Home Destaque Entenda como funciona a tecnologia de desalcoolização que preserva o sabor original do vinho

Entenda como funciona a tecnologia de desalcoolização que preserva o sabor original do vinho

Inaugurada em Flores da Cunha, a Wine Free aposta em maquinário italiano para terceirizar o serviço e reduzir custos de produção para vinícolas de todo o país
Leocir Luvison, Roberto Balardin, Ricardo Molardi, Antonio Luvison e Ezio Casagrande (Foto: Karine Bergozza)

Já imaginou desfrutar de um bom vinho em pleno horário de trabalho, e ainda voltar para casa dirigindo com total segurança? Essas são apenas algumas das possibilidades que o vinho desalcoolizado oferece para uma sociedade que busca manter a experiência desta bebida milenar, mas opta por reduzir o consumo de álcool.

A consultoria inglesa IWSR aponta uma taxa de crescimento anual de 4% para vinhos com baixo ou nenhum teor alcoólico. A pesquisa de 2024 foi realizada em dez mercados, incluindo o Brasil. Para produtos totalmente desalcoolizados, a taxa deverá ser de 7% ao ano.

Foi mirando neste mercado em ascensão que a Wine Free Tecnologia para Desalcoolização abriu as portas no último sábado (10), na Linha 80, em Flores da Cunha.

A novidade chegou a Terra do Galo por meio da Opportunity, empresa italiana que integra o quadro societário da companhia ao lado de Leocir Luvison, Antonio Luvison, Ricardo Molardi e Roberto Balardin.

A opção pela marca se deu pelo fato de o maquinário manter ao máximo as características originais da bebida.

– Hoje esta é a melhor tecnologia disponível no mercado para se fazer uma desalcoolização. É a que mais vai preservar a essência – defende o empresário Roberto Balardin, 36.

Ele lembra que o interesse de alguns clientes foi o que o motivou a conhecer novas tecnologias, no entanto, revela que, quando ofereceu a desalcoolização para seus clientes, a resposta foi unânime:

– “É um processo muito caro para a gente fazer um teste de mercado”. Um cliente que tem a condição financeira de investir, ele não vai fazer uma aposta tão alta em algo que é incerto. Se eu colocar esse equipamento para um cliente só trabalhar, ele teria que ter volume para desalcoolizar o ano todo, pois se torna um investimento muito alto.

Por isso, criar uma empresa para atender vinícolas de todo o Brasil interessadas em ampliar seus portfólios com bebidas sem álcool se mostrou uma boa alternativa.

Com capacidade para processar até 5 mil litros de vinho por dia, a Wine Free recebeu investimento de R$ 7 milhões para operar de forma automática.

Cerca de 20 vinícolas estão na fila de espera para iniciar operações com a empresa. Além da Serra Gaúcha, há marcas de São Paulo e Santa Catarina interessadas.

A tecnologia utilizada chegou ao Brasil por meio da empresa italiana Opportunity (Foto: Karine Bergozza)

Como funciona a desalcoolização?

Roberto Balardin explica que o processo é dividido em duas etapas, sendo a primeira uma osmose reversa, onde é separado de todo o produto inicial apenas água e álcool. Isso é possível por meio do controle da temperatura e pressão da passagem do produto através das membranas. Este controle permite garantir que será extraído o mínimo possível de aromas e absolutamente nada de cor, mantendo a integridade da bebida enquanto se remove todo o álcool contido no produto inicial.

– Como eu estou extraindo uma grande quantidade de água, eu vou concentrar esse produto. Eu não posso desperdiçar essa água, porque senão eu perco muito volume. Aí eu vou para a segunda etapa do meu processo, que é a destilação.

O empresário revela que esta fase é capaz de desalcoolizar um vinho e qualquer outro produto, uma vez que faz com que o álcool evapore. Por outro lado, reforça que se for destilar toda a massa, vai perder componentes importantes.

– Então, o que a gente faz? Separa água e álcool, destila somente essa fração do produto, separa o álcool a uma concentração elevada acima dos 90% e aí depois toda a água vegetal é reincorporada no produto inicial, ou seja, eu tenho uma perda de volume muito menor – ele prossegue e ressalta as vantagens deste método:

– Isso garante que eu tenha o mínimo de perda possível em relação ao volume inicial, e um ganho qualitativo muito superior, porque eu só destilo uma solução hidroalcoólica e com isso eu consigo garantir que eu vou ter o meu produto final de qualidade, preservando aromas, taninos, polifenóis e todas as características que o vinho tem.

O valor ao litro para desalcoolizar varia entre R$ 4 e R$ 6.

E o álcool?

Uma das modalidades que o cliente da Wine Free pode contratar inclui o retorno do álcool recuperado para reutilização interna. Este subproduto pode servir como base para a elaboração de derivados vinícolas, destilados ou para a padronização de lotes e blends, por exemplo.

– Esse álcool, com certeza, tem mercado, e um valor bem agregado. Está se falando na casa de R$ 20 ao litro, praticamente. E tem uma procura porque hoje se importa muito álcool da Argentina e do Chile. Eles são produtores de vinho muito maiores do que nós e lá, normalmente, os vinhos de baixa qualidade são destilados para se produzir álcool vínico.

Fermentado de Uva Desalcoolizado

O produto final desenvolvido pela Wine Free é chamado de fermentado de uva desalcoolizado, uma vez que a legislação brasileira não permite a utilização de termos como “vinho sem álcool”.

No entanto, Balardin informa que a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) tem liderado esforços para regularizar a expressão “vinho desalcoolizado”. As discussões técnicas e atualizações normativas consolidadas em 2025 redefiniram os parâmetros internacionais para diferenciar a mera correção do teor alcoólico da criação de produtos desalcoolizados.

O empresário também explica que o fermentado de uva desalcoolizado se difere do suco de uva, sobretudo pelo processo de elaboração.

– O suco de uva nada mais é do que você receber a uva, processar e elaborar o suco.

O produto também é diferente dos chamados zero álcool, feitos com base em suco de uva entre 30% e 50%, e o restante de água.

– Esse produto posteriormente vai ser gaseificado e envasado como um espumante zero álcool. Mas se a gente for ler no rótulo está escrito “bebida à base de suco de uva” ou “refrigerante à base de suco de uva”, enquanto o vinho desalcoolizado se trata de um vinho que passou por todo o seu processo de elaboração, posteriormente teve o álcool removido e foi para a garrafa.

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