Em outros tempos, abominei o mês de abril por representar o final do verão; hoje tenho gosto por ele, me sinto abrigada e abraçada por sua serenidade, quando diante do aroma dos cafés ou no aconchego do abrigo para caminhadas sombreadas e menos fatigadas.
Tenho por herança paterna o apreço pela fotografia; por isso, meu olhar atenta-se a retratar algo que muitos veem, mas poucos enxergam em imagens convidativas a tornar-se um registro especial. Nesse período do ano, a luminosidade parece ser favorável ao brilho e à nitidez das fotos.
Desta vez, o interesse foi ao ver os inúmeros botões de flores da ora-pro-nóbis em meu quintal. Aguardei por algum tempo o desabrochar diante de tanta beleza reunida nesse pequeno espaço verde. Atenta, acompanhei o desenvolvimento, à espera da abundância em tons de amarelo e branco que logo chegariam para minha alegria.
O desalento veio antes, quando, recentemente, a temperatura baixou e fez apagar a vivacidade das cores prometidas, sem que sobrasse algum dos botões de flor. O fato, corriqueiro para tantos, a mim fez perceber o quanto somos vulneráveis às expectativas, desejos, aguardos que, de um momento para outro, viram poeira de estrelas, espumas ao vento na lista das frustrações a serem deletadas da memória.
Temos por hábito esperar o dia seguinte, a próxima viagem, outra festa, a casa maior, a tela de tevê ampliada, o girar do tempo menos rápido, sapatos novos para dar outros passos… Será que vivemos de utopias ou sonhos? Talvez de ambos e encontrar o ponto de equilíbrio parece ser o desafio. Receita é para bolo, vide bula de remédios, mas, para a vida, pode-se pensar em previsibilidade, estando cientes e conscientes dos fatos no tempo presente, olho no olho, bem como perceber os indícios para agir na dinâmica do aqui e agora, através do sentir, pensar e agir diante da carruagem de fogo chamada vida.
Almejamos humanos perfeitos, cidades utópicas e o país das maravilhas, enquanto confinados à ilha das próprias fantasias, com as taças vazias entre as mãos e os pés descalços, em busca de ilusões perdidas, à procura de prognósticos favoráveis ao que inexiste. Depois, a consequência das frustrações: corrida por livros de autoajuda, medicamentos controlados, consultórios a tratar problemas coletivos com a necessidade de cuidados paliativos.
Quanto ao meu fundo de quintal, estarei no aguardo para ver novamente a ora-pro-nóbis em seu glamour no próximo outono, gestando outros botões, sabendo que riscos são eminentes para que ela possa não florescer como o desejado. Faz frio aqui no Sul, nossa realidade!