Enquanto Flores da Cunha ainda tenta compreender a dimensão da perda causada pelo incêndio que atingiu a Igreja Matriz Nossa Senhora de Lourdes, a comunidade já começa a olhar para o futuro. Embora ainda não exista um projeto definido para a reconstrução do templo, o debate sobre o que deve ser preservado já mobiliza moradores, historiadores, pesquisadores e representantes ligados à memória da Terra do Galo.
Antes de qualquer estimativa mais precisa de custo, o primeiro ponto a ser definido é técnico: a possibilidade de preservação das paredes que permaneceram de pé após o incêndio. A escolha entre uma intervenção de restauro ou uma reconstrução integral altera completamente o dimensionamento da obra.
Especialistas também destacam que um projeto dessa natureza exige equipes altamente especializadas em patrimônio histórico, o que restringe o número de profissionais aptos a conduzir o processo.
Entre R$ 30 milhões e R$ 50 milhões
Nesse cenário ainda inicial, projeções indicam que o investimento pode partir de R$ 30 milhões e ultrapassar os R$ 50 milhões, a depender do nível de fidelidade ao projeto original e das soluções estruturais adotadas.
No que diz respeito ao prazo, a ausência de um projeto definido também impede uma estimativa exata. Ainda assim, referências de obras semelhantes apontam que uma reconstrução conduzida com rigor técnico pode levar entre cinco e dez anos até sua conclusão e reabertura.
Diante disso, a reportagem do jornal O Florense procurou diferentes pessoas ligadas à preservação histórica e cultural do município com uma mesma pergunta: o que não pode faltar em uma futura reconstrução da Igreja Matriz?
Madeleine Ferrarini, diretora do Instituto Flávio Luis Ferrarini:
“A igreja será reconstruída. Porém, infelizmente, será muito difícil restaurá-la exatamente como era, considerando a dimensão dos danos e a perda de tantos elementos históricos originais. Acredito que a reconstrução deva buscar referências da igreja anterior às grandes reformas, resgatando ao máximo suas características originais e sua essência histórica. Como uma entidade que defende a importância da história, entendemos que a futura construção deva preservar os elementos marcantes, como o estilo neogótico, os vitrais, os afrescos, as imagens sacras e a atmosfera acolhedora que faziam parte da memória coletiva da cidade. ”
Danúbia Otobelli, historiadora e jornalista:
“É fundamental que a reconstrução não fuja do estilo neogótico original. Contudo, o ponto principal é contratar uma equipe especializada em restauro arquitetônico, capaz de conduzir os trabalhos de forma técnica e minuciosa. Sabemos, inclusive, que as reformas anteriores pelas quais a igreja passou ao longo do tempo acabaram descaracterizando e fazendo com que muito do seu acervo original se perdesse, a exemplo das pinturas internas e do piso. Portanto, o rigor técnico e o respeito à identidade histórica são os pilares que não podem faltar para devolver à comunidade a essência da Matriz. ”
Ivo Gasparin, professor e escritor:
“Esta é uma resposta mais técnica do que emocional. De acordo com profissionais, o calor intenso destrói a resistência da argamassa de assentamento fazendo que ela esfarele e que pode ter um comprometimento de resistência para suportar o próprio peso. Emocionalmente, todos nós gostaríamos de ver ressurgir a mesma imagem com o máximo dos seus detalhes. Porém, se as estruturas não resistirem, sou de opinião de que, com toda a modernidade que existe hoje, neste local de onde emana tanta religiosidade, dever-se- edificar uma nova igreja adaptada ao nosso clima com aconchego e calefação. ”
Floriano Molon, historiador e escritor:
“Há muitos recursos hoje que facilitam as construções. O que mais sentiremos falta são os detalhes artísticos, como as pinturas de Antonio Cremonese. Desde o início do incêndio, fiquei buscando alguma imagem sobre o altar. Imaginava um monte de entulhos, cinzas, qual não foi a surpresa de vê-lo belo, intacto, com as imagens enegrecidas sim, mas ainda presentes da Padroeira Nossa Senhora de Lourdes e dos santos José e Pedro. Surpresa maior, ao ver sair do sacrário intacto, cibórios com as hóstias consagradas. Não pode faltar a contribuição de toda a comunidade e o crescimento também da espiritualidade. ”
Gissely Lovato Vailatti, professora e historiadora:
“Sem dúvidas, a preservação da fachada, das imagens e objetos sacros, detalhes decorativos e históricos que possam ser reaproveitados, são elementos fundamentais a serem preservados. A verticalidade da igreja, que marca a memória coletiva das construções da área urbana, também é muito relevante. Seria primordial, entretanto, que o novo preserve detalhes que possam dar a ideia de continuidade dessa história, com um espaço memorial, por exemplo. ”
Fase de avaliação
Em nota, a Prefeitura afirma que ainda é cedo para definir qualquer encaminhamento sobre a reconstrução da Igreja Matriz, mas ressalta a intenção de manter as características originais da igreja. Confira a nota na íntegra:
“A intenção, naturalmente, é preservar ao máximo as características históricas e originais da igreja, que possui um valor muito importante para a comunidade florense, mas isso também dependerá das orientações técnicas. Desde o primeiro momento, a Prefeitura e a Paróquia Nossa Senhora de Lourdes estão atuando de forma conjunta, acompanhando a situação, prestando apoio e construindo os encaminhamentos necessários em diálogo permanente. Além da mobilização da comunidade, serão buscadas todas as alternativas possíveis e que estiverem ao alcance para auxiliar no processo, incluindo a avaliação de recursos e apoios junto a outras esferas e instituições ligadas à preservação do patrimônio. ”
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