Desenhos feitos por crianças da Nova Holanda, no Complexo da Maré, ganharam tecidos, formas e cores e deixaram o papel para ocupar as fotografias de uma exposição. O resultado pode ser conferido na mostra digital “Brasil que Cria”, que reúne cerca de 50 imagens produzidas a partir das roupas criadas pelas próprias crianças.
A exposição nasceu de um processo de quatro semanas, no qual os participantes estiveram envolvidos em diferentes etapas da produção. Eles desenharam os figurinos, participaram das oficinas de upcycling (técnica que reaproveita materiais para transformá-los em novas peças) e, posteriormente, escolheram como gostariam de aparecer diante das câmeras.
Mais do que apresentar roupas e fotografias, o projeto propõe discutir a forma como a infância brasileira é retratada. A pergunta que orienta a exposição é “Que infância o Brasil cria?”, deslocando o foco de narrativas associadas à vulnerabilidade para aspectos como criatividade, imaginação, autoestima e autoria.
“Nasce do olhar delas”
A iniciativa foi idealizada por Hugo Gunzburger, diretor criativo da LAB678, por meio do Brasil com S, e Kamila Camillo, empreendedora social e fundadora do Instituto Crias do Tijolinho. Para Gunzburger, a participação das crianças foi parte fundamental da construção do trabalho.
— Ao longo de quatro semanas, as crianças participaram de todas as etapas do processo criativo, do figurino ao ensaio, conhecendo cada etapa da produção e construindo uma narrativa que nasce do olhar delas, registrando imagens a partir de suas próprias perspectivas — explica.
O processo começou com os desenhos. A partir das ideias apresentadas pelas crianças, os figurinos foram desenvolvidos utilizando o upcycling. Nesse percurso, materiais que já existiam foram transformados em novas peças, estabelecendo também uma relação entre reaproveitamento e reinvenção.
O trabalho contou com Alice Calzolari no desenvolvimento das peças e no upcycling e Angelina Aquino no styling. A produção envolveu ainda profissionais de design, narrativa, pintura e customização, vídeo, beleza e produção executiva.
Com as roupas prontas, as crianças participaram de um ensaio dividido em três momentos: os bastidores da preparação, a experimentação dos figurinos e os retratos finais. Nesta última etapa, cada uma pôde decidir como queria ser fotografada.
Referências, sonhos e criatividade
A escolha das poses reforçou a proposta de colocar os participantes como protagonistas do trabalho. As fotografias não procuram apenas registrar os figurinos, mas também preservar as escolhas e a maneira como cada criança decidiu se apresentar.
— Nossa proposta foi construir com as crianças uma narrativa em que suas referências, seus sonhos e sua criatividade sejam o ponto de partida. Queremos que o público enxergue essas crianças pela potência que elas têm de imaginar e criar futuros — afirma Kamila.
Como continuidade do projeto, uma revista impressa será lançada nos próximos meses. A publicação reunirá fotografias, bastidores e reflexões sobre o processo criativo desenvolvido com as crianças e terá distribuição para um mailing selecionado.
Ficha Técnica
- Direção: Hugo Gunzburger e Kamila Camillo
- Desenvolvimento de peças e upcycling: Alice Calzolari
- Styling: Angelina Aquino
- Direção Criativa: Joanna Gabriel
- Design: Giovanna Lira, Inês Alves, Júlia Amaral, Rafaela Roquette e Pedro Burger
- Narrativa: Inês Alves, Júlia Amaral e Pedro Burger
- Foto: Bel Corção e Kamila Camilo
- Trança: Juliana Marinho
- Barbeiro: Mael do Corte
- Produção Executiva: Joanna Gabriel
- Pintura e Customização: Rafaela Roquette
- Vídeo: Sthefany Barros
- Crianças: Mikael, Nicolly, Rayssa, Miguel, David, Arthur, João, Cauã, Jamilly
- Equipe Crias do Tijolinho: Ester Nascimento, Paulo André e Gabrielly Alves

