A sombra da árvore em frente à antiga igreja de pedra do Travessão Barra atravessa gerações. Quando criança, Ely Pilati brincava no local com os amigos antes da escola. Hoje, aos 95 anos, é essa mesma árvore que abre simbolicamente a narrativa de “Ely Pilati – La storia della mia vita”, biografia lançada no último domingo (31), no Belvedere Sonda, em Nova Pádua.
Escrito pela jornalista Valquíria Vita, o livro ultrapassa os limites de uma biografia tradicional. Ao longo das páginas, a trajetória de Pilati se mistura à própria formação das comunidades italianas da Serra.
Nascido em 1931, Pilati cresceu em um mundo onde a língua vêneto era mais falada do que o português. Ela acompanhou a abertura das primeiras estradas, viveu os impactos da Segunda Guerra Mundial e testemunhou a transformação.
— Quando ele descrevia o Travessão Barra, as festas das capelas, o dialeto falado dentro de casa e as estradas sendo abertas pela própria comunidade, percebi que estávamos documentando modos de vida que hoje já desapareceram — observa Valquíria Vita.
Um outro tempo
A obra surge de entrevistas e memórias da família, onde episódios íntimos convivem com acontecimentos históricos. Em um dos trechos, Pilati relembra a viagem a Caxias do Sul para ver Getúlio Vargas durante a Festa da Uva de 1954. Em outro, conta que espalhou a notícia da morte do presidente colocando um bilhete na coleira de um cachorro que percorria as casas da vizinhança no Travessão Barra.
Um dos principais desafios de Valquíria foi transformar a memória em narrativa sem perder a autenticidade das histórias.
— A memória oral vem cheia de detalhes afetivos, lembranças que surgem aos poucos e histórias contadas de maneira muito espontânea. Meu papel foi organizar tudo isso sem perder a voz do seu Ely.
A versão impressa foi produzida para familiares e amigos. Já a edição digital pode ser acessada gratuitamente pelo telefone (54) 99711-4447.

