A rotina de Lurdes Fabian sempre foi atravessada pelo trabalho; primeiro na roça, depois dentro de casa, agora em um ritmo mais adaptado aos limites do corpo. Aos 65 anos, ela segue ativa, dividindo o tempo entre o cultivo de morangos e os afazeres domésticos onde vive há mais de quatro décadas, no Travessão Paredes, em Nova Pádua.
— Agora como fica um pouco difícil para ajudar na colônia que eu ia bastante, eu cuido de morangos mais perto da nossa residência. Além disso eu me divido com os afazeres domésticos, tenho que lavar as roupas, fazer comida, essas coisas — revela.
A história que a torna singular, no entanto, começa com uma surpresa que mudaria sua vida e que se repetiria anos depois. Mãe de seis filhos, Lurdes teve duas gestações gemelares, algo raro e que, à época, veio sem qualquer aviso prévio ou expectativa.
— Pra mim foi uma surpresa! Porque nunca passou pela minha cabeça essa possibilidade. Tanto é que um ano antes da minha gravidez das meninas (Hoje com 38 anos) eu tinha ido no hospital visitar uma amiga que tinha tido gêmeas. Passado esse tempo eu engravidei e quando fui me consultar o médico me disse: “Olha, essa tua barriga tá muito grande, pode ser gêmeos” — relembra.
A confirmação trouxe dúvidas, mas também decisões antecipadas. Sem saber o sexo dos bebês, ela já carregava consigo a certeza dos nomes, caso fossem meninas.
— Como as duas meninas estavam na mesma bolsa, elas são univitelinas, nós não sabíamos se seriam duas meninas ou dois meninos, a única coisa que sabíamos é que se fossem duas meninas os nomes seriam Andriele e Fabiele — conta Lurdes.
“A gravidez de gêmeos é mais sofrida”
Anos depois, a história voltaria a se repetir, novamente de forma inesperada. A segunda gestação de gêmeos trouxe não só espanto, mas também a confirmação de que sua trajetória materna seria marcada por desafios dobrados.
— Receber a notícia de uma gravidez de gêmeos pela segunda vez foi uma nova surpresa. Fui me consultar com o mesmo doutor que fez o parto das meninas, e ele me falou de novo: “Nossa, mas essa barriga tá crescendo demais, pode ser gêmeos de novo”. Ele me disse para fazer o ultrassom e, dito e feito, eram mais dois. A diferença é que nesta segunda gravidez eles eram bivitelinos — afirma.
Se a surpresa foi em dobro, o esforço também foi. Lurdes descreve as gestações como períodos exigentes, tanto física quanto emocionalmente.
— A gravidez de gêmeos é mais sofrida, a gente sente mais dor, mais cansaço, dor nas pernas e nas costas. Imagina, se formos ver é tudo em dobro — relembra a mãe paduense.
Mas foi no dia a dia da criação que os maiores desafios apareceram. Em uma época sem as facilidades atuais, o cuidado com os bebês, em momentos diferentes da vida, exigia resistência e disciplina.
— A criação dos filhos na minha época é bem diferente de hoje. Era tudo mais braçal. Hoje em dia tem máquina, tem fralda descartável. Foi trabalhoso, tínhamos que lavar as roupas na mão. Eu tinha que lavar 90 fraldas de pano por dia no rio, que era a 200 metros da minha casa. Por outro lado, também era mais fácil, na colônia tu não tem esse medo de assaltos, é um ambiente mais seguro — compara.
“É um amor que supera qualquer coisa”
Hoje, com os filhos adultos — as gêmeas Andriele e Fabiele de 38 anos e os gêmeos Michael e Samuel Fabian de 33 — a preocupação mudou de forma, mas não de intensidade.
— Quando a gente tem filho pequeno é mais trabalho para cuidar, depois que crescem é a preocupação. Os guris vivem do agronegócio, então viajam muito e as estradas são perigosas, a gente fica sempre com o coração na mão. Eu rezo bastante e peço muita proteção aos meus filhos — afirma.
A fé, aliás, é um dos pilares que sustentam a forma como Lurdes enxerga a própria trajetória. Devota, ela atribui à espiritualidade a força para enfrentar os desafios e celebrar as conquistas.
— Ser mãe é uma bênção. Ainda mais recebendo duas gravidezes de gêmeos. Muita gente não acreditava, uma vizinha na época até me disse: “É verdade ou é só conversa?”. Eu sou muito católica, devota do Frei Salvador e Nossa Senhora de Caravaggio e acredito realmente que sou abençoada. Ser mãe é também abrir mão dos nossos sonhos para realizar o sonho dos filhos. É um amor que supera qualquer coisa — ressalta.
Ao olhar para trás, Lurdes reconhece as dificuldades, mas não hesita ao responder se faria tudo novamente.
— Às vezes a gente olha para o passado e pensa como foi difícil, né? Se fosse hoje, teria sido mais fácil… hoje tem máquina de lavar roupa, tem secadora, tem tudo. Então foi difícil. Aí fica a pergunta, será que eu faria tudo de novo? Faria. Ser mãe é um amor incondicional — reflete.
A raridade de duas gestações gemelares não define sozinha a história de Lurdes, marcada por escolhas, renúncias e valores que seguem orientando a família até hoje.
— Eu acho que o importante é incentivar a escolha de cada um dos nossos filhos. Cada um gosta de uma coisa, cada um tem suas particularidades. Ser mãe é apoiar e incentivar — conclui.

