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Bares e restaurantes de Flores da Cunha registram clientes mais cautelosos e consumo menor

Empreendedores afirmam que o público continua frequentando os estabelecimentos, mas compra menos e pressiona a margem de lucro em meio ao aumento dos custos
O xis cortado ao meio é exemplo da perda do poder de compra dos clientes em lancherias (Foto: Klisman Oliveira)

No fim da tarde, o balcão começa a ganhar vida. Chegam os clientes de sempre, as primeiras mesas são ocupadas e a conversa toma conta do ambiente. Um chope, uma cerveja compartilhada, um pastel ou um xis continuam fazendo parte do ritual de quem procura um bar para encerrar o dia. Mas, para quem vive desse movimento, a cena mudou: o cliente continua vindo, só que passou a consumir menos.

Depois de um período de dificuldades, o setor de alimentação fora do lar dá sinais de recuperação no Rio Grande do Sul. A pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) mostra que, no fim de 2025, mais da metade dos estabelecimentos operou com lucro e a maioria dos empresários iniciou 2026 com expectativa de crescimento.

O cenário, contudo, ainda está longe de ser uniforme. Um levantamento mais recente da entidade, em março, apontou que apenas 35% dos bares e restaurantes gaúchos registraram lucro em fevereiro. Outros 31% operaram no prejuízo e 34% encerraram o mês em situação de estabilidade.

O estudo ainda indica que muitos empreendedores seguem enfrentando dificuldades para repassar o aumento dos custos aos consumidores e convivem com dívidas, principalmente relacionadas a impostos.

“Xis cortado ao meio”

Em Flores da Cunha, quem vive atrás do balcão ajuda a explicar por que os números nem sempre contam toda a história. O movimento continua. Os clientes seguem aparecendo. O problema é que cada mesa rende menos do que antes.

Há 25 anos no comando do Bar do Beto, no bairro Granja União, Roberto Dagort percebe essa mudança nos detalhes.

— O bar está com um movimento bom, mas não é o que era uma vez. Poderia estar melhor. Eu fazia muito xis e hoje o pessoal pede xis cortado ao meio. Os mesmos clientes que até pouco tempo atrás pediam dois lanches agora pedem um só e dividem — conta.

A mudança, em sua opinião, não está na fidelidade dos clientes, mas em seu poder de compra.

— Eles não deixaram de vir. O que diminuiu foi o consumo. Antes o pessoal pegava cinco cervejas e “tava” tranquilo. Hoje toma uma ou duas, olha o preço, pergunta quanto custa e reclama. O custo de vida tá muito caro e o dinheiro não vale mais nada — opina o empreendedor.

A realidade é diferente, mas também cheia de desafios para a Bokão Conveniência, que em 2026 completa 11 anos de funcionamento no Centro de Flores da Cunha. A sócia-proprietária Marisilvia Sgarioni afirma que o movimento oscila conforme fatores que fogem do controle do comerciante.

— Depende muito do tempo, se estamos em semana de pagamento, se tem atrações na Praça (da Bandeira). Sempre foi assim para nós. Como nunca demos um passo maior que a perna, conseguimos manter uma certa estabilidade — relata a empreendedora.

Se o consumo mudou em um estabelecimento, no outro quem mudou foi o público.

— Cada ano vem uma geração nova. Os clientes antigos ainda aparecem, mas vêm menos por causa do trabalho, da família e das responsabilidades. Mesmo assim, ainda recebemos pessoas que frequentam a conveniência desde a nossa inauguração.

Uma preocupação une os dois empreendedores: os custos. No Bar do Beto, Dagort calcula que a conta de energia saltou de cerca de R$ 500 para aproximadamente R$ 3 mil por mês. A de água dificilmente fica abaixo de R$ 1 mil.

— Tentamos comprar equipamentos novos, desligar uma geladeira e deixar só outra ligada, mas não adianta. O que mais pesa hoje são os impostos, além da água e da luz. Há uns 10 anos, eu vendia dois tragos e conseguia comprar um litro de Velho Barreiro ou de 51. Hoje, para conseguir comprar o mesmo litro, a gente precisa vender quatro — compara o comerciante.

Para compensar a redução da margem de lucro, foi preciso reinventar a rotina.

— Hoje compro carne direto dos frigoríficos para valer a pena. Depois eu mesmo limpo, corto, faço os bifes, preparo o guisado… acabei montando um “açouguezinho” dentro da lancheria para economizar.
Marisilvia compartilha da mesma preocupação.

— O que mais pesa no caixa, sem dúvida, são os impostos. Sempre foi assim: aumenta um produto, logo aumenta outro. Como não pagamos aluguel, conseguimos manter um preço justo para o cliente e também para nós — avalia.

Menos impostos e mais eventos nos fins de semana

Apesar das dificuldades, nenhum dos dois empreendedores perdeu de vista o motivo que faz o cliente voltar. No Bar do Beto, o sábado ao meio-dia é quase uma celebração.

— Parece uma festa. O pessoal chega por volta das 11h para almoçar, pede uma caipira e o movimento vai até umas três da tarde. Se todos os dias fossem como o sábado, estava bom — brinca Roberto Dagort.

Na Bokão, as quintas-feiras e os domingos seguem concentrando o maior fluxo de clientes. Para Marisilvia, além de reduzir a carga tributária, incentivar eventos no município também ajudaria a movimentar os pequenos estabelecimentos.

— O que falta é menos imposto e mais parceria com a Prefeitura, promovendo eventos para os jovens nos fins de semana. Assim, turistas e a própria população participam, e isso gera lucro para o comércio — sugere.

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