Enquanto algumas famílias começam a discutir a sucessão apenas quando os pais se aproximam da aposentadoria, outras decidam antecipar essa conversa. É o caso de Andréia Morandi Reginato, 38 anos, e do marido, Márcio Reginato, 42. Para o casal, falar sobre sucessão familiar deixou de ser um assunto para o futuro.
A família cultiva uva, laranja, pêssego e caqui em uma propriedade de 43 hectares no Travessão Cerro Largo, em Nova Pádua. Parte das terras pertence à família de Márcio há gerações, enquanto outra parte foi herdada por Andréia. Hoje, o casal procura envolver as filhas Larissa, 13, e Milena, 8, nas conversas sobre o futuro da propriedade.
— Começamos a falar sobre isso quando percebemos que tudo o que investimos, trabalhamos e produzimos poderia se perder se não houvesse uma nova geração para dar continuidade. Passamos a envolver as nossas filhas nessas discussões — conta Andréia.
A agricultora pretende que a participação das meninas ocorra de forma gradual. Antes de novos investimentos ou decisões importantes, elas são chamadas para acompanhar as conversas e entender a realidade da propriedade.
— Sempre procuramos mostrar como as coisas funcionam e ouvir o que pensam. Queremos que conheçam a propriedade e se sintam parte dela — conta.
As mudanças climáticas e a dificuldade de despertar o interesse das novas gerações pela atividade rural aparecem entre os principais desafios.
— Hoje está muito mais difícil garantir a produção. Temos excesso ou falta de chuva, geadas fora de época e tempestades cada vez mais frequentes. Além disso, muitos jovens acabam enxergando mais oportunidades na cidade do que no campo — considera a mãe.
Planejamento
Nesse contexto, a família decidiu participar do Programa de Sucessão Familiar Rural, da Sicredi.
— Já vínhamos dando cada vez mais importância para esse assunto. Quando recebemos o convite e conhecemos a proposta, entendemos que seria uma oportunidade importante — conta.
Para Andréia, planejar a sucessão significa garantir mais tranquilidade para o futuro.
— Saber que daqui alguns anos pode haver alguém dando continuidade ao trabalho traz mais confiança. Vimos muitas propriedades sendo abandonadas porque os filhos vão embora e os pais envelhecem sem conseguir manter a produção. É uma realidade que precisa ser discutida.
Mesmo incentivando a permanência das filhas no meio rural, o casal afirma que a decisão será delas.
— Gostaríamos muito de vê-las dando continuidade ao trabalho e construindo suas famílias aqui, mas nunca vamos impor isso. O mais importante é que elas sejam felizes com as escolhas que fizerem — afirmam.
“O filho precisa ter espaço para participar”
Se a história de Andréia Reginato evidencia uma geração que prepara o futuro, Elias Baroni, 19 anos, representa quem poderá assumir essa responsabilidade nos próximos anos.
A ligação da família com a agricultura atravessa gerações. Os avós e bisavós já viviam da atividade rural e a propriedade atual começou a ser construída naquela época. Ao longo dos anos, a produção se diversificou e incorporou novas atividades.
Foi quando concluiu o Ensino Médio que Elias passou a discutir o próprio papel na produção.
— A sucessão familiar virou assunto quando terminei os estudos e precisei decidir o que faria dali para frente. Foi nesse momento que começamos a conversar sobre a propriedade e sobre o meu futuro — conta Elias, que decidiu permanecer no campo com os pais Paula Alessi Baroni, 44, e Valter Baroni, 53.
— Quero continuar esse legado deixado pela minha família, procurando sempre evoluir, trazendo novas tecnologias e facilitando o trabalho. Também gostaria que meus filhos, no futuro, pudessem dar continuidade a isso — projeta.
Entre os desafios, ele destaca dois fatores que afetam diretamente a permanência dos jovens no meio rural.
— A mão de obra está cada vez mais difícil e o clima mudou muito. É um trabalho que exige esforço físico e muitos jovens acabam procurando outras oportunidades. Além disso, hoje enfrentamos muito mais problemas climáticos do que os nossos avós enfrentavam — opina.
O planejamento prévio da sucessão é visto pelo herdeiro como uma forma de evitar que os jovens se afastem da atividade rural.
— O filho precisa construir a própria vida, mas também precisa ter espaço para participar. Isso depende muito da compreensão dos pais. Com o tempo, ele vai assumindo responsabilidades e tomando o bastão da família — reflete.
Ao imaginar o futuro, Elias acredita que a tecnologia terá papel fundamental nas propriedades rurais.
— Daqui para frente, vejo o campo cada vez mais tecnológico. Isso vai facilitar o trabalho e tornar a atividade mais atrativa para quem pretende continuar produzindo — conclui.

