Home Destaque “Nasce uma mãe, nasce a culpa”: mulheres descrevem impacto das redes sociais na maternidade

“Nasce uma mãe, nasce a culpa”: mulheres descrevem impacto das redes sociais na maternidade

Entre apoio virtual e comparação constante, mães descrevem como o ambiente digital influencia expectativas, inseguranças e a relação com a própria maternidade
Mayara Chiosi relata que chegou a desinstalar redes sociais após sentir os impactos da comparação durante o pós-parto (Foto: Klisman Oliveira)

Para muitas mulheres, a maternidade conectada começa ainda na gravidez. Entre vídeos, relatos e dicas compartilhadas nas redes sociais, o ambiente digital se transforma em fonte de informação, acolhimento e troca de experiências. Mas, junto com esse apoio, surgem também comparações, cobranças e expectativas difíceis de sustentar na rotina real.

Esse descompasso entre o que se vive e o que se vê nas redes aparece de forma concreta na experiência de mães que atravessam a maternidade conectadas. É o caso da florense Mayara Chiosi, 27 anos, executiva de contas e mãe da Maitê, de 3 anos.

— As redes sociais fizeram parte da minha jornada de mãe desde o momento do positivo. Me vi ali buscando dicas de como me preparar para a gestação, para o parto e até buscando por relatos de mães que tinham passado as mesmas dificuldades que eu, para saber se o que eu estava sentindo e vivendo era normal — conta.

Nesse primeiro momento, o ambiente digital cumpriu um papel de suporte, especialmente diante das inseguranças do pós-parto e da distância de uma rede de apoio presencial.

— Inicialmente as redes sociais foram cruciais, pois, por exemplo, a amiga que mais me deu apoio no pós-parto quando enfrentei baby blues (estado emocional de tristeza no pós-parto) era uma amiga que morava em Porto Alegre e se comunicava virtualmente comigo — relata.

Com o tempo, contudo, os excessos de conteúdos passaram a influenciar expectativas.

— Depois, começou a se tornar um pesadelo, porque o excesso de informações pode ser muito perigoso. Eu criei uma expectativa sobre meu parto com base nos vídeos que eu assistia de parto natural e doulas, e quando passei por uma cesariana de emergência, fiquei frustrada — recorda Mayara.

Realidade filtrada

A comparação, segundo ela, se intensificou justamente em um período mais sensível, atravessado por mudanças físicas e pela adaptação à nova rotina.

— Eu costumo dizer que nasce uma mãe, nasce a culpa. A gente se culpa por amamentar, ou não, por trabalhar fora, ou não, e muitas vezes a raiz dessa culpa está na comparação. Você abre a rede social e vê que a mãe acabou de dar a luz e tá dançando, viajando… e você se vê de pijama e triste passando por um puerpério solitário.

O impacto emocional dessa dinâmica levou, em determinado momento, ao afastamento das plataformas como forma de preservar o próprio bem-estar.

— No começo eu sofri muito. Inclusive cheguei a desinstalar meu TikTok porque me comparava e sofria, chorava, me culpava porque achava que o que eu estava fazendo não era o suficiente. Esse excesso de informações fez com que muitas vezes eu me sentisse invisível e sozinha — relata.

Com o passar do tempo e a vivência prática da maternidade, a relação com as redes e com as próprias expectativas mudou.

— Hoje, que a Maitê tem 3 anos, eu já me sinto um pouco mais calma em relação a comparações pois entendi que sou a melhor mãe que posso ser, com a condição que tenho, dentro da realidade que vivo.

Ela reconhece que o ambiente digital também pode oferecer apoio e troca, desde que utilizado com equilíbrio.

— Tem muita coisa positiva também nas redes sociais. Dicas de fraldas, de massagens para acabar com a cólica. Hoje eu vejo muito dicas de atividades pra estimular a coordenação motora dela. Não podemos negar que conseguimos encontra apoio e empatia por parte de outras mães na internet — pondera.

Para ela, permanece a consciência de que o que circula nas redes está longe de dar conta da complexidade da experiência real.

— A principal diferença entre a maternidade das redes sociais e a minha é que (a rede social) nunca será capaz de demonstrar o que é a rotina real de uma mãe. Você sai do hospital com uma criança e aquilo ali se torna o seu mundo. Não existe um manual de instruções. Ser mãe é a melhor e mais difícil função desse mundo.

O que não aparece nas redes

A educadora parental Ananda Panizzon Gelain chama atenção para os efeitos da exposição precoce das crianças no ambiente digital, especialmente quando essa presença passa a envolver interação direta com o público.

— A exposição pode trazer impactos. A partir do momento que a criança possui um perfil nas redes e tem acesso a likes e chats de conversa, fica difícil lidar com certos comentários, poucas curtidas, porque na internet as pessoas expõem suas opiniões de uma maneira que não fazem pessoalmente. Podem surgir problemas de autoestima, adultização precoce, questões relacionadas à privacidade e segurança — aponta.

Outro aspecto observado por Ananda diz respeito à forma como pais consomem conteúdos sobre a criação dos filhos.

— Precisamos cuidar da procedência das informações. Temos que nos dar conta que informação é diferente de conhecimento. Ver um vídeo de 30 segundos na internet não é como ler um livro ou fazer um curso sobre educação de filhos.

Como tornar a relação com as redes mais saudável 

A psicóloga Sara Cavalli sugere alguns caminhos práticos para reduzir os impactos da comparação no dia a dia:

  • Curadoria atenta (unfollow terapêutico)
    Deixe de seguir perfis que promovem uma perfeição inalcançável e priorize contas que mostram a “maternidade real”, com vulnerabilidade e humor.
  • Regra dos 15 minutos
    Evite usar as redes sociais logo ao acordar ou antes de dormir. Esses são momentos em que o cérebro está mais vulnerável a autocríticas.
  • Lembrete do recorte
    “O que eu vejo é um recorte de 15 segundos de um dia de 24 horas”. Ninguém posta o choro, a louça suja ou o momento de descontrole.
  • Conexão offline
    Invista em redes de apoio reais. Conversar com uma amiga que também está exausta pode ser mais terapêutico do que rolar o feed.
  • Autoacolhimento
    Troque a pergunta “o que eu deixei de fazer hoje?” por “o que eu consegui sustentar hoje?”. Celebre as pequenas vitórias invisíveis.

 

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