Um dos nomes mais longevos da crônica esportiva gaúcha, Maurício Saraiva visitará Flores da Cunha em um ano simbólico. Em 2026, ele e o jornal O Florense completam quatro décadas de jornalismo, um paralelo que aproxima a história do comunicador com a do principal veículo impresso na Terra do Galo. A palestra gratuita ocorrerá no Clube Independente, na próxima terça-feira (28), às 19h.
Promovido pelo jornal, o encontro promete reunir futebol, música e comunicação em um bate-papo descontraído sobre as diversas experiências acumuladas pelo “Seu Maurício”, apelido carinhoso que o comunicador recebeu nas redações da rádio Gaúcha e da RBS TV.
O encontro será dividido em dois momentos. Antes de abrir espaço para perguntas e interações com o público florense, Saraiva irá revisitar a própria trajetória e observar mudanças no modo de produzir e consumir conteúdo.
O avanço das redes sociais, a diluição das fronteiras entre quem fala e quem reage, os limites da crítica e a construção de uma opinião com identidade aparecem como pontos centrais da conversa que refletirá 40 anos de comunicação.
Ao lembrar do início da carreira, Saraiva resgata um episódio da infância que ajudou a definir seu caminho.
— Completar tanto tempo de carreira é uma chancela da opção que fiz aos 5 anos de idade. Foi quando respondi ao meu pai que não queria ser o cara que fez o gol, e sim o que estava falando no rádio. Viver do ofício que é também sua paixão é raríssimo. E eu vivo isso — celebra.
“A comunicação pode democratizar e idiotizar”
No cenário atual da comunicação, o jornalista aponta mudanças provocadas pela interação direta com o público. Saraiva viveu na prática a revolução do jornalismo esportivo ao receber o retorno imediato do público pela internet.
— Até a explosão irreversível das redes sociais, eram muito claros e definidos os papéis do emissor e do receptor. Hoje e cada vez mais, as fronteiras se diluem. A comunicação horizontal democratiza o comunicar, mas pode ter o efeito colateral de idiotizar o comunicar. E o caldeirão formado a partir da democratização e da idiotização da comunicação esportiva fica efervescendo em combustão espontânea — avalia.
Sobre o que não deveria ser mudado no jornalismo, Saraiva aponta uma preocupação recorrente na própria atuação, relacionada aos limites entre a análise e o ataque pessoal.
— Embora seja batalha perdida, eu gostaria de não ver mudada a premissa do limite da crítica ao que é profissional e não pessoal. Hoje, por conta da necessidade angustiante da lacração como forma de engajamento, se normaliza a crítica que ofende o ser humano mais do que o profissional. Posso não gostar, e não gosto, mas há muita gente gostando do modelo “bate até sangrar”. Eu que conviva — reflete.
Ao revisitar experiências fora do eixo esportivo, o comentarista da RBS TV menciona passagens menos conhecidas de sua carreira, quando também se dedicou ao jornalismo econômico.
— Pouca gente sabe que apresentei um programa de rádio chamado “Fórum Bandeirantes”, que venceu duas vezes seguidas o Prêmio Sebrae de Jornalismo Econômico nos anos 1990, mas a culpa não é de ninguém. Embora tenha imenso prazer em também fazer jornalismo geral, não há tempo cronológico disponível para esta soma — revela.
Ao detalhar o processo de construção de sua voz como comentarista, o comunicador descreve o esforço para equilibrar firmeza e medida nas opiniões.
— Como consumidor de conteúdo esportivo, tenho muito incômodo com o opinador que tem medo da própria opinião e acha que acrescentar a expressão “um pouquinho” vai tornar mais palatável o seu conceito. Tento me comunicar sem tirar força do que quero dizer. Ao mesmo tempo, preciso cuidar para não dar à crítica um tom mais forte do que gostaria.
Sobre a imprensa local, Saraiva destaca a força da proximidade e da credibilidade.
— Um jornal que tenha o que modernamente se chama “lugar de fala”, isto é, tem peso e legitimidade para dar determinada informação e, sobre o fato, dar determinada opinião. O localismo, neste sentido, é imbatível — opina.
Sobre a palestra da próxima terça-feira (28), o jornalista antecipa a linha que deve conduzir.
— Futebol, música e comunicação. Há uma ponte entre cada um destes universos e detalhes de como isso está na vida de todos nós podem ser bem interessantes — convida.

