Home Destaque “O Brasil melhorou, mas juros ainda são principal distorção”, avalia economista Guilherme Abbud em Flores da Cunha

“O Brasil melhorou, mas juros ainda são principal distorção”, avalia economista Guilherme Abbud em Flores da Cunha

Aos empresários florenses, Abbud apresentou uma leitura otimista sobre o cenário econômico da próxima década
Economista Guilherme Abbud palestrou no Centro Empresarial de Flores da Cunha. (Foto: Airton Nery, divulgação)

O Brasil já não é o “pior aluno da sala” entre as economias emergentes, mas ainda carrega uma diferença que, na avaliação do economista e executivo Guilherme Abbud, limita seu desenvolvimento: o nível das taxas de juros. A análise foi apresentada na noite desta quinta-feira (13) durante a palestra Inflação, Eleições e Dólar: onde estão as oportunidades?, realizada no Centro Empresarial de Flores da Cunha.

Para Abbud, o país passou por uma série de mudanças estruturais nas últimas décadas e hoje apresenta indicadores mais próximos dos demais emergentes. A inflação e o resultado fiscal primário, que estavam entre os piores do grupo cerca de 15 anos atrás, deixaram de colocar o Brasil em uma posição tão distante dos países com os quais compete por investimentos.

A principal exceção, contudo, continua sendo a taxa de juros. Enquanto a média dos países emergentes analisados na apresentação teria uma taxa de juro real (descontada a inflação) próxima de 3% em termos reais, o Brasil opera em um patamar muito superior, 10% a 11%.

— A única coisa que realmente salta aos olhos de que a gente ainda é jabuticaba, ainda é muito diferente de todos os outros, é o nível da taxa de juros — afirmou.

Entre os fatores que contribuíram para essa mudança nos indicadores, o economista destacou reformas e alterações institucionais, como mudanças na Previdência e nas relações trabalhistas, a independência do Banco Central, mecanismos de controle dos gastos públicos, desburocratização e privatizações. Na sua avaliação, mais importante do que uma medida isolada é a capacidade de transformar avanços em regras que permaneçam independentemente de quem esteja no comando do país.

— O que define países que dão certo e países que dão errado é o quanto aquele país consegue institucionalizar o que deu certo — resumiu.

O custo dos juros

(Foto: Airton Nery, divulgação)

A questão, para Abbud, é que a melhora dos fundamentos não foi acompanhada por uma redução proporcional dos juros. Na apresentação, ele estimou que o Brasil tenha pago, em média, entre três e 3,5 pontos percentuais a mais de juros do que seria necessário para controlar a inflação nos últimos 15 anos. A estimativa foi apresentada como uma avaliação da equipe da Persevera, empresa ligada ao economista.

— Nenhum banqueiro central teve coragem ainda. Ele pensa “só estou aqui por quatro anos, não quero que bem na minha vez exploda a inflação”. E aí a taca fica um pouquinho mais alta do que o necessário para garantir que a inflação vai ficar controlada — afirmou.

A tese do economista não é de que o país possa simplesmente reduzir os juros sem considerar a inflação. O argumento é que existe espaço para uma discussão mais técnica sobre o nível necessário para manter a inflação sob controle. Ele citou a experiência de outros países emergentes, que também enfrentaram períodos de inflação elevada, mas ao longo do tempo conseguiram conduzir a política monetária com taxas menores.

Uma década melhor

Apesar das críticas, a leitura apresentada por Abbud sobre o cenário brasileiro é otimista. Ele considera possível que os próximos 10 anos sejam melhores do que os dez anteriores, principalmente pela combinação entre as mudanças já realizadas no país e um ambiente externo potencialmente mais favorável.

Um dos elementos seria um período de dólar globalmente mais fraco. Segundo o economista, esse movimento tende a beneficiar economias emergentes, especialmente países produtores de commodities. Na avaliação apresentada, há sinais de que esse cenário possa se manter nos próximos anos.

No ambiente doméstico, Abbud entende que o país não precisaria necessariamente iniciar um novo ciclo de grandes reformas para melhorar suas perspectivas. O desafio seria preservar o que já foi construído e oferecer previsibilidade às regras fiscais e econômicas.

— A gente fez o difícil, mas está pecando no fácil — avaliou.

“Paixão pelo CDI”

Para Abbud, a manutenção das regras e o compromisso com os mecanismos de controle dos gastos poderiam produzir efeitos importantes sobre as expectativas e criar condições para juros menores no futuro.

Essa eventual redução estrutural dos juros também poderia mudar o comportamento dos investidores brasileiros. Segundo Abbud, décadas de taxas elevadas criaram uma espécie de “paixão pelo CDI”, já que aplicações conservadoras passaram a oferecer retornos suficientemente altos para desestimular alternativas com maior risco e participação no setor produtivo.

“Não caiam em depressão lendo o noticiário brasileiro”

Na visão do economista, esse cenário pode começar a mudar. Com juros menores, investimentos em ações, imóveis, infraestrutura e nas próprias empresas poderiam voltar a ganhar espaço. Ele classificou esse movimento como um “resgate da normalidade” do mercado financeiro brasileiro.

A perspectiva, portanto, não se restringe ao mercado de investimentos. Para Abbud, um ambiente econômico mais próximo do observado em outros países emergentes pode favorecer também quem produz e empreende.

— Acho que vai ser um certo resgate da normalidade — afirmou.

A palestra terminou com participação do público, que fez questionamentos sobre câmbio, investimentos e as perspectivas econômicas para os próximos anos. Ao encerrar, Abbud deixou uma mensagem de confiança no país.

— Continuem empreendendo. O brasileiro é antes de tudo um forte. Não caiam em depressão lendo o noticiário brasileiro. Acredito que os anos à frente vão ser melhores do que as pessoas acham.

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