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Motorista de Flores da Cunha desperta a curiosidade por onde passa com seu caminhão adesivado

Angelo Luiz Stuani, o “Repolho”, celebra mais de meio século atrás do volante e destaca os desafios da profissão nos dias de hoje
Repolho exibe seu Volvo adesivado para pedir proteção e levar Flores da Cunha para todos os seus destinos (Foto: Karine Bergozza)

Há mais de cinco décadas, Angelo Luiz Stuani, 75 anos, transformou a cabine do caminhão em lar e o horizonte da estrada em sustento. Repolho — como ficou conhecido no início de suas atividades, após transportar algumas cargas da verdura — despertou o gosto pela profissão com o falecido pai, Otávio João Stuani, que possuía uma oficina mecânica em Flores da Cunha e realizava o conserto de caminhões.

— Aos 17, 18 anos eu já trabalhava com os caminhõezinhos velhos que tinha do meu pai. Na época, fazia um fretezinho aqui, uma safra de uva ali, mudança para milico (militar) — conta, acrescentando que não tinha carteira de motorista na época e chegou a viajar a São Paulo sem habilitação.

Repolho recorda, com orgulho, que seu primeiro caminhão foi um Mercedes-Benz LP-321, de 1958. Depois, teve um Mercedes-Benz 1111, com o qual lembra de ter viajado para Belém, no Pará, e rodado mais de 1,4 mil quilômetros de estrada de chão. Na época, percorreu diversos destinos do Brasil, carregando vinhos e móveis.

Repolho com seu primeiro caminhão, um Mercedes-Benz LP-321, de 1958 (Foto: Acervo pessoal, reprodução)

“Não sei o dia que eu volto”

Aos 20 anos, em 1971, Repolho começou a trabalhar com caminhão-cegonha, no carregamento de automóveis, ofício que segue até hoje.

— Está no DNA! A nostalgia está ali! Imagina que viajei o Brasil inteiro, não tem lugar que eu não conheça. A Argentina também. Eu sei o dia que eu saio, mas não sei o dia que eu volto.

O caminhoneiro confessa que pretende trabalhar por mais um ano e depois “puxar o freio de mão”, mas não por falta de disposição.

— Todo mundo diz que queria chegar na minha idade com o pique que eu tenho. Nunca bebi, nunca fumei, nunca usei drogas nem tomei um rebite, nada para me drogar e poder andar. Sempre fui do ponto de vista de que, se não conseguisse ir das 5h da manhã às 11h da noite, dando a minha cochiladinha da tarde, se assim não conseguisse pagar as dívidas, eu teria que trocar de profissão.

Porém, a esposa, Rosa Maria Toigo Stuani, 73, com quem Repolho é casado há 53 anos, afirma não acreditar que o marido irá se aposentar e passar mais tempo com a família:

— Faz 55 anos que eu conheço ele. Eu já o conheci como caminhoneiro, por isso eu não posso me queixar, porque eu sempre fui acostumada com isso — brinca Rosa.

“Levar Flores da Cunha para onde eu for”

Há quatro meses, Repolho adquiriu um novo caminhão: um Volvo FH 440, Shift, de 2010. O motorista afirma que, com esta aquisição, pretende encerrar sua trajetória na boleia. Mas, antes disso, optou por realizar um sonho que confessa sempre ter tido: o de adesivar seu veículo.

— Sempre quis fazer isso em um caminhão, mas nunca surgiu a oportunidade. Quando peguei esse automático, eu disse: “vou adesivar”. Antes de fazer a primeira viagem, já estava feito. Coloquei o galo de um lado, atrás tem São Cristóvão, e do outro lado tem a Igreja Matriz. Coloquei para divulgar e levar Flores da Cunha para onde eu for! — revela o caminhoneiro.

A ideia surgiu antes do incêndio no templo, em maio deste ano. A opção pelas imagens do galo e da Igreja Matriz foi para homenagear os principais símbolos da cidade que nasceu; já a de São Cristóvão, pela proteção do padroeiro.

Apesar da utilização de veículos cada vez mais modernos e tecnológicos, Repolho acredita que os caminhoneiros eram muito mais valorizados antigamente em comparação aos dias de hoje. Ele lembra que chegava a dormir com as portas do caminhão abertas, junto com a mulher e os dois filhos, Alex e Ronaldo.

— Naquela época a gente tinha valor! Todo mundo valorizava. Quando eu chegava no Belém, eu descarregava as coisas principais e deixava o resto para o dia seguinte. As empresas eram assim: tinha um porãozinho e, em cima, morava o dono. Eu ia jantar e dormir na casa do dono. Hoje o cara nem quer te ver, nem sabe que a gente existe — lamenta o veterano.

Repolho guarda diversas memórias dos mais de 50 anos de estrada (Foto: Karine Bergozza)

“Tem que estar no DNA”

Repolho conta que, aos poucos, tudo foi se modificando, e conviver com a insegurança, infelizmente, passou a fazer parte do dia a dia dos motoristas.

— Hoje você para em um pátio da Polícia Rodoviária para dormir e ainda é multado. Não tem segurança nenhuma. Por isso eu não quis que o meu filho mais novo (Alex) seguisse a minha profissão. Ele queria, mas é muito cruel. Às vezes, ficamos dias em pátio para descarregar, sem banheiro, sem nada. Hoje não tem condições de ser caminhoneiro.

Questionado sobre o que poderia melhorar para incentivar novos motoristas a seguirem esta profissão tão nobre, Repolho é enfático:

— A lista é grande! Por isso, tem esse monte de vagas para motoristas de caminhão. Em tudo quanto é lugar, a gente abre o aplicativo, tem firmas precisando de 50 a 200 motoristas, tem caminhões parados. Não tem mais condição, é uma profissão que exige muito. Tem que estar no DNA, não adianta, tem que gostar.

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