Não é nada só meu “È tútto nóstro”. Essa era a fala do meu pai. Lembro que eu era criança e ouvia ele repetir essa frase, com vizinhos, amigos, familiares e com quem ele parava para conversar aleatoriamente. E assim continuou pela vida a fora, junto aos seus passos tranquilos e fala mansa, que era construída com todos que, de alguma razão, passavam pela sua vida.
Essa frase, que ele repetia, hoje é mencionada pela minha família, quando todos riem, porque sabem de quem ela veio. O “È tútto nóstro” significava além da taipa a que meu pai se referia e que fazia parte da nossa porção de terra. Enfatizava que as alegrias dele eram nossas também, e que as lutas dos outros abraçavam a todos nós. Onde os limites de fronteiras são fluídos, e podem se alterar a todo instante, nada é definitivamente o que se mostra. E é ali que empacamos, pois desejamos construir verdades absolutas e elas não conseguem se manter.
Eu, no meu olhar infantil, estranhava essa afirmação, que só desvendei mais tarde. A fala dele era mais ampla do que minha capacidade de compreensão na época, até porque não desejava dividir minha única boneca descabelada e desajeitada com ninguém. Vejo hoje, através das minhas lembranças, que ela também não era somente minha.
O sol é nosso, o ar que respiramos é nosso, a responsabilidade é nossa. A colheita é nossa. As obrigações são nossas também.
Ainda hoje, as inseguranças de um são de todos nós. Os medos, ah! os medos, eles se atravessam em nós. Procuramos maneiras de aliviá-los, ou melhor seria dizer: compreendê-los. Nós apropriando deles, conseguiremos seguir dando a mão para o que mais nos causa aflição e, assim, seguimos procurando alternativas de acomodar nossas angústias.
Aquele homem simples deixou belas e significativas lições para todos que conviveram com ele. Os registros que ficaram, agora que ele se foi, são muitos! E cada vez fica mais claro e verdadeiro, esse dizer.
A vida pulsava nele e as verdades sábias também!