As badaladas dos sinos, que há gerações anunciam celebrações, marcam o cotidiano e comunicam acontecimentos nas comunidades de Flores da Cunha, agora terão suas histórias registradas. O projeto “Sinfonia do Bronze: mapeando as origens e salvaguardando o som dos sinos de Flores da Cunha”, das historiadoras Danúbia Otobelli e Graziela Mazzarotto, irá eternizar os sons dos sinos de 30 comunidades e localidades do município, investigando a origem, a trajetória e as características de cada peça.
A iniciativa nasceu da percepção de que, embora os sinos integrem o acervo histórico e cultural do município, muitas dessas peças ainda não tiveram suas histórias investigadas. Entre inscrições, brasões e detalhes de fundição, elas guardam informações sobre a formação das comunidades e os diferentes caminhos que trouxeram esses instrumentos até a Serra Gaúcha.
— O projeto busca preencher essa lacuna, reunindo informações sobre essas peças e preservando também a memória sonora que elas representam — explica Danúbia, que também é jornalista.
Atualmente, um dos principais símbolos históricos do município são os cinco sinos franceses que chegaram a Flores da Cunha em 1901 e permanecem instalados no campanário central da Igreja Matriz. Entretanto, longe do centro da cidade, outras tantas peças guardam histórias ainda pouco conhecidas.
— A maioria dos sinos possui inscrições gravadas que mostram sua data e origem, além de dizeres indicando a quais comunidades foram destinados. A identificação também é feita por meio de decorações e brasões. Muitos trazem imagens religiosas ou elementos que funcionavam como uma assinatura visual das oficinas que os fabricavam — conta Danúbia.
As pesquisas iniciais já revelaram uma diversidade de procedências que surpreendeu as historiadoras. Além dos tradicionais sinos franceses, foram identificadas peças vindas da Itália e da Alemanha, bem como exemplares fundidos no Brasil. Entre estes últimos, destaca-se a produção da Fundição de Sinos Bellini, de Garibaldi.
— Já tínhamos conhecimento sobre a importância cultural e social que os sinos possuem para suas comunidades. No entanto, havia uma lacuna histórica sobre a real procedência deles e seus anos de fundição. O que mais nos surpreendeu foi justamente essa diversidade de origens — destaca a pesquisadora.
Sons de uma vida comunitária
Em uma época em que relógios mecânicos não faziam parte da rotina da maioria das famílias, as badaladas ajudavam a organizar o cotidiano. O som anunciava o horário da missa, lembrava a hora do almoço, comunicava falecimentos e até servia de alerta diante da aproximação de tempestades. Cada toque tinha um significado, reconhecido pelos moradores que aprenderam a interpretar essa linguagem ao longo da vida.
— Os sinos estão diretamente ligados à formação das comunidades de Flores da Cunha e à história da imigração italiana. Mais do que anunciar celebrações, as badaladas marcavam a passagem do tempo. Por isso, representam uma parte importante da memória e da identidade das comunidades florenses — ressalta Danúbia.
Essa relação, porém, vem se transformando ao longo dos anos. A tradição do toque manual, antes conduzida pelos sineiros, tem perdido espaço diante das mudanças nos costumes e da falta de renovação geracional. Há capelas que ainda conservam seus sinos nas torres, mas já não os fazem soar.
— Por estarem instalados em torres, esses sinos guardam uma riqueza invisível aos olhos da população. Detalhes, como inscrições em francês e italiano e elementos decorativos, permanecem escondidos. Muitas comunidades desconhecem a beleza de seus sinos, e o nosso principal objetivo agora é mostrar essa beleza — afirma a historiadora.
O projeto “Sinfonia do Bronze” será desenvolvido em três etapas. A primeira consiste no mapeamento dos sinos de 30 comunidades do município. Durante o levantamento, serão observadas as características físicas das peças e demais elementos que possam contribuir para a identificação de sua procedência.
A investigação também contará com consultas a fontes bibliográficas, arquivos documentais, periódicos locais e registros fotográficos. Com base nas informações reunidas, será elaborado um pequeno texto informativo sobre cada sino catalogado, apresentando sua origem e sua trajetória histórica.
Na segunda etapa, as historiadoras irão realizar gravações de áudio dos diferentes toques dos sinos de cada capela, formando um arquivo digital destinado à preservação dessa identidade sonora. A proposta reconhece que o patrimônio também está nos sons que produziram ao longo do tempo e nas lembranças que despertam em quem os escuta.
A terceira etapa prevê uma maneira de aproximar ainda mais a população desse patrimônio. Serão instaladas placas com QR Codes nas torres sineiras. Ao escanear os códigos com o celular, moradores e visitantes poderão acessar as informações históricas sobre cada peça e ouvir o toque específico do sino.
— Esperamos que moradores e visitantes possam conhecer melhor a origem e a trajetória dos sinos presentes nas capelas do município, reconhecendo a importância que essas peças tiveram na formação e na vida das comunidades. Queremos aproximar as pessoas desse patrimônio, permitindo que conheçam e escutem novamente os sons que fazem parte da identidade de Flores da Cunha — conclui Danúbia.
O toque dos sinos e o ofício de sineiro, inclusive, são reconhecidos nacionalmente como Patrimônio Cultural Imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Quem quiser acompanhar as descobertas e as etapas do trabalho pode seguir o perfil do Projeto Sinfonia do Bronze (@sinfoniadobronze) no Instagram.
O projeto conta com o apoio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Turismo, Cultura e Inovação, por meio da Subsecretaria de Cultura de Flores da Cunha, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), instituída pela Lei Federal nº 14.399/2022.
