, e não em conteúdo ou projeto. Isso não está fazendo bem ao Brasil. É difícil romper essa polarização, mas é possível ter polarização sem ódio, sem dividir famílias e sem dividir amigos. Hoje vejo uma campanha eleitoral muito mais preocupada em discutir nomes do que projetos para o Brasil.
Como pretende atuar no Senado diante desse ambiente?
Vou entrar com minhas ideias, minha opinião, meu projeto, minha forma de ser e, principalmente, minha capacidade de respeitar quem pensa diferente. Tenho capacidade de diálogo, de articulação e de construção, além da experiência que pode ajudar no trabalho no Senado. Eu não vou mudar minha forma de ser. Sempre fui uma pessoa de diálogo e de articulação. Lembro da campanha de 2002. Naquele momento, havia duas candidaturas que se atacavam muito. Eu apresentei um caminho diferente, sem raiva, sem ódio e sem ficar preocupado em atacar os adversários, mostrando meu projeto. Ganhei aquela eleição saindo de cerca de 2%, contra dois candidatos que tinham aproximadamente 32% cada um. Depois disso, as eleições seguintes mudaram. Não havia tanta raiva, tanto ódio e tanta preocupação em atacar quem estava concorrendo. Hoje, infelizmente, o quadro nacional dificulta novamente essa possibilidade de diálogo.
Qual deve ser a primeira missão dos senadores gaúchos no Congresso?
Precisamos atacar esse choque entre os Poderes. Isso significa olhar para um Executivo gastador e irresponsável na questão fiscal. O Senado precisa exercer um controle maior sobre o Executivo. Mas o Congresso também precisa ter responsabilidade. Hoje temos um Executivo que gasta mais do que deveria e um Congresso que também contribui para o aumento das despesas. Uma das funções do Senado é tentar frear isso e mostrar caminhos que signifiquem responsabilidade fiscal. Também temos um Supremo Tribunal Federal que, em algumas situações, entra em espaços que não são seus. Quando o Congresso toma uma decisão majoritária e uma minoria recorre ao Supremo, muitas vezes o tribunal acaba derrubando aquilo que a maioria decidiu. Se não houver uma questão claramente constitucional, o Supremo deveria deixar que o Congresso resolva aquilo que é de sua competência.
O candidato defende mudanças na estrutura do Supremo Tribunal Federal. Quais?
Não vou ao Senado simplesmente para “caçar ministro”. Se um ministro errou e houver um processo de impeachment, é obrigação do Senado analisar e votar. Mas o problema do Supremo começa na forma de escolha dos ministros. Defendo que, em vez de o presidente da República indicar diretamente o ministro, sejam apresentados nomes por diferentes instituições. Poderiam ser dois nomes indicados pela OAB, dois pelo Conselho Nacional de Justiça e dois pelo Conselho Nacional do Ministério Público. O Senado escolheria três desses seis nomes e, então, o presidente escolheria um. Isso daria mais legitimidade e poderia reduzir a desconfiança em relação aos ministros, que hoje muitas vezes são identificados como alguém indicado por determinado presidente — Temer, Bolsonaro ou Lula. Mas reforço: minha prioridade não é o Supremo. Minha prioridade é o choque entre os Poderes. Vejo uma desconfiança crescente da sociedade em relação aos três Poderes.
E qual deve ser a posição do Senado diante dessa situação?
O Senado precisa formar opinião e mostrar caminhos que possam melhorar esse cenário. Não adianta simplesmente chegar lá para bater de frente com o sistema. É preciso ter condições de construir alternativas. Minha experiência de governo me ensinou isso. Quando fui governador, enfrentei muitas dificuldades. Tínhamos uma dívida pesada, não podíamos fazer financiamentos e o Estado estava no limite de endividamento previsto pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Mesmo assim, tínhamos uma convicção muito clara sobre o que estávamos fazendo. Eu dizia à minha equipe que poderíamos ser criticados por aquilo que não conseguimos fazer por falta de condições. O que não poderíamos era ser criticados pela utilização errada de recursos públicos. Terminei meu governo sem uma CPI na Assembleia Legislativa e sem um processo no Ministério Público. Eu tinha diálogo com a oposição, respeitava a oposição e não dava motivos para que ela pudesse me atacar indevidamente. Acredito que essa forma de agir pode me ajudar no Senado, dentro de um país tão dividido.
E a questão da dívida do Rio Grande do Sul, como pode contribuir?
O Rio Grande do Sul não tem condições de voltar a pagar a dívida no próximo ano sem enfrentar problemas sérios. O não pagamento da dívida tem relação direta com a necessidade de garantir a continuidade do fundo de reconstrução. O trabalho de reconstrução ainda não terminou e existem novas ameaças climáticas pela frente. Tivemos dois tornados em poucas semanas no Rio Grande do Sul, algo que não era normal. Estamos vivendo uma mudança climática que parece estar impactando o Estado de forma mais intensa do que outras regiões. Precisamos estar mais preparados. Uma das lutas no Senado será garantir a suspensão do pagamento da dívida por três anos. Defendo a criação de um fundo de desenvolvimento para o Rio Grande do Sul que possa considerar os impactos provocados pelas mudanças climáticas. O Nordeste, o Norte e o Centro-Oeste possuem mecanismos de desenvolvimento que o Sul não tem. Precisamos avançar na criação de um Fundo de Desenvolvimento para a Região Sul. Essa será uma luta importante no Senado.
Eleições 2026:
O Florense realiza uma série de entrevistas com os candidatos a deputado estadual e federal que visitam Flores da Cunha e Nova Pádua durante o período de pré-campanha. O espaço permanece aberto a todos os postulantes que procurarem a redação para participar da série. Confira as entrevistas:
- José Fortunati (PT) – “Não dá para ficar dialogando somente com os seus”
- Marisol Santos (PSDB) – “A Serra precisa ter cada vez mais voz”
- Diogo Siqueira (PL) – “Os municípios menores da Serra precisam ter uma voz mais forte em Brasília”
- Claudio Branchieri (PL) – “Defendendo menos poder para os políticos e mais liberdade para as pessoas”
- Maurício Marcon (PL) – “
- Divaldo Lara (Republicanos) – “Não precisa votar em louquinho da direita”
- Luis Fernando Rosa (PDT) – “Quero ser um pré-candidato da Serra”
- “Carlos Gomes (Republicanos) – Precisamos avançar na renegociação da dívida dos estados”

