Depois de quatro gerações ligadas à agricultura, a família de Eloir Bernardi, 50 anos, começou a discutir um tema que, embora faça parte da realidade de muitas propriedades rurais, nem sempre encontra espaço nas conversas do dia a dia: a sucessão familiar.
Pai de Arthur, 15 anos, Bernardi está entre as 25 famílias paduenses participantes do Programa de Sucessão Familiar Rural, promovido pela Sicredi Serrana, que busca estimular o planejamento da sucessão e o diálogo entre as gerações no meio rural.
— A sucessão sempre aconteceu na nossa família. Já estamos na quarta geração vivendo da agricultura. O que preocupa hoje é que os nossos jovens têm muito mais oportunidades fora da propriedade do que antigamente — avalia o agricultor.
Morador do Travessão Mutzel, em Nova Pádua, Bernardi cresceu vendo a propriedade passar de uma geração para outra. A ligação da família com o campo remonta à chegada do bisavô, Giácomo Bernardi, imigrante vindo do Vêneto, na Itália, em 1886. Desde então, a agricultura permanece como principal fonte de sustento da família. Agora, a preocupação está voltada para o futuro.
A experiência da família Bernardi reflete uma realidade cada vez mais comum no campo. Se no passado a continuidade dos negócios ocorria de forma quase natural, hoje ela exige planejamento e uma participação cada vez maior das novas gerações nas decisões da propriedade.
Quando essa transição não é discutida com antecedência, os desafios tendem a surgir. A dificuldade de preparar sucessores, a resistência em dividir responsabilidades e a falta de diálogo dentro das famílias estão entre os obstáculos mais comuns enfrentados durante o processo de sucessão.
Foi diante dessa realidade que surgiu o Programa de Sucessão Familiar Rural promovido pela Sicredi Serrana. Segundo o gerente da agência em Nova Pádua, Cristian Menegat, a iniciativa nasceu de uma demanda observada no contato frequente com produtores.
— Esse é um assunto que aparece com frequência nas conversas que temos com os nossos produtores. Muitas famílias já estão pensando em quem vai dar continuidade ao trabalho dentro das propriedades — conta.
Realizado pela primeira vez no Pequeno Paraíso Italiano, o projeto reúne 25 famílias e aborda temas relacionados à gestão financeira, liderança, inovação, planejamento e relacionamento entre as gerações.
— O objetivo é ajudar pais e filhos a conversarem sobre o futuro da propriedade e oferecer ferramentas para que esse planejamento aconteça de forma mais organizada — explica Menegat.
“O futuro passa pela profissionalização”
Bernardi já percebe reflexos práticos dos conteúdos trabalhados durante os encontros da Sicredi.
— Algumas mudanças já começamos a colocar em prática. Uma delas é olhar mais para os números, acompanhar melhor os gastos e o retorno da produção. Também conhecemos tecnologias que podem facilitar o trabalho e mostrar novas oportunidades para os jovens — relata.
Ao olhar para os próximos anos, Bernardi avalia que a permanência das novas gerações no campo dependerá da capacidade de unir tradição, tecnologia e gestão.
— Acredito que as propriedades vão ser cada vez mais profissionalizadas. Hoje os jovens têm acesso a cursos, formação e informação. Isso pode ajudar a tornar o campo mais atrativo e trazer novas ideias para dentro das propriedades — conclui o agricultor paduense.
“O agro precisa ser tratado como uma empresa”
O programa da Sicredi chega a Nova Pádua em um contexto em que a agricultura segue como a principal atividade econômica.
— A agricultura tem um peso muito grande aqui em Nova Pádua. Ela faz parte da economia do município e da história de muitas famílias — considera Menegat.
O curso já passou por cidades como Nova Roma do Sul e Tupandi e atualmente também está em desenvolvimento em Carlos Barbosa. A expectativa da cooperativa é ampliar o alcance da iniciativa nos próximos anos.
— Flores da Cunha também está no radar. Temos um mercado importante no município e entendemos que contribuir com o fortalecimento das famílias rurais é uma forma de ajudar toda a comunidade — considera o gerente em Nova Pádua.
Um dos principais desafios para garantir a permanência das novas gerações no campo está na forma como as propriedades são conduzidas.
— Hoje, o agro precisa e merece ser tratado como uma empresa — reforça Menegat, que vê a profissionalização da gestão como um dos caminhos para tornar a atividade mais atrativa aos jovens.
— Quando a família entende melhor a gestão da propriedade, consegue planejar o futuro com mais segurança. E isso também ajuda os jovens a se sentirem parte do negócio — argumenta.

