A entrada precoce dos jovens no mercado de trabalho está ligada, em parte, à evasão escolar. Os adolescentes objetivam ter poder de compra para adquirir bens de consumo, em geral novas tecnologias, e acabam optando por adiar os estudos. Nesse contexto, o Conselho Tutelar de Flores da Cunha informa que a infrequência dos estudantes representa 15,2% dos atendimentos do município.

Cristina Fabris, coordenadora da 4ª CRE (Foto: Divulgação)
Na 4ª Coordenadoria Regional de Educação (4ª CRE), a porcentagem de evasão dos estudantes é de 5%, segundo a coordenadora Cristina da Silva Boeira Fabris.
— Essa é uma realidade do país hoje em dia, não apenas da nossa região ou do nosso Estado — aponta.
Cristina explica que este cenário tem se tornado comum devido ao fato de as famílias saírem para trabalhar e precisarem deixar os filhos em casa sozinhos:
— Muitas vezes o aluno passa a madrugada jogando ou vai dormir muito tarde, no horário da escola ele não acorda e, se não tiver alguém em casa, fica dormindo.
O fato de muitos adolescentes poderem utilizar a internet sem nenhuma supervisão é um dificultador considerado.
— Os nossos estudantes estão perdendo foco, estão perdendo a atenção e a tela não nos ajuda em nada. Já existe uma lei de proibição do celular (nas escolas); e de utilização nas escolas apenas como uma ferramenta pedagógica, mas se vingar tudo aquilo que nós estamos tendo de estudos, será proibido o uso do celular. Ele não está trazendo nenhum benefício para o nosso jovem.
Em relação à procura para concluir o ensino médio com provas como a EJA e o Encceja, a coordenadora explica que os estudantes só buscam estas alternativas se realmente precisam.
— O que nós percebemos é que eles não voltam para a escola para terminar o ensino médio e isso é grave. Porque o que falta, hoje, muitas vezes não é trabalho, mas é uma mão de obra qualificada. Para que a mão de obra qualificada exista, os nossos alunos precisam no mínimo terminar a educação básica.
Nesse sentido é importante que escola, família e comunidade possam caminhar juntas para incentivar os estudantes a concluírem os estudos na idade correta.
— A escola de ensino médio em tempo integral, eu vejo como uma grande ferramenta para que nós possamos melhorar a qualidade da educação e fazer com que os nossos estudantes permaneçam nela — revela a coordenadora da 4ª CRE, complementando que hoje os estudantes da rede pública estadual já saem com uma parte técnica, pois há uma preocupação em aproximar a escola da realidade dos jovens.
“Mais do que cobrar, é preciso ajudar”

Karen Braun, professora
de Psicologia na UCS (Foto: Josué Braun/ Divulgação)
Conforme a psicóloga e professora coordenadora do curso de Psicologia da Universidade de Caxias do Sul (UCS) Karen Cristina Rech Braun, a busca pela independência é bastante comum e esperada na adolescência, contudo se mostra preocupante quando os jovens acabam deixando a formação escolar em segundo plano, uma vez que, a longo prazo, a escolarização continua sendo um dos principais fatores que ampliam oportunidades profissionais, estabilidade financeira e mobilidade social.
Nesse sentido, a psicóloga admite que “é fundamental aproximar a escola da realidade dos jovens” por meio de metodologias ativas, projetos práticos, atividades interdisciplinares e espaços de escuta que tornem o ambiente escolar mais significativo.
– Outro ponto importante é ajudar os estudantes a perceberem como o que aprendem na escola se conecta com seus objetivos de vida e com suas possibilidades futuras de trabalho e realização pessoal. Nisso, atividades voltadas para um projeto de vida e carreira podem auxiliar – sugere.
A oferta de ensino técnico e profissionalizante é outra possibilidade apontada pela professora, uma vez que esses programas conciliam formação escolar e preparação para o trabalho, o que pode aumentar o engajamento dos alunos “por dar um sentido mais prático na formação”.
Da mesma forma, Karen afirma que o diálogo entre pais e filhos “é essencial” na adolescência, por ajudar os jovens a traçar rotas para o futuro.
– Os pais podem conversar sobre os projetos de futuro do jovem e mostrar como a educação pode ampliar suas possibilidades de escolha e de realização.
A doutoranda em Ciências da Saúde reforça, ainda, a importância de os pais acompanharem de perto a vida escolar dos filhos, mantendo contato com a escola e demonstrando como os estudos são fundamentais.
– Outro ponto importante é reconhecer e validar o desejo de autonomia do adolescente, mas ajudá-lo a construir caminhos que conciliem estudo e responsabilidade. Mais do que cobrar, é preciso ajudar o adolescente a compreender que a educação é uma ferramenta importante para construir o próprio futuro.

