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Mudança no comportamento do consumidor transforma rotina de bares e restaurantes

Empreendedores apontam crescimento do delivery, público mais cauteloso e valorização da experiência como fatores que vêm redesenhando o setor em Flores da Cunha e Nova Pádua
Nosso Café busca acompanhar as preferências dos clientes por alimentação e convivência (Foto: Klisman Oliveira)

Nem toda mudança aparece no caixa. Em muitos bares e restaurantes ela está no comportamento de quem senta à mesa. O público mudou, os hábitos também. Enquanto alguns estabelecimentos percebem um consumidor mais atento à alimentação e menos disposto a estender a noite, outros observam o crescimento do delivery, a mudança no perfil do cliente e a necessidade de adaptar o negócio.

Há 12 anos à frente do Nosso Café, em Flores da Cunha, Celio Brancalione acredita que a principal transformação aconteceu fora da cozinha.

— Nós observamos uma mudança cultural, as pessoas estão mudando e “ou tu se enquadras ou tu ficas para trás”. As pessoas não querem mais saber da ressaca do dia seguinte. As pessoas estão se moldando e indo cada vez mais para o lado da alimentação — avalia o empreendedor.

Na prática, essa mudança influencia as decisões do negócio. Os baurus e as alaminutas seguem entre os pratos mais pedidos, ao lado de porções e petiscos. Já o gelato e o açaí concentram as vendas nos dias mais quentes.

Apesar das adaptações, ele percebe que o movimento ainda não retomou o ritmo de outros anos. A sexta-feira à noite, que historicamente sempre foi o ponto alto do Nosso Café, continua sendo o principal termômetro para o empresário.

— Eu diria que, se compararmos com um ou dois anos atrás, estamos estagnados. Poderíamos estar um pouco melhor. A noite sempre foi muito forte para a gente.

Nos meses mais frios, quando sair de casa se torna menos atrativo, o comportamento do consumidor muda e o delivery ganha espaço.

— No inverno aumenta muito o delivery. Tem aquela dinâmica: “se chover e molhar o cabelo, normalmente a mulher não sai de casa”. E a mulher hoje é quem puxa a fila para ir até o estabelecimento — observa.

A própria vida social dos mais jovens, segundo ele, passou por uma transformação. Se antes o bar era um dos principais pontos de encontro, hoje parte desse público prefere organizar encontros em casa.

— Percebemos uma diferença de públicos. Normalmente quem sai à noite é o pessoal de 30 anos para cima. A gurizada hoje em dia faz festas em casa — destaca.

Para o proprietário do Nosso Café, uma das mudanças positivas dos últimos anos foi a valorização do turismo em Flores da Cunha.

— A gente evoluiu muito nos últimos anos no turismo. Foi de fato voltado o olhar para o nosso segmento, que antes não se dava valor. Só se falava em indústria e comércio. A gente precisa trazer o pessoal de fora, em parceria com os hotéis, e moldar a comunidade — defende Brancalione.

Impacto da Copa do Mundo

Em nível nacional, as vendas de bares e restaurantes cresceram 4,2% no segundo trimestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano passado, segundo o Índice Abrasel-Stone. Em junho, o setor avançou 2,6% em relação ao mesmo mês de 2025. Entre os estados analisados, o Rio Grande do Sul teve um dos melhores desempenhos, com crescimento de 5,6% nas vendas.

“Cada vez mais difícil encontrar profissionais”

Em Nova Pádua, a percepção é de que os anos mais difíceis ficaram para trás, embora administrar um restaurante continue exigindo atenção diária aos custos. Na Pousada e restaurante Del Miro, o movimento varia bastante ao longo da semana e ganha força nos finais de semana.

— Costuma aumentar bastante, principalmente porque a pousada, que fica junto ao restaurante, também recebe mais hóspedes. O momento exige bastante cuidado. Os custos aumentaram nos últimos anos, a margem de lucro diminuiu e os impostos continuam pesando bastante para o setor — relata o sócio-proprietário William Menegat.

Para o empreendedor paduense, o cenário atual é mais favorável do que o vivido há poucos anos.

— A gente passou por muitos desafios. Teve a pandemia, as enchentes e os períodos de abre e fecha, que afetaram bastante o nosso ramo. Hoje acredito que a situação esteja melhor do que há dois anos. Aos poucos o movimento foi voltando e o cenário está mais estável para trabalhar — compara.

Entre os pratos mais procurados estão o queijo frito e a parmegiana, mas manter a clientela passa por decisões que nem sempre aparecem no cardápio.

— A gente procura negociar com fornecedores, reduzir desperdícios e melhorar a gestão para amenizar esses custos. Mesmo com o aumento (dos insumos), optamos por não repassar todo esse reajuste para os clientes, justamente para manter os preços competitivos e não perder movimento — explica Menegat.

Encontrar profissionais qualificados é outro desafio relatado pelo empreendedor de Nova Pádua.

— Além do custo para contratar, está cada vez mais difícil encontrar profissionais qualificados e comprometidos, e isso acaba afetando o dia a dia dos estabelecimentos — lamenta.

Para além do preço e do cardápio, Menegat acredita que existe um fator que ainda faz o cliente retornar: a forma como ele se sente dentro do estabelecimento.

— A gente percebe que os clientes continuam valorizando uma boa experiência. Sempre buscamos oferecer um atendimento de qualidade e um ambiente acolhedor. Isso faz diferença — conclui.

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