A leitura exerce um papel fundamental ao longo de toda a vida. Da infância à terceira idade, o contato constante com textos contribui significativamente para o desenvolvimento, o aprimoramento e a preservação das habilidades cognitivas. Na fase idosa, esse hábito torna-se ainda mais relevante, pois o manuseio de livros, revistas, jornais e outros materiais oferece não apenas estímulos intelectuais, mas também benefícios físicos e emocionais — inclusive servindo como proteção à doenças neurodegenerativas.
No Brasil, mais de 1,7 milhão de pessoas vive com a doença de Alzheimer, conforme dados de 2025 da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz). Diante desse cenário, discutir a relevância da leitura após os 60 anos é abordar ações de cuidado, voltadas à promoção da saúde mental, da autonomia, do bem-estar e de um envelhecimento mais ativo e saudável.
Para aprofundar essa discussão sob a perspectiva médica, o neurologista Asdrubal Falavigna explica o que ocorre no cérebro de uma pessoa idosa quando o hábito da leitura é mantido com frequência.
— A leitura é uma das atividades cognitivas mais completas. Quando uma pessoa idosa pratica a leitura, redes cerebrais são ativadas simultaneamente, tais como a linguagem (lobos temporal e frontal); a memória (hipocampo); a atenção (lobo frontal); e a imaginação e a emoção (sistema límbico). Este estímulo cognitivo decorre da atenção sustentada da pessoa, o que obriga o cérebro a guardar informações, fazer conexões e recuperar dados, e estimula o pensamento abstrato, a inferência e a compreensão. A ativação aumenta a neuroplasticidade do cérebro do idoso, cria e fortalece sinapses neurais, ampliando melhor o cérebro às necessidades diárias — explica.
“Uma grande magia em minha vida”
Para a professora de História aposentada Jussara Maria Zenato Tronco, 66 anos, a leitura nunca esteve em segundo lugar ao longo da vida. Desde a juventude, os livros foram mais do que companhia, moldaram a sua forma de compreender o mundo.
Ao recordar o início dessa relação, Jussara retorna à literatura brasileira. Ela explica que o seu primeiro contato com a literatura foi com uma das obras de Érico Veríssimo.
— O livro foi “Música ao Longe”. E se apresentar à literatura pelo Érico Veríssimo foi uma das grandes magias que aconteceram na minha vida, porque, por meio desse livro, eu fui em busca dos outros e eu fui seguindo nessa linha até chegar a “O Tempo e O Vento”, que, para mim, é a obra-prima de toda a literatura — considera a florense.
A trajetória de Jussara com a leitura não se encerrou com a aposentadoria. Pelo contrário: foi justamente nesse momento que os livros ganharam outra profundidade. Com menos compromissos impostos pelo trabalho, a leitura passou a ocupar um espaço mais contemplativo, permitindo revisitar obras antigas sob uma nova perspectiva.
Ao refletir sobre essa mudança, ela destaca que o texto permanece o mesmo, mas o leitor se transforma com o passar dos anos.
— A leitura ganhou outro significado. O livro é atemporal. Eu estou revisitando livros que li há muito tempo, porque hoje eles têm outra perspectiva. A minha vivência, as minhas experiências, tudo o que eu vivi muda — percebe.
“Ler faz bem para mente e alma”

(Foto: Sohfia Marcon Fiorese)
Essa percepção também aparece na experiência de Rita Zanotto Mascarello, 65 anos. Diferentemente de Jussara, Rita não teve o hábito da leitura desde a juventude. Foi já na vida adulta, conciliando trabalho e maternidade, que os livros começaram a fazer parte do seu cotidiano.
— Faz muitos anos que eu comecei a ler. O primeiro livro foi um espírita: Violetas na Janela e, a partir dele, eu não parei mais. Foi ali que eu descobri o quanto a leitura podia me fazer bem e servir como terapia — explica a esteticista.
Atualmente, a leitura ocupa um espaço todos os dias na rotina de Rita, especialmente como um momento de desaceleração e cuidado consigo mesma. Para ela, o livro funciona como refúgio emocional.
— A leitura é um antiestresse. É um momento de relaxamento, faz bem para a mente e para a alma. É um tempo só meu — avalia.
Esse ritual costuma acontecer à noite, em silêncio, antes de dormir — prática que também se repete na rotina de Jussara. Ambas associam a leitura a um ambiente tranquilo, longe do excesso de estímulos do dia a dia.
— Eu prefiro ler à noite, porque me parece que leitura e silêncio combinam. Eu não consigo ler no tumulto do dia a dia, preciso desse recolhimento para me concentrar — conta Jussara.
Livros não são a única opção

(Foto: Sohfia Marcon Fiorese)
A leitura, no entanto, não se limita aos livros. No meio rural, entre as tarefas do campo e os momentos de descanso, o agricultor Vilson Cesar Guareze, 67 anos, mantém uma relação constante com a informação por meio do jornal impresso.
A leitura semanal do jornal local faz parte da rotina da família há muitos anos, funcionando como uma forma de se manter informado e conectado à comunidade.
— Já faz bastante tempo que a gente tem esse costume, mas eu sou quem mais gosta. Sempre que sai o jornal, nós pegamos para ler. É algo que faz parte da nossa rotina — ressalta.
Além da informação, ele associa o hábito da leitura a uma sensação de bem-estar e alívio das tensões do cotidiano.
— Ajuda bastante. A leitura tira o estresse da pessoa, ajuda a relaxar a cabeça. Por isso que gosto tanto — destaca.

