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Almanaque Cultural escreve as últimas páginas de sua história em Flores da Cunha

Depois de 15 anos fazendo parte do dia a dia dos florenses, a única livraria do município encerra suas atividades nas próximas semanas
Livraria é comandada por Sandreli Berner Marteninghi (Foto: Tatiana Ferrarini)

Flores da Cunha se despede de um importante espaço cultural de incentivo à leitura e promoção da literatura. Depois de 15 anos fazendo parte do dia a dia dos florenses, a Almanaque Cultural, única livraria do município, encerra suas atividades nas próximas semanas.

A empresária Sandreli Berner Marteninghi, 44, que está à frente do empreendimento nos últimos sete anos, revela que a decisão foi construída ao longo do tempo, a partir de muitas reflexões sobre sua trajetória profissional e pessoal.

– Sempre acreditei no valor do livro físico, do atendimento personalizado e da indicação literária feita com conhecimento e sensibilidade, mas percebi que precisava olhar também para mim e para aquilo que faz sentido nesta nova etapa da minha vida. Virou um desgaste físico e uma preocupação diária – lamenta Sandi, como é conhecida por todos.

Com os livros tabelados pela editora, sua margem de lucro se tornou extremamente baixa, fazendo com que ela não tivesse mais de onde cortar gastos.

– Manter uma livraria física, especialmente em uma cidade do porte de Flores da Cunha, onde eu alcancei 10% da população de forma orgânica, tornou-se um desafio cada vez maior diante das mudanças no comportamento dos consumidores, da concorrência com as grandes plataformas digitais e da própria dinâmica do mercado.

A livreira explica que irá atender por mais cinco ou seis semanas e pede para que as pessoas não enviem mensagens solicitando preços, que optem por ir até o espaço físico, localizado na Rua Garibaldi, 1035, sala 2, no Centro de Flores da Cunha.

– Não cogitei dar descontos, pois o meu produto não tem preço, tem valor! O estoque foi construído durante longos sete anos e, ao anunciar o fechamento com antecedência, irei parar de comprar e realizar as vendas com calma.

O horário de atendimento da Almanaque Cultural é de terça a sexta-feira, das 9h às 12h e das 14h às 19h, e aos sábados, das 9h às 12h.

“Muitos mais do que uma livraria”

Além do atendimento personalizado, Sandi explica que outro diferencial é a diversidade do acervo e a oferta constante de lançamentos, que permite que os clientes tenham acesso a diferentes gêneros, autores e novidades do mercado editorial, uma vez que ela dedica estudos diários a isso.

A Almanaque também participou da formação de leitores, por meio de atividades nas escolas, encontros literários, lançamentos de livros, contações de histórias e feiras literárias.

– Acredito que uma livraria física tem um papel cultural que vai além da comercialização de livros. Ela oferece a oportunidade de descobrir algo novo, receber uma indicação personalizada, conversar sobre literatura e encontrar um livro que talvez nunca aparecesse em uma busca pela internet. É um espaço que estimula a curiosidade, o pensamento crítico e a formação de pessoas.

Por isso, ela ressalta que o fechamento representa a perda de um espaço cultural construído com muito trabalho e dedicação.

– Que essa despedida também provoque uma reflexão sobre a importância que damos à cultura, à leitura e aos espaços que ajudam a mantê-las vivas em nossa cidade. Na minha opinião, Flores da Cunha perde muito mais do que uma livraria. Perde um espaço de incentivo à leitura, de convivência, de troca de ideias e de aproximação entre leitores, escritores e a comunidade.

“Uma cidade que investe em leitura investe no seu futuro”

A empresária defende que a leitura precisa ser compreendida como uma construção coletiva e de longo prazo, cujos resultados, por vezes, não são percebidos imediatamente, mas impactam na formação de leitores, no desenvolvimento do pensamento crítico e na maneira como as pessoas se relacionam com o conhecimento.

– Acredito que a cultura da literatura poderia ser mais incentivada em Flores da Cunha, tanto pelo poder público quanto pela própria comunidade e pela iniciativa privada. A leitura não deve ser vista como algo secundário, mas como um investimento na formação das pessoas, no desenvolvimento da cidade e na qualidade de vida da população. Uma cidade que investe em leitura investe também no seu futuro – defende Sandi.

Nesse sentido, ela menciona que as Feiras do Livro funcionam como oportunidades para aproximar as pessoas da leitura, envolver as escolas, valorizar os escritores e estimular o contato das crianças e dos jovens com a literatura.

– Mais do que um evento no calendário, elas representam uma oportunidade de formação cultural e de acesso ao conhecimento. Na minha humilde opinião, precisamos voltar a ler os clássicos, uma forma de incluir é através de teatros e trabalhos falando sobre eles. Esquecemos que a nova geração, na grande maioria, os desconhece.

A livreira também sugere a adesão de algumas iniciativas que considera importantes para fortalecer a cultura da literatura na Terra do Galo.

– Acredito que seria importante investir em um calendário cultural contínuo, com ações ao longo de todo o ano, incentivo à leitura nas escolas, valorização dos escritores locais. Temos diversos escritores na cidade, de várias idades que merecem ser reconhecidos. Precisamos fortalecer os eventos literários e investir em livros novos nas bibliotecas das escolas.

“Continuem lendo”

Sandi aproveita a oportunidade para agradecer, “de coração”, a cada pessoa que fez parte da história da Almanaque ao longo dos anos.

– Cada livro indicado, cada conversa, cada criança que descobriu o prazer da leitura e cada encontro vivido nesse espaço fizeram parte de algo muito maior do que uma livraria. A Almanaque deixa sua marca na história cultural de Flores da Cunha, e isso só foi possível porque tantas pessoas acreditaram nesse trabalho junto comigo.

Para a livreira, a Almanaque nunca foi “apenas” um negócio. Foi um projeto de vida, construído com muito trabalho, dedicação e amor pelos livros. Por isso, ela deixa um convite para todos os clientes, amigos e leitores a aproveitarem as últimas semanas para visitar o espaço, se despedir e relembrar momentos.

– Encerro este ciclo com gratidão e com a certeza de que, embora as portas da livraria se fechem, tudo o que construímos por meio dos livros continuará vivo na história de cada leitor que passou por aqui. Continuem lendo!

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