Há poucos anos, desenvolver uma campanha publicitária significava reunir referências, organizar pesquisas, escrever diferentes versões de um texto e revisar materiais para só então apresentar uma proposta ao cliente. Hoje, boa parte desse caminho pode ser percorrido com o auxílio da inteligência artificial (IA), que passou a integrar a rotina das agências de comunicação e altera a forma como profissionais criam, planejam e executam projetos.
Essa mudança ocorre em ritmo acelerado. O AI Index Report 2026, elaborado pela Universidade de Stanford, aponta que 88% das organizações no mundo já utilizam inteligência artificial em pelo menos uma área de seus negócios. A discussão não gira em torno de adotar ou não a IA, mas de compreender como utilizá-la de forma estratégica e responsável, preservando a identidade das marcas e a qualidade das entregas.
— A criação de títulos, que muitas vezes são sempre parecidos e antes eu perdia muito tempo fazendo manualmente, hoje consigo apenas digitar um prompt e ela me entrega pronto — exemplifica Isabela Lisboa, da Agência Quanta, de Caxias do Sul.
Da operação à estratégia
Essa transformação também já faz parte da rotina da Agência Dinâmica. A diretora administrativa, Júlia Dini Ferreira, conta que a inteligência artificial passou a ser utilizada em diferentes etapas do processo de trabalho.
— Ela nos ajuda a organizar e analisar dados com mais agilidade, seja em monitoramento, pesquisas ou na revisão de materiais antes da entrega. Com isso, ganhamos espaço para dedicar tempo à parte que realmente importa, que é pensar estratégia ao lado do cliente e entender o que cada história precisa para ser contada da melhor forma — destaca.
Na prática, o ganho não está apenas na velocidade. Ao reduzir o tempo dedicado às tarefas operacionais, a equipe consegue aprofundar o planejamento das ações, acompanhar mais de perto os clientes e concentrar esforços em atividades que exigem interpretação, criatividade e tomada de decisão.
— A comunicação com os clientes também fica mais ágil, porque conseguimos responder com embasamento de forma mais rápida, sem abrir mão da qualidade — ressalta a diretora da Dinâmica.
Muito além dos chats
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta para responder perguntas ou produzir textos. Nas agências, ela começa a assumir funções que, até pouco tempo atrás, exigiam horas de trabalho manual ou conhecimentos específicos de programação.
Na Dinâmica, nas últimas semanas, a empresa iniciou testes com soluções de programação voltadas ao endomarketing, ampliando as possibilidades de personalização das entregas para os clientes.
— Estamos sempre testando novas frentes de uso e começamos a explorar soluções de programação aplicadas a ações de endomarketing. São projetos ainda em desenvolvimento, mas que mostram um universo de possibilidades muito maior do que a maioria imagina quando pensa em inteligência artificial, geralmente associada apenas a perguntas feitas em um chat — explica a diretora administrativa Júlia.
Para ela, a rápida evolução das ferramentas mudou o foco da discussão dentro das agências. A questão deixou de ser a adoção da tecnologia e passou a ser a capacidade de utilizá-la de forma estratégica.
— Hoje, esse uso já é praticamente inevitável. Ela chegou para ficar e, por isso, mais do que discutir se usamos ou não, o que realmente importa é como usamos. Para nós, ela é uma aliada da inteligência humana que já existe na equipe, e não um substituto dela — ressalta.
“Vemos a IA como uma assistente de apoio”
Na Agência Ellite, a experiência segue pelo mesmo caminho. Segundo o diretor Lucas Bragagnolo, a inteligência artificial passou a ser utilizada principalmente em atividades burocráticas e repetitivas, reduzindo o tempo gasto com processos internos e permitindo que a equipe concentre esforços em decisões que exigem análise, criatividade e planejamento.
— Nos processos burocráticos, automatizados e rotineiros, a inteligência artificial soma muito ao nosso trabalho porque simplifica, agiliza e faz com que tenhamos um processo mais rápido — afirma.
Na avaliação de Bragagnolo, a principal mudança não está na substituição de profissionais, mas na redistribuição das funções dentro das equipes. Enquanto a tecnologia executa tarefas operacionais, cabe aos profissionais da comunicação definir estratégias, interpretar cenários e construir soluções alinhadas aos objetivos de cada cliente.
— Nós vemos a inteligência artificial como uma assistente de apoio estratégico e operacional. A intuição, a estratégia, os formatos e a criatividade continuam muito ligados à nossa equipe. A gente não substituiu os nossos colaboradores pela IA. Nós colocamos a IA para trabalhar junto com eles — destaca.

