Entregue em dezembro de 2015 para reassentar 80 famílias que viviam em áreas irregulares do bairro Pérola, o Residencial Flores da Cunha foi criado com o objetivo de assegurar moradia digna. Dez anos depois, o conjunto no bairro União ainda convive com a marca de estigmas ligados à vulnerabilidade social.
Problemas estruturais, relatos de barulho e diferentes percepções sobre segurança e convivência revelam o cotidiano das 80 famílias do Residencial. Idalina Alves, 68 anos, vive no condomínio com o filho e o neto. Ao longo da última década, construiu no local sua rotina, mas também convive com sinais de desgaste estrutural que, segundo ela, se tornaram cada vez mais evidentes.
— Os apartamentos, com o passar do tempo, estão com muitas rachaduras. Faz muito tempo que ninguém retoca a pintura. Às vezes, eu mesma passo uma vassoura para tirar as teias de aranha. As lajotas estão com bastante rachaduras também, mas a gente sempre tenta cuidar para não quebrar mais — conta a moradora.
Mesmo diante das dificuldades, ela afirma que a convivência com os vizinhos não é o principal problema.
— O residencial é muito mal falado pelas pessoas, mas eu gosto de morar aqui. Não tenho problema com nenhum morador. Me dou bem com todo mundo — afirma.
Idalina lembra que episódios antigos de conflito contribuíram para esta imagem negativa do condomínio.
— Nós tínhamos vizinhos que brigavam muito e isso fazia com que o condomínio ficasse “mal falado”. Eu já ouvi muita gente dizer que tinha vontade de comprar apartamentos aqui mas acabaram desistindo porque o condomínio tem má fama.
“Tem muito barulho”
Délia Scopel, 65, também relata uma rotina marcada por incômodos. O principal problema seria o barulho no interior do residencial.
— Muitas vezes eu não consigo dormir. Tem gente que grita no corredor. Eu não sou mais do que ninguém, mas todos precisam de sossego — pondera.
Vivendo sozinha, ela diz que a sensação de insegurança interfere até no convívio social.
— Eu moro sozinha e muitas vezes não recebo visitas porque as pessoas têm medo de vir no condomínio porque é mal falado — relata.
Para contornar a situação do barulho, Délia afirma ter adaptado sua rotina aos horários para evitar o maior movimento.
“Câmeras de segurança ajudaram”
Para Hélio Guerreiro de Campos, 74, que mora no residencial desde a fundação, a fama de insegurança não corresponde ao que se vive no dia a dia do condomínio.
— Eu moro desde que saíamos do Pérola e adoro morar aqui. O pessoal fala muito da questão do barulho e da violência, mas pra mim nunca atrapalhou — conta.
O idoso reforça que a sensação de tranquilidade foi se consolidando ao longo dos anos, especialmente com melhorias na segurança.
— Essa pecha de “Carandirú” foi mais pelo começo, logo que os moradores vieram para cá. As câmeras de segurança ajudaram bastante também.
Hélio considera que um morador específico foi responsável por muitas situações que criaram esta má fama.
— Ele era usuário de drogas e que depois que saiu, o condomínio ficou mais tranquilo. Infelizmente, quando a pessoa está nessa situação, ela perde a noção de muita coisa.

