A cultura do alho, por décadas associada à identidade agrícola de paduenses e florenses, atravessa um período de retração. Em Nova Pádua, a queda é expressiva. Dados do IBGE indicam que, em 2004, quando o instituto começou a apurar os dados da cultura, o município contava com 130 hectares plantados de alho. Em 2024, esta área caiu para 20 hectares.
O movimento se repete na produção. No início da série, o Pequeno Paraíso italiano produziu 1.170 toneladas de alho. O auge ocorreu em 2007, com a colheita de 1.890 toneladas. Já em 2024, o volume recuou para 140 toneladas, colocando o município na 13ª posição no Estado.
Em Flores da Cunha, o movimento segue a mesma direção. Em 2004, eram 200 hectares cultivados, número que caiu para 35 hectares em 2024. No início da série histórica, a Terra do Galo produzia 1,8 mil toneladas de alho. Em 2024, o volume recuou para 315 toneladas. Ainda assim, o município ocupa a nona posição no ranking estadual.
“É um cenário muito inseguro”
Mesmo ainda presente nas propriedades rurais, atualmente o cultivo enfrenta um cenário de custos elevados e instabilidade de mercado. A combinação entre aumento de insumos e dificuldade de repasse ao consumidor pressiona a rentabilidade da atividade.
Produtor florense com lavoura em Vacaria, Luciano Giachelin, 28 anos, relata a dificuldade de manter o cultivo diante das condições atuais.
— Nós temos 12 hectares. O preço está bem ruim. Nesse ano aqui nós vamos ter muito prejuízo. Vai aumentar insumo, vai aumentar tudo. E pra gente não compensa, a conta não fecha — desabafa.
O relato é que cada vez mais produtores debatem sobre reduzir ou abandonar de vez a cultura do alho.
— A gente já decidiu que neste ano vamos terminar de fazer a colheita e vamos parar. Nós também plantamos cenoura em Vacaria e o preço está bom porque em outras regiões do país tivemos eventos climáticos e o mercado acaba migrando para cá. Mas o alho fez o caminho oposto, ao invés de subir, desceu — lamenta Giachelin.
A dinâmica de mercado, segundo o agricultor, tem dificultado ainda mais a permanência na atividade.
— Nós temos que fazer o preço conforme o mercado. Tu não consegue repassar o valor do aumento do diesel, por exemplo, para o consumidor, se não tu não vende. E a cultura do alho é tão desvalorizada que o preço do diesel subiu e o alho desceu — lamenta.
A entrada do produto importado no Brasil também aparece como fator de pressão.
— Nós estamos com um desequilíbrio no alho porque tem vindo muito de fora e o preço despenca. É um cenário muito inseguro — reclama Giachelin, reforçando que o impacto financeiro é direto:
— No ano passado fomos comprar a semente do alho e pagamos R$ 28 ao quilo. Nesse ano nós estamos vendendo o alho a aproximadamente R$ 6 ao quilo. Já chegou a ser o nosso carro-chefe. A gente já chegou a plantar 40 hectares e fomos diminuindo… até chegarmos no momento que estávamos com 25 hectares, agora 12 e logo vai ir para nada — conclui o agricultor.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares (STR) de Flores da Cunha e Nova Pádua, Ricardo Pagno, concorda que o cenário atual marca uma inflexão em uma atividade historicamente relevante para a agricultura familiar.
— Entendemos a cultura do alho como algo que já entregou muito para a Serra, uma cultura muito importante para a agricultura familiar, que vem no inverno, portanto na entressafra da uva. Estamos passando por um momento muito difícil na questão da produção — opina.
Da tradição à cultura em declínio
No contexto estadual, o Rio Grande do Sul segue entre os principais produtores do país. Em 2024, foram colhidas 9.544 toneladas em 1.259 hectares. Ainda assim, a redução de área em municípios tradicionais como Nova Pádua sinaliza uma mudança no perfil da produção.
No Pequeno Paraíso Italiano, a cultura do alho carrega um significado para além da produção agrícola. Por décadas, foi sinônimo de renda e tradição nas pequenas propriedades. Hoje, o cenário é outro.
O agricultor Neomar Luiz Araldi, 64 anos, mantém três hectares de plantação no Travessão Paredes. A avaliação dele é direta.
— Nesses preços que estamos vendo hoje não vale mais a pena plantar. O preço aumentou muito nesses últimos anos. Nós temos concorrência forte de países como a Argentina e há uma desvalorização mesmo. O custo aumentou muito, inclusive da mão de obra — desabafa o paduense.
“Nós ainda insistimos”
A redução da área cultivada nos últimos anos é um reflexo deste cenário enfrentado pelos produtores.
— Mesmo com todas as dificuldades, nós ainda insistimos e estamos plantando a mesma área de cultivo, esses três hectares. Mas, em outros tempos, chegamos a ter muito mais; inclusive aqui em Nova Pádua e em Lajeado Grande — conta Araldi.
Entre os impactos na atividade, o paduense destaca o descontrole de mercado e a concorrência externa.
— O custo para produzir é muito alto. A gente nota um descontrole do alho que chega de fora, então isso desvaloriza o nosso preço. Outro fator importante é a questão da guerra, que baixou muito o consumo de alho no país — aponta.
Apesar das dificuldades, a decisão de permanecer na atividade ainda resiste.
— Apesar de todos os percalços, nós pretendemos continuar a nossa plantação, com esperança de que uma hora dessas melhore essa situação — projeta o produtor.
“Concorrência desleal”
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares (STR) de Flores da Cunha e Nova Pádua, Ricardo Pagno, aponta a concorrência externa como um dos principais fatores de pressão sobre os produtores locais.
— É um cenário desesperador, eu diria, por uma concorrência desleal com produtos importados. Temos uma entrada desenfreada do alho argentino, que muitas vezes é de péssima qualidade e acaba puxando nossos preços para baixo — avalia.
Ao falar em possíveis caminhos, ele defende medidas de controle sobre a entrada de produto estrangeiro.
— A gente avalia que uma solução seria a adoção de cotas para a entrada de produtos estrangeiros, sejam eles argentinos ou chineses, que hoje são os principais concorrentes, para que não se sobressaiam em relação aos nossos produtos. Nesses países, a produção é subsidiada pelo governo — finaliza Pagno.

