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Residencial Flores da Cunha completa 10 anos marcado por estigmas e desafios sociais

Conjunto no bairro União foi entregue em 2015 para reassentar famílias de áreas irregulares
Moradores relatam que o condomínio passou a ser conhecido pelo apelido “Carandirú” ao longo da última década (Foto: Klisman Oliveira)

Entregue em dezembro de 2015 para abrigar 80 famílias que viviam em áreas irregulares do bairro Pérola, o Residencial Flores da Cunha nasceu com a proposta de garantir moradia digna. Uma década depois, os moradores do conjunto habitacional no bairro União sofrem com estigmas de vulnerabilidade social e ausência de políticas públicas.

O empreendimento foi destinado, principalmente, às famílias removidas de ocupações às margens da ERS-122, do arroio Curuzu e do loteamento Pérola. A iniciativa representou, à época, um avanço na política de habitação popular na Terra do Galo. No entanto, o modelo que concentrou famílias em situação de vulnerabilidade em prédios anexos sofreu com preconceitos vistos também em ações semelhantes de outros municípios.

Esse conjunto de fatores ajuda a explicar o surgimento do apelido informal que incomoda os moradores: “Carandirú”. De sonho da casa própria para muitos florenses, o residencial passou a carregar uma marca de estigma que evidencia a distância entre a proposta original do projeto e a realidade vivida.

— Nós viemos há anos enfrentando problemas no empreendimento, e pouca coisa foi feita. Até hoje, a Polícia Civil e a Brigada Militar têm trabalhado muito para amenizar situações aqui, pois foi praticamente um bairro inteiro colocado de paraquedas, sem estrutura e sem suporte. Há anos, o local já é conhecido como “Carandirú” perante a comunidade — relata uma moradora que prefere não ser identificada.

Histórico de ocorrências

Casos específicos ajudam a dimensionar os desafios do dia a dia no residencial. Um dos episódios mais lembrados pelos moradores envolve um vizinho com histórico de uso de drogas e problemas com álcool que, por anos, esteve no centro de conflitos, com ocorrências que se repetiam, registros policiais e aplicação de multas, mas sem resultado efetivo na contenção dos problemas.

Este morador chegou a acumular 39 boletins de ocorrência antes de deixar o condomínio. A saída ocorreu após o envolvimento em um episódio que resultou na infração de uma medida protetiva.

A sequência de episódios levou a mudanças nas regras internas, com o aumento no valor das multas por perturbação do sossego, que passaram de R$ 60 para R$ 320, numa tentativa de dar mais efetividade às normas e reduzir conflitos entre vizinhos.

— São coisas simples que a gente tenta resolver. Antes, quando tinham muitos boletins de ocorrência, a gente ia até a Prefeitura, pedia mais atenção e solicitava que a BM fizesse mais rondas no condomínio e atendesse quando fosse acionada. Hoje isso não acontece — relata outra moradora, que também teme ser identificada.

Mesmo com episódios de conflito ao longo da década, são os próprios moradores que mantêm o funcionamento do condomínio, organizam as contas e garantem a manutenção dos espaços. A administração ressalta que a maioria dos moradores “são pessoas de bem”, o que se reflete no caixa com superávit e nas contas em dia, com R$ 101 mil disponíveis para futuras reformas.

Continuidade do modelo habitacional

Além do Residencial Flores da Cunha, que completa uma década desde a entrega em 2026, o Município também conta com outro modelo habitacional semelhante no mesmo endereço. Há cerca de 25 metros, ainda no bairro União, está o Residencial João XXIII, que foi finalizado no início deste ano e soma 144 apartamentos.

O segundo módulo, entregue em fevereiro, é composto por 80 apartamentos, que incluem dois dormitórios, sala, cozinha, banheiro, área de serviço, sacada e vaga de garagem. Além da estrutura interna, o projeto prevê áreas comuns de convivência e lazer, voltadas ao uso coletivo dos moradores.

Assim como o Residencial Flores da Cunha, o Residencial João XXIII também integrou o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida do Governo Federal e contou com contrapartidas do Município — como a doação do terreno, a execução da terraplanagem e investimentos por unidade habitacional.

O que diz a Prefeitura

Sobre as demandas do Residencial Flores da Cunha, a Prefeitura de Flores da Cunha, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Social, respondeu por meio de nota. Confira na íntegra:

“A administração municipal informa que o Residencial Flores da Cunha foi implantado em 2015, durante a gestão anterior, por meio de parceria entre a Prefeitura, a Caixa Econômica Federal e o DAER, com o objetivo de atender famílias em situação de vulnerabilidade social. Desde então, a atuação do município ocorre conforme a demanda, por meio da rede de assistência social e também no encaminhamento de situações relatadas pelos moradores aos órgãos responsáveis. Nesse sentido, a Prefeitura atuou como elo entre a comunidade e a Caixa Econômica Federal, realizando registros e repassando as demandas apresentadas. Em relação às questões de segurança, o município destaca que são acompanhadas e registradas pelos órgãos competentes, responsáveis pelo atendimento e pelas providências cabíveis.”

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