A conta de luz mais cara, especialmente no período de inverno, pressiona o orçamento de empresas e consumidores na Serra Gaúcha — o que acelera a busca por alternativas de redução de custo. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) estima que as tarifas de energia tenham reajuste médio de 8% em 2026, acima da inflação projetada para o ano.
É neste cenário que crescem empresas de geração compartilhada de energia, que oferecem até 20% de desconto na conta de luz, sem precisar instalar qualquer equipamento ou mudar sua relação com a concessionária — no caso de Flores da Cunha e Nova Pádua, a CPFL RGE.
Esse modelo de negócio com energia alternativa se tornou possível após a regulamentação do setor elétrico em 2022, que passou a permitir que consumidores abatam na conta de luz a energia produzida em usinas remotas, sem necessidade de geração própria. Na Serra, a Eletrodara, empresa sediada em Caxias do Sul, já oferece proposta de gestão de energia a partir de usinas parceiras e compensação de créditos diretamente na fatura do consumidor.
O sistema funciona por meio de créditos gerados a partir da produção das usinas e compensados na fatura emitida pela concessionária.
— A energia gerada é convertida em créditos energéticos que são abatidos na conta da distribuidora. O consumidor segue recebendo a fatura normalmente, mas passa a pagar menos, com economia que pode chegar a 20% dependendo do perfil de consumo — afirma o diretor da Eletrodara, Guilherme Saraiva.
Em termos práticos, o modelo mantém o consumidor dentro da rede da concessionária, mas altera a forma de contratação e abatimento da energia utilizada.
— Costumamos explicar que existem duas formas principais de aproveitar a energia solar. A primeira é a geração própria, com instalação de placas. A segunda é a geração compartilhada, em que a energia de uma usina remota é dividida entre consumidores e convertida em créditos — detalha o diretor.
Desta forma, o modelo amplia o acesso à energia renovável para perfis que não conseguem instalar sistemas próprios, seja por falta de espaço ou investimento.
— É semelhante a uma cooperativa energética. O consumidor continua na mesma rede elétrica, mas passa a receber créditos de energia renovável compartilhada, o que permite economia inclusive para quem mora em apartamento ou imóvel alugado — pontua.
Lei de 2022 permite a gestão compartilhada
O funcionamento está amparado no Marco Legal da Geração Distribuída, instituído pela Lei 14.300/2022, que reorganizou as regras do segmento e deu base jurídica para esse tipo de operação.
— A Eletrodara atua no modelo de geração compartilhada de energia, onde consumidores residenciais, rurais e empresariais utilizam energia produzida em usinas solares parceiras, sem necessidade de investimento em estrutura própria — explica o diretor Guilherme Saraiva.
A mudança regulatória foi essencial para dar escala a este modelo de negócio e o surgimento de empresas como a Eletrodara. A expectativa é que o debate ganhe mais consumidores, ampliando as fontes de energia renovável pelo país e diminuindo a dependência de concessionárias.
— Antes disso, o mercado operava basicamente por resoluções da Aneel. Com a lei, houve previsibilidade para investimentos e expansão dos modelos de negócio — observa.
Apesar de não alterar a estrutura física do fornecimento, o modelo mantém o consumidor dentro da rede tradicional de distribuição de energia, o que inclui a RGE como responsável pelo envio da eletricidade até o imóvel e pela medição do consumo.
— O consumidor continua sendo cliente da RGE, com a mesma rede, medidor e qualidade de fornecimento. Não há qualquer mudança estrutural no imóvel — salienta o diretor da Eletrodara.
A diferença aparece na forma como esse consumo é contabilizado na fatura mensal, a partir da entrada dos créditos gerados pelo sistema de energia compartilhada.
O avanço deste modelo tem sido mais expressivo em perfis com maior volume de consumo elétrico, especialmente entre empresas e atividades com custo energético mais elevado.
— Vemos a adesão crescente em diferentes perfis. Começou no residencial, mas avançou muito para pequenas e médias empresas, comércio e produtores rurais. Flores da Cunha tem um perfil muito favorável para esse tipo de solução, com indústria forte, agricultura relevante e cooperativismo consolidado. A energia elétrica representa uma parcela importante dos custos operacionais, e soluções que reduzem esse impacto sem exigir investimento inicial tendem a crescer — conclui Saraiva.
“Energia como gestão”
A leitura sobre o avanço desse tipo de solução compartilhada é uma tendência, tanto pela questão econômica imediata quanto pela sustentabilidade, avalia a profissional da área de inovação, Iara Barbosa. Com sua experiência da gestão pública, ela vê o tema como cada vez mais conectado ao dia a dia de empresas e famílias.
— Esse tipo de solução é bastante pertinente em municípios com perfil produtivo como Flores, onde o custo fixo pesa no orçamento de empresas, empreendedores e também das famílias. A energia elétrica tem um impacto direto na rotina financeira — avalia.
Iara chama atenção para a forma como o tema tem deixado de ser apenas técnico e passado a integrar decisões práticas de gestão.
— (Esse debate) mostra que a energia precisa ser tratada como tema de gestão. Antes de aderir a qualquer solução, é importante entender como funciona, qual o potencial de economia e se encaixa no perfil de consumo de cada um — observa.
A aproximação com iniciativas do setor de energia ajudou a ampliar a percepção sobre esse tipo de modelo, especialmente após eventos de inovação.
— Conheci a Eletrodara durante o South Summit, em Porto Alegre, e me chamou atenção o fato de ser uma empresa da região, sediada no TecnoUCS. Essa proximidade ajuda a reduzir a desconfiança inicial em relação a um modelo que ainda causa estranhamento: economia na conta de luz sem investimento inicial ou instalação de placas.
Para Iara, o avanço dessas soluções depende tanto da tecnologia quanto da compreensão de quem consome.
— Quando a inovação deixa de ser apenas discurso e passa a fazer parte da vida das pessoas, ela pode gerar economia e eficiência. Mas isso exige entendimento do funcionamento e análise cuidadosa de cada realidade — conclui.

