Antes mesmo de o turista chegar a Flores da Cunha, a experiência já pode estar definida. Onde ir, o que visitar e quando chegar deixou de ser uma decisão tomada no calor do momento para se tornar parte do planejamento. Essa mudança de comportamento ajuda a explicar o surgimento da Revin, plataforma criada em 2021 com o objetivo de organizar o acesso às experiências turísticas da região.
A ideia nasceu da percepção de que o crescimento do turismo local não vinha acompanhado de ferramentas capazes de conectar, de forma prática, quem oferece e quem busca vivências no destino. Vinícolas, eventos, gastronomia e paisagens já estavam consolidados, mas o acesso a essas experiências muitas vezes ainda dependia de indicações, contatos fragmentados e da disponibilidade no momento da visita.
A Revin foi idealizada inicialmente pelos arquitetos Misael Henrique Mattiello e Guilherme Sonda, ambos com atuação direta em projetos ligados ao turismo regional. A vivência profissional e a proximidade com empreendimentos do setor ajudaram a identificar um problema recorrente: o turista chegava à cidade sem saber exatamente o que fazer, se conseguiria vaga nas atrações ou mesmo quais experiências estavam disponíveis.
— O principal ponto era o visitante chegar aqui sem um roteiro definido. Muitas vezes ele perdia oportunidades simplesmente por falta de informação ou de organização. O turismo do vinho vem crescendo gradualmente. Ainda estamos longe de uma realidade como a de Gramado, mas é evidente que existe hoje um incentivo maior e um público mais interessado em planejar viagem para a região — relata o sócio Misael ao relembrar o cenário que motivou a criação da plataforma.
Uma experiência fora do Estado ajudou a consolidar essa percepção. Durante uma viagem a Ouro Preto, em Minas Gerais, os idealizadores se depararam com atrativos lotados e reservas esgotadas, sem alternativas claras para reorganizar o passeio.
— Aquilo deixou muito claro a importância de direcionar melhor o turista. A proposta passou a ser ter um site onde ele encontrasse todos os empreendimentos da cidade e pudesse fazer tudo por ele e garantir a experiência antes mesmo de chegar — explica Misael.
“A ideia é facilitar”
A lógica da Revin é simplificar o processo tanto para quem visita quanto para quem recebe. Em vez de múltiplos contatos por mensagens e ligações, a plataforma centraliza informações, agenda, pagamentos e confirmações em um único ambiente digital.
— A ideia é facilitar. A pessoa entra na Revin, escolhe a experiência, uma degustação, por exemplo, faz a reserva em oito cliques e já chega com tudo garantido — descreve o empresário Francis Toscan, outro sócio do projeto.
O próprio nome da plataforma traduz essa ideia. Revin é a junção da expressão “reserve na região” com a palavra vinho, refletindo tanto o ato de planejar a experiência quanto a identidade turística local, fortemente ligada à vitivinicultura. Desde o início, a intenção foi criar uma marca simples, direta e associada ao território onde atua.
Atualmente, a plataforma mantém foco prioritário em Flores da Cunha, Nova Pádua, Farroupilha e Nova Roma do Sul. A escolha reflete uma das propostas que o projeto sempre teve: fortalecer o turismo de proximidade, valorizando o que já existe na região antes de ampliar a atuação para outros destinos.
Hoje, a Revin reúne experiências que vão além das vinícolas, incluindo eventos, visitas guiadas, roteiros turísticos e atividades que fazem parte da dinâmica da região. A plataforma funciona como intermediária entre o visitante e o empreendimento, sem alterar os valores praticados, atuando por meio de uma taxa acordada diretamente com cada parceiro.
Nos últimos dois anos, a Revin passou a concentrar esforços especialmente na gestão de eventos, que se tornaram a principal porta de entrada de novos usuários.
— A gente focou muito em eventos nesse período. Tivemos festivais, o Luau Entre Vinhos, o Festival do Espumante, e isso acabou levando muitas pessoas a conhecerem a Revin e utilizarem a plataforma para reservar — detalha Francis.
“Turismo não se faz sozinho”
O público da plataforma é majoritariamente do Rio Grande do Sul, com forte presença da Região Metropolitana de Porto Alegre, Serra e cidades vizinhas. Com mais de 1 mil acessos mensais, casais e famílias formam o perfil mais comum, com faixa etária entre 25 e 40 anos, variando conforme o tipo de evento.
Um desafio ainda pouco explorado, segundo os sócios, é estimular os próprios moradores da região a consumirem as experiências turísticas locais.
— Existe muito esse bloqueio do pessoal local em aproveitar o que tem no próprio município. Às vezes a pessoa mora aqui a vida inteira e nunca fez uma degustação ou participou de uma experiência. E isso acaba enfraquecendo o turismo como um todo, porque o morador também faz parte desse movimento — reconhece Francis.
A visão de futuro passa por ampliar a visibilidade da Revin, atrair novos empreendimentos e consolidar a plataforma como referência. O apoio do poder público tem sido importante, mas, para os sócios, o engajamento da iniciativa privada é essencial.
— Turismo não se faz sozinho. Se os empreendimentos não caminharem juntos, não existe plataforma, evento ou política pública que sustente isso a longo prazo. É preciso união, troca e abertura para mudar a forma de trabalhar — conclui Misael.

