Antes da sede própria, dos computadores, convênios e dos mais de 500 associados, a CDL Flores da Cunha começou de um telefone em um cômodo de uma casa. Era 1984 quando Carlos Emílio Curra recebia as ligações de lojistas e olhava em seu fichário o histórico de crédito dos clientes. Dois anos depois, em 6 de outubro de 1986, o Clube de Dirigentes Lojistas foi oficializado para fortalecer o comércio e dar mais segurança às vendas. Quatro décadas depois, a história ganhou 171 páginas.
O livro “40 Anos da CDL Flores da Cunha – História que Move o Futuro”, de autoria da historiadora Danúbia Otobelli, foi lançado na noite desta terça-feira (6), no Letto Hotel. O evento reuniu ex-presidentes da entidade, lideranças políticas e representantes do setor para lembrar que a força coletiva supera desafios.
— A gente se acostuma a ver a CDL Flores da Cunha com sede própria, equipe estruturada e uma carteira de serviços que atende centenas de empresas. O livro lembra que nada existia, que nada disso foi conquistado por acaso. Houve um tempo em que a entidade inteira cabia em um fichário — destacou o presidente Jásser Panizzon.
A necessidade de união entre os comerciantes estava ligada a um desafio que permanece atual: fazer o consumidor comprar em Flores da Cunha. O cenário, porém, era muito mais desigual nos anos 1980, quando Caxias do Sul concentrava grande parte das opções de consumo da região. Duílio Lisboa, um dos nomes envolvidos na formação da entidade, lembra que encontrou um comércio ainda pouco organizado e percebeu que os lojistas precisavam agir coletivamente.
— Quando cheguei aqui, há 43 anos, olhei diferente para a cidade. Cada lojista colocava os cheques sem fundo no vidro. Era preciso mudar um pouquinho. Então comecei a falar com os comerciantes e percebi que precisávamos unir essa turma. Nosso inimigo, naquela época, se chamava Caxias do Sul. Todo mundo pegava o ônibus e ia para Caxias comprar. Por isso precisávamos nos fortalecer — relembrou o ex-presidente.
A lembrança de Duílio encontrou um contraponto 40 anos depois. Horas antes, em um evento regional, o prefeito César Ulian havia ouvido de uma pessoa de Caxias do Sul um relato sobre o comércio florense:
— Hoje mesmo ouvi de uma pessoa de Caxias uma frase que resume muito bem o nosso comércio: “Eu gosto de comprar em Flores porque vocês têm um jeito todo particular de atender, como se eu fosse vizinha de porta”. Esse jeito de atender, essa proximidade e essa identificação fazem com que o cliente volte e ajuda a explicar a força do nosso comércio — salientou Ulian, que também destacou o quanto a atuação da CDL ajuda a cidade a se desenvolver.
Uma história feita por pessoas
Durante o discurso, o presidente Panizzon lembrou cada um dos ex-presidentes e destacou como cada gestão deixou uma contribuição para a construção da entidade.
Depois do embrião criado em 1984, Rafael Soldatelli (1986-1988) trabalhou para estruturar um sistema de compartilhamento de informações sobre crédito. Na gestão seguinte, Duílio Lisboa (1988-1989) mobilizou comerciantes para a compra de uma linha telefônica.
Marcelino Finger (1989-1990) assumiu às vésperas do Plano Collor e promoveu o primeiro curso de balconista da cidade. Já Miguel Pagno (1990-1991) criou o Dia do Desconto e a campanha “Flores da Cunha: é bom comprar aqui”, iniciativas que reforçavam a ideia de valorizar o comércio local.
Na gestão de Derlau Nery (1991-1992), ações como a Campanha de Páscoa aproximaram a entidade dos consumidores. Oscar Fabro (1992-1993), por sua vez, presidiu a CDL quando ela tinha apenas 22 associados e ajudou a viabilizar uma campanha beneficente em parceria com o Lions Clube.
Com Marcos Bulla (1993-1997), o SPC recebeu os primeiros computadores e passou a consultar informações de outras cidades. Foi também nesse período que o Clube passou a se chamar Câmara de Dirigentes Lojistas.
Iran De Grandi (1997-1999) assumiu em um momento de divisão interna e promoveu a campanha “Bote os Pés no Chão”, que sorteou um terreno e teve adesão de 99% dos associados. Derlau Nery voltou à presidência em 1999 e ampliou a atuação da entidade com convênios de saúde e telefonia, além da integração do SPC à rede nacional.
A consolidação veio nos anos seguintes. Artêmio Mascarello (2005-2011) reorganizou as contas, criou a CDL Jovem e concretizou a construção da sede própria, inaugurada em março de 2009. Sandra Camargo de Lima (2012-2014) foi a primeira mulher a presidir a entidade e criou o Mérito Lojista.
Na gestão de Márcio Rech (2015-2018), a Certificação Digital tornou-se uma fonte de receita e, em 2017, ocorreu a primeira edição do Homens na Cozinha, hoje um dos principais eventos beneficentes do município.
Panizzon assumiu a presidência em 2019 e encontrou, logo no início da gestão, o desafio imposto pela pandemia. Durante as restrições ao funcionamento do comércio não essencial, a entidade custeou um serviço de tele-entrega para manter as vendas dos associados.
Memória para olhar adiante

(Foto: Sohfia Marcon Fiorese)
Essa trajetória está reunida nas 171 páginas do livro “40 Anos da CDL Flores da Cunha – História que Move o Futuro”. A obra é resultado de pesquisa, entrevistas e levantamento de documentos e imagens realizados por Danúbia Otobelli.
Mais do que registrar datas, fotos e nomes, o livro recupera mudanças pelas quais passaram a entidade e o próprio comércio de Flores da Cunha ao longo de quatro décadas.
— Conhecer o passado da entidade nos ajuda a compreender sua caminhada e a construir o futuro, mantendo vivo o propósito de fortalecer o associativismo e o desenvolvimento econômico — declarou a historiadora.
Fotos: Airton Nery








