Muito antes de o incêndio destruir parte da Igreja Matriz Nossa Senhora de Lourdes, na tarde de segunda-feira (25), o templo já ocupava um espaço difícil de medir apenas pela arquitetura ou pela importância histórica. Para muitas famílias, a igreja atravessava gerações como cenário dos momentos mais marcantes da vida: batizados, casamentos, primeiras comunhões, despedidas e celebrações comunitárias.
Foi dentro dela que milhares de florenses construíram memórias afetivas que agora retornam junto às imagens das chamas e à estrutura parcialmente destruída que ainda domina o centro da cidade.
Entre essas histórias está a do padre Ricardo Fontana, atual reitor do Santuário Diocesano de Nossa Senhora de Caravaggio. Nascido e criado na Terra do Galo, ele recebeu na Matriz praticamente todos os sacramentos da vida religiosa.
— Meus bisavós ajudaram a construir a igreja. Meu avô casou ali, meu pai também. Eu recebi todos os sacramentos neste templo: primeira comunhão, crisma e a ordenação sacerdotal. É uma comoção junto com toda a nossa gente de Flores da Cunha, um povo amado e querido — lamenta.
“Um sentimento de recomeço”
Ao longo das horas seguintes ao incêndio, o padre acompanhou as manifestações de apoio que começaram a surgir em diferentes comunidades da região. Para ele, a reação coletiva demonstra que a relação do município com a igreja ultrapassa a dimensão religiosa.
— Nós já conseguimos perceber a solidariedade do Corpo de Bombeiros, a solidariedade do nosso povo tentando ajudar. Nesse momento paira sobre nós a tristeza, mas os freis e a comunidade florense não estão sozinhos.
Mesmo diante da destruição, o sacerdote afirma que, junto à dor provocada pela perda, começa a surgir também um sentimento coletivo de reconstrução e continuidade da história da comunidade.
— Se por um lado temos esse sentimento de tristeza, já há nos nossos corações um profundo sentimento de reconstrução. Dou um abraço de solidariedade, em primeiro lugar, aos freis da igreja para dizer que estamos juntos, que somos uma igreja só, não temos nenhuma fronteira, somos parte dessa gente. Nós vamos juntos reconstruir — emociona-se.
A rotina de quem acompanha gerações
Ledi Pandolfi vive o dia a dia que movimenta a Igreja. Como coordenadora da pastoral do batismo e uma das pessoas mais próximas da organização paroquial, ela convive com famílias que procuram a igreja para celebrar momentos importantes da vida. É dela, muitas vezes, o primeiro atendimento aos pais que desejam batizar seus filhos ou aos casais que iniciam os preparativos para o casamento.
Nos últimos dias, no entanto, a rotina da secretaria passou a ser atravessada por ligações, mensagens e visitas carregadas de emoção.
— Os casamentos seguem acontecendo e a maioria dos casais já está nos ajudando nesse processo de encontrar novos locais para as cerimônias — conta.
Ledi diz ter se impressionado com a reação da comunidade diante da tragédia.
— O pessoal chega na secretaria e é emocionante ver o carinho que as pessoas têm pela nossa igreja. Todos trazem palavras de fé, esperança e apoio. Tenho certeza de que a comunidade vai se unir para começar uma nova história.
— Além da fé, nossa igreja carrega muita história. As pessoas procuram Jesus por meio da nossa igreja — completa.
O último casamento
Dois dias antes do incêndio, a Igreja Matriz recebeu o que acabou se tornando o último casamento realizado no local antes da tragédia. Em 23 de maio, Eliandra Albani, de 45 anos, oficializou a união com Giovani Saugo, de 31, diante do altar que por décadas marcou a vida religiosa da cidade.
Para Eliandra, o incêndio também atingiu parte da própria história familiar construída dentro da igreja.
— Para nós representou uma imensa gratidão ter realizado nosso sonho na Igreja Matriz de Flores da Cunha. Foi ali que batizei minha filha Caroline (Hoje com 20 anos), foi ali que ela fez a crisma e também onde recebi meu pedido de casamento.
Agora, as fotografias do recente casamento passaram a ganhar um significado ainda maior.
— Nossas lembranças serão eternas. Estamos com o coração partido, mas juntos vamos reconstruir nossa Igreja — afirma.
O último batizado
Os batizados ocorrem sempre no primeiro sábado de cada mês. São celebrações coletivas, quando famílias inteiras se reúnem para o que, em muitos casos, é o primeiro registro de fé dentro da comunidade católica.
Em 9 de maio, a rotina seguiu como de costume. Quinze crianças foram batizadas naquela manhã. Entre elas, estava o pequeno Henrique, de dois meses.
Filho de Elias Rizzotto, 41 anos, e Sabrina Fontana Rizzotto, 40, ele foi levado ao altar em uma cerimônia que, na época, parecia apenas mais um capítulo da história da família na igreja.
— Representou uma enorme alegria, sabendo que estávamos em uma Igreja maravilhosa, abençoada e rodeada de Santos, que nos deixavam com um sentimento de muita paz, proteção e bênçãos — contam os pais.
O que antes era lembrança comum passou a ganhar outro peso dentro da história da família.
— Terá sempre um significado muito importante, a lembrança de ser o último batizado realizado na Matriz, batizado do nosso segundo filho, Henrique. Nosso último registro da Igreja linda que tínhamos e que ficará para sempre nas nossas memórias — afirmam emocionados.
Mesmo os detalhes mais simples da cerimônia passaram a ser lembrados com mais nitidez.
— São várias lembranças, mas o momento do batismo e a tranquilidade com que o Henrique permaneceu em toda a cerimônia, transmitindo para nós um sentimento de paz.
A data, contudo, já carregava outro significado para a família. Em 9 de maio, eles também completaram 11 anos de casamento, celebração que também ocorreu na mesma igreja.
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