Neste domingo (8), as ruas, redes sociais e casas se encherão de flores, posts e homenagens. Mas, por trás da delicadeza aparente, o Dia Internacional da Mulher nasceu do barulho, de greves, marchas e portas de fábricas fechadas, do cansaço coletivo que se transformou em coragem.
No início do século XX, mulheres trabalhavam até 16 horas por dia em indústrias têxteis, recebendo menos que os homens e sem direito ao voto. Em 1910, durante a Conferência Internacional de Mulheres em Copenhague, a líder alemã Clara Zetkin propôs um Dia da Mulher anual. A ideia não era celebrar conquistas já alcançadas, mas organizar uma mobilização permanente, lembrando que direitos femininos são conquistados com luta, visibilidade e persistência.
Décadas mais tarde, em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) oficializou o 8 de março como Dia Internacional da Mulher, reconhecendo a data como símbolo mundial da luta por igualdade.
A data atravessou continentes e chegou ao Brasil. Em Flores da Cunha, longe do barulho das fábricas europeias, as mulheres também lutam, administram seus negócios, ocupam a Câmara de Vereadores, cuidam de suas famílias e resistem em um território em que a violência, a desigualdade e a pressão social permanecem presentes, mesmo em 2026.
Direitos conquistados não são pontos finais, são linhas de frente, batalhas diárias que exigem coragem e estratégia. Nesta edição, O Florense escuta mulheres de Flores da Cunha e faz a pergunta: O que significa ser mulher em 2026?
“Em 2026, o sentimento de ser mulher ainda se resume a uma palavra: alerta. Conquistamos direitos, mas o respeito ainda é um pedido de socorro. Carregamos medos que o privilégio masculino sequer imagina, como o peso de andar sozinha ou a tensão de ser observada. Não queremos apenas leis; queremos o direito de não sermos caçadas. É urgente que a educação assuma esse papel, indo além de rosas e mimos no 8 de março. Precisamos de um trabalho contínuo que ensine meninas a se protegerem e meninos a serem homens funcionais, desconstruindo a ideia de que somos suas cuidadoras ou sua posse. A igualdade real só virá quando pudermos caminhar, finalmente, lado a lado. Infelizmente, isso me parece distante”.
Vanessa Vieira Costa, vice-presidente do Coletivo Quitérias
“Ser mulher em 2026 é caminhar com coragem em um território que ainda impõe riscos inaceitáveis, mas também é ocupar espaços com voz firme, consciência e, principalmente, rede de apoio. É viver a incoerência entre avanços conquistados e estatísticas que ainda gritam urgência. É precisar falar sobre justiça, segurança e respeito não como pauta opcional, mas como necessidade estrutural. Ser mulher hoje é resistir, é transformar dor em mobilização, é exigir políticas públicas eficazes e uma mudança cultural profunda. É, acima de tudo, não aceitar que números definam os nossos destinos. Meu conselho é: não se calar diante de qualquer injustiça”.
Taís Elena Carpeggiani Gelain, publicitária
“Ser mulher em 2026 é viver em autonomia e alerta ao mesmo tempo e entender que isso não é natural, é estrutural. É ocupar espaços de poder que historicamente nos foram negados e caminhar sob estatísticas que nos lembram que o risco não é exagero, é realidade. É falar sobre mérito sabendo que igualdade de ponto de partida nunca existiu. É ter consciência do próprio valor e exigir respeito sem pedir desculpas. É transformar medo em estratégia, porque a vulnerabilidade feminina sempre foi explorada como mecanismo de controle. Um dia li a frase: “quem deve também teme”. E ela revela muito sobre a lógica de poder. Nós, mulheres, muitas vezes tememos não porque devamos algo, mas porque vivemos sob uma cultura que ainda normaliza a violência”.
Rosicler Marcon, advogada
“Ser mulher em 2026 é ter que sorrir enquanto partes de si são arrancadas pelas notícias que vemos de mulheres assassinadas, mutiladas, degradadas pelos homens que as amam. É ter que suportar que isso não é uma particularidade de 2026. Ser mulher é ter que aceitar assédio físico e moral no trabalho, na rua, em casa; é ter que provar inteligência e capacidade em qualquer situação; é ter que carregar o peso de ser multifuncional; é ter que ser forte em tempo integral. Ser mulher, em 2026, é entender que é necessário aumentar a jornada de trabalho e lutar pela vida antes mesmo de identificar o perigo. Ser mulher é continuar acreditando sempre na força transformadora do amor”.
Nata Francisconi, ativista cultural
“Ser mulher é enfrentar desafios diários, desempenhar diversos papéis, buscar o seu espaço, mas sempre com um olhar de acolhimento, de sensibilidade e de amor. Ser a única representante mulher na Câmara de Vereadores de Flores da Cunha é uma grande responsabilidade e também uma missão: dar voz a todas as mulheres da nossa cidade e buscar representá-las da melhor forma possível, trabalhando para que cada uma se sinta respeitada e valorizada no nosso município. O olhar feminino na política traz uma visão diferente, sobretudo em causas relacionadas a nós mulheres, como a violência doméstica, que ganha mais consistência e efetividade. O fato de ser mãe e filha traz também esse olhar de compaixão”.
Silvana De Carli, vereadora de Flores da Cunha

