A escalada de tensão entre Irã e Estados Unidos já produz efeitos diretos na economia global e começa a ser sentida de forma concreta na Serra gaúcha. Em Flores da Cunha, os reflexos atingem diferentes frentes da economia: empresas da indústria do plástico operam sob aumento sucessivo no custo das matérias-primas, produtores rurais enfrentam pressão sobre insumos e transporte, enquanto transportadoras lidam com a alta dos combustíveis e a instabilidade no frete.
A pressão sobre os custos tem origem em um dos pontos mais sensíveis da economia internacional: o Estreito de Ormuz, corredor marítimo por onde passa 20% de todo o petróleo consumido no mundo. Qualquer ameaça de bloqueio ou restrição na região, localizada no Oriente Médio, gera reação imediata nos preços internacionais do petróleo, um efeito em cadeia que se espalha por diferentes setores da economia.
Esse cenário de instabilidade global reflete-se diretamente no preço do diesel, que subiu cerca de 25% e atingiu em cheio o cotidiano das transportadoras brasileiras. Na Terra do Galo, o proprietário da Transena, Renato Venturini, 61 anos, detalha como o efeito da guerra é sentido em nossa região.
— Os custos com o frete aumentaram 10%. É um baque, como se diz, deu a bomba lá, mas a bomba veio para cá. E, depois, os nossos comerciantes são muito ligeiros. Deu o troço lá e, no dia seguinte, já aumentou aqui. Não sei quanto tempo demora (o reflexo), mas deveria ser uns 30, 40 dias para chegar (o aumento).
Nesse sentido, o proprietário frisa a necessidade de fiscalização por parte dos órgãos competentes. Segundo Venturini, os comerciantes “não perdem tempo” e “abusam” elevando os preços dos combustíveis nas bombas quase que imediatamente, mesmo sem ter pago por esse aumento.
— Para nós irmos e voltarmos de Recife (PE) vão 4 mil litros de óleo diesel. Pagando o pedágio, motorista e tudo, sobra entre R$ 10 mil e R$ 11 mil (pelo transporte). Só que 4 mil litros, num aumento de R$ 2,00 a R$ 2,20, totaliza R$ 8.400,00 a mais de custo para nós (transportadora) — aponta.
Venturini destaca que não pode repassar esse valor aos clientes, pois contratos já estão fechados com preços da época.
— Hoje, nas cargas novas, tu repassas, mas não consegue repassar tudo porque a concorrência já está indo. A gente falou em subir e o cliente já diz: “Mas fulano já estava me oferecendo por menos”. É aquela coisa, não adianta, estamos “levando chumbo grosso”.
“Quem conseguir se manter já é herói”
Dos 26 anos que trabalha com transportadora, Venturini conta que nunca vivenciou um cenário parecido com o atual.
— De subir o combustível assim, de vez, nunca aconteceu. Teve vários aumentos, mas aí era tudo divulgado antes e íamos repassando. Eram só alguns dias de prejuízo. Dessa vez foi violento. Teve uma alta de 25% no combustível e subiu o lubrificante também. Foi um choque. E aí tu tens que engolir o prejuízo, não tem o que fazer — desabafa.
O empresário também conta que o cenário de insegurança faz com que fique com “os dois pés atrás” para investir, afinal o trabalho não está gerando os devidos lucros e é necessário “ir devagar”, sem se arriscar.
— Esse ano quem conseguir se manter já é herói. Porque se tiver conta meio pesada para pagar, já não vai conseguir. Pelo menos não trabalhando com o transporte.
Venturini cita a crise de 2013, no governo de Dilma Rousseff (o ano foi marcado por reajustes graduais nos combustíveis e pressões políticas), como uma das mais desafiadoras para o setor, mas acredita que essa está sendo ainda pior:
— Essa vai pegar parelho, e não adianta, temos que achar o meio-termo para continuar, para se manter. Ter uma empresa é como ter uma bola que está sempre girando, não tem como parar — compara.
Nesse sentido, o proprietário conta que nunca trabalhou com dívida, sempre teve uma reserva para o caso de “se apertar”, mas que, em virtude da insegurança do preço do diesel, essa reserva está cada vez menor.
“O preço dos caminhões está nas nuvens”
Outra dificuldade do setor de transportes são os valores dos caminhões. Conforme Venturini, os veículos tiveram um grande aumento durante a pandemia de Covid-19, chegando a dobrar, e hoje continuam elevados.
— O preço dos caminhões está nas nuvens! O caminhão que estava R$ 400 mil, o melhor que tem, foi para R$ 900 mil. E não baixou, está na média de R$ 880 mil um cavalinho (caminhão que puxa a carreta) daqueles melhorzinhos. Não é fácil; é quase R$ 1 milhão.
O proprietário da Transena explica que, também por essas razões, as frotas de caminhões estão cada vez mais “sucateadas”, isto é, deterioradas ou em péssimas condições de uso.
Atualmente a Transena conta com 50 caminhões que viajam e atendem todo o Brasil. Como principais produtos, a transportadora costuma levar guindastes e bebidas produzidas em Flores da Cunha e volta com cargas de polietileno e açúcar.

