Uma nova sequência de crimes reforçou a insegurança digital. Na semana passada, pelo menos três moradores de Flores da Cunha foram enganados por criminosos que fingiram ser o gerente do Banco do Brasil. Informações extraoficiais apontam que os prejuízos das vítimas chegam a R$ 200 mil.
O golpe do falso gerente de banco é uma das inúmeras artimanhas que estelionatários utilizam para enganar suas vítimas de forma digital. Neste caso, os criminosos utilizaram o nome e a foto de funcionários da agência florense para contatar clientes e alegar que haviam problemas na conta bancária.
A delegada substituta na Delegacia de Polícia de Flores da Cunha, Carla Zanetti, explica que as três ocorrências registradas têm em comum o fato de os criminosos terem entrado em contato via mensagem:
— Eles começam apavorando, dizendo que alguém fez compras, transferências em seu nome, e a pessoa acredita nesse contato e começa a fornecer informações. Eles alegam que precisam dos dados por uma questão de segurança, que alguém do banco vai contatá-los. As vítimas vão seguindo os passos e caem no golpe — detalha a delegada.
Conforme a Secretaria Estadual de Segurança Pública, foram 85 estelionatos registrados em Flores da Cunha no primeiro trimestre de 2026. Na última década, este índice saltou de 42 em 2015 para 312 em 2025, um crescimento de 640%.
Caiu no golpe, e agora?

Rafael Schneider (Foto: Karine Bergozza)
O advogado e Conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Flores da Cunha, Rafael Schneider, considera muito importante que as vítimas de golpes procurem um advogado com o intuito de orientar e auxiliar na reunião de provas, registro de ocorrência e nas diligências junto à instituição financeira para tentar recuperar o valor perdido. Além disso, ele pode auxiliar a adotar medidas judiciais cabíveis e prestar a assessoria jurídica adequada conforme o caso concreto.
— Primeiramente, a vítima deve comunicar imediatamente a instituição bancária e solicitar a abertura do MED – Mecanismo Especial de Devolução (PIX), informando que a transferência foi realizada em razão de golpe. Esse pedido deve ser feito o mais rápido possível, pois o banco poderá tentar o bloqueio dos valores na conta de destino — informa o linha de frente da Schneider Advocacia, que prossegue:
— Em seguida, é importante registrar boletim de ocorrência, narrando detalhadamente os fatos, para formalizar a fraude e dar suporte às medidas junto ao banco. Também é recomendável guardar comprovantes, conversas e protocolos de atendimento.
Ressarcimento

Vitor Casasco Alejandre de Almeida (Foto: Leonardo Lopes))
O promotor de justiça de Flores da Cunha, Vitor Casasco Alejandre de Almeida, observa que a recuperação do dinheiro de golpes digitais depende da rapidez com que as providências foram tomadas pela vítima e pelas autoridades competentes.
— Normalmente a investigação da autoria pressupõe seguir o rastro deixado pelo dinheiro de modo a identificar o beneficiário e a conta bancária destinatária da vantagem ilícita. Quanto mais rápida a identificação do estelionatário e da conta bancária, maiores as chances de recuperação do dinheiro por meio de medidas cautelares como o bloqueio de contas e o sequestro de bens.
O promotor acrescenta que, desde 2019, o estelionato passou a ser crime de ação penal pública condicionada à representação do ofendido.
— Isso significa que a vítima deve manifestar interesse na investigação. Portanto, quando a vítima percebe que caiu em um golpe, a primeira providência a ser tomada é o registro de ocorrência policial, com o fornecimento dos comprovantes da transação financeira e cópia das conversas travadas com o estelionatário, o que aumentará as chances de êxito na investigação e recuperação do dinheiro.
80 milhões de vítimas em um ano
Os golpes digitais estão cada vez mais comuns, prova disso é que, em um único ano, 80 milhões de brasileiros já foram vítimas deste tipo de fraude. Os dados são do levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Datafolha. O número chama a atenção por representar que 37,49% da população (estimada pelo IBGE em 213,4 milhões em 2025) do país já caiu neste tipo de crime.
A história de um florense de 63 anos, que prefere não ser identificado, é apenas uma dessas milhões. O aposentado teve a conta bancária invadida e seu nome foi parar no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC). Ele conta que o crime ocorreu em outubro de 2021 e que só se deu conta quando abriu o aplicativo do banco para fazer um PIX e tomou “um susto”:
— Eu vi o saldo negativo. Levaram tudo o que eu tinha na conta, acho que era uns R$ 12 mil ou R$ 15 mil, e estava negativo. Olhei o extrato e vi um monte de PIX. Vi que eles (golpistas) fizeram vários empréstimos com os meus limites, em 24 vezes. E tive que pagar tudo, porque o juiz demorou para bloquear e o banco me botou no SPC — conta o idoso, que fez questão de sair do banco e registrar a ocorrência.
O que intrigou o florense foi o fato de seu limite diário no PIX ser de R$ 5 mil e os estelionatários terem conseguido fazer quatro ou cinco operações de R$ 14 mil cada.
— Os bancos dizem que é seguro, mas como é que tu vais botar teu dinheiro, teus ganhos em um banco se a qualquer momento tu vais tirar o extrato e teu dinheiro sumiu? A verdade é que tu não estás seguro. Os malandros têm uma faculdade que ninguém tem e fazem o que querem com o sistema bancário.
O aposentado procurou um advogado, entrou na Justiça e deverá receber os valores perdidos no golpe com a devida correção.
— Recorremos e faz quase dois meses que o Tribunal Superior de Porto Alegre deu ganho de causa e eles vão ter que devolver o valor corrigido. Vou receber todo o golpe, mais a correção, sabe lá daqui a quanto tempo — conta o florense que, mesmo cinco anos depois do ocorrido, encoraja outras pessoas a denunciar e destaca que “a justiça tarda, mas não falha”.
Dicas para se proteger
- Desconfie de contatos que solicitem pagamentos urgentes.
- Antes de fazer qualquer transação financeira, certifique-se de que o destinatário do dinheiro é realmente uma pessoa conhecida ou que o item comercializado realmente existe.
- Saiba o telefone da sua agência e do seu gerente: na dúvida, confirme diretamente com eles se as informações são verídicas.
- Não acredite que qualquer pessoa que contate pelo seu celular é o seu gerente.
- Evite fornecer senhas, dados pessoais ou bancários por mensagens.
- Comunique imediatamente o banco ao perceber qualquer transferência suspeita, abrindo protocolo contra o golpe.

