Home Destaque Evasão escolar entre os jovens acende sinal de alerta em Flores da Cunha

Evasão escolar entre os jovens acende sinal de alerta em Flores da Cunha

Adolescentes abandonam o ensino médio com o intuito de fazer exame supletivo depois
A infrequência escolar representa 15,2% dos atendimentos do Conselho Tutelar de Flores da Cunha (Foto: Karine Bergozza)

A infrequência escolar representa 15,2% dos atendimentos do Conselho Tutelar de Flores da Cunha e tem sido associada, em parte, à entrada precoce de adolescentes no mercado de trabalho. O desejo pelo poder de compra para adquirir bens de consumo, em geral novas tecnologias, leva muitos jovens a adiarem os estudos.

O que chama atenção dos conselheiros tutelares é que antes os casos de infrequência escolar eram relacionados à rebeldia, necessidades financeiras ou problemas com violência. Porém, começaram a ficar cada vez mais comuns os casos de decisão racional dos adolescentes.

A conselheira tutelar Luciana do Nascimento Dias relata que estão cada vez mais frequentes estas situações em que o ingresso precoce no mercado de trabalho parte do próprio adolescente, sem se tratar de uma necessidade financeira da família. Ela acredita que os pais conseguem garantir o básico aos filhos, no entanto os jovens objetivam adquirir determinados itens em alta, como celulares, jogos e tênis.

— Eles verbalizam isso para a gente. Não veem o estudo como um caminho imediato — relata Luciana.

A conselheira tutelar define a faixa etária de 16 e 17 anos como a “mais crítica” para os jovens, uma vez que estão deixando o ensino fundamental e ingressando no ensino médio. A conselheira aponta que muitos adolescentes traçam como estratégia abandonar temporariamente a escola e, ao completar 18 anos, buscar um certificado de conclusão do ensino médio por meio do Encceja (Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos) ou ingressar na Educação de Jovens e Adultos (EJA), que permite concluir os estudos em um período mais curto.

— Eles passam para o ensino médio, mas não fazem a matrícula porque querem trabalhar — constata.

Informações do sistema de Fichas de Comunicação de Aluno Infrequente (FICAI) do município mostram que, em 2024, 80 estudantes de ensino médio estavam com infrequência escolar em Flores da Cunha. Número que seguiu alto em 2025, com 73 registros.

No ensino fundamental, levando em consideração os dados da rede municipal e estadual, o número apresentou uma pequena diminuição de 2024 (108) para 2025 (88). Já a quantidade de FICAIs na educação infantil, observando dados da rede municipal, passou de 7 (2024) para 10 (2025).

Em 2026, o Conselho Tutelar florense já atendeu pelo menos três adolescentes que comunicaram antecipadamente a decisão individual de deixar a escola para ingressar no mercado de trabalho.

“Não é apenas um espaço de transmissão de conhecimentos”

Karen Braun, professora
de Psicologia na UCS (Foto: Josué Braun/ Divulgação)

A busca pela independência é bastante comum e esperada na adolescência, contudo a psicóloga e professora coordenadora do curso de Psicologia da Universidade de Caxias do Sul (UCS) Karen Cristina Rech Braun considera preocupante quando os jovens acabam deixando a formação escolar em segundo plano, uma vez que, a longo prazo, a escolarização continua sendo um dos principais fatores que ampliam oportunidades profissionais, estabilidade financeira e mobilidade social.

— A infrequência e a evasão escolar tendem a gerar prejuízos significativos no desenvolvimento cognitivo, social e emocional de crianças e adolescentes. A escola não é apenas um espaço de transmissão de conhecimentos; ela também desempenha um papel fundamental no desenvolvimento de uma série de habilidades — defende Karen, valorizando o papel da escola na socialização e na construção de projetos de vida.

Nesse sentido, a mestre em Psicologia observa que quando ocorre o afastamento precoce da escola, os prejuízos refletem na formação pessoal e profissional do jovem, bem como em sua inserção no mercado de trabalho.

Sobre o fato de muitos adolescentes interromperem os estudos para trabalhar, mas, aos 18 anos buscarem uma certificação por meio de provas como Encceja e EJA, a professora destaca que essa prática costuma trazer riscos, uma vez que nem todos os jovens conseguem retomar posteriormente, e quanto maior o tempo afastados, maior a chance de abandono definitivo.

— Esse fenômeno tem sido observado em diferentes contextos e revela que muitos jovens já percebem essas modalidades como uma estratégia para concluir a escolaridade. A EJA e o Encceja são extremamente importantes como políticas de reinserção educacional, mas não deveriam ser vistas como a primeira estratégia de trajetória escolar.

O ponto de vista de Karen também leva em consideração o fato de a escola regular oferecer experiências formativas importantes que vão além do ensino formal e que não são totalmente substituídas por processos de certificação mais rápidos.

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