A primeira venda de um vinho muitas vezes acontece antes mesmo da primeira taça. Em meio a centenas de garrafas nas prateleiras, o rótulo precisa despertar o interesse do consumidor em poucos segundos. Em Flores da Cunha, maior produtor de vinhos do Brasil, essa disputa também movimenta agências e gráficas especializadas, que transformam identidade, conceito e características do produto em comunicação visual.
Mais do que informar a variedade da uva ou a safra, o rótulo tornou-se uma ferramenta de posicionamento de marca. Papel, acabamentos, ilustrações e design ajudam a transmitir qualidade e a diferenciar um vinho da concorrência.
— Costumo falar que eu ajudo na primeira venda. Depois que o cliente prova o produto, aí é com a vinícola —, brinca Marcio Vanelli, diretor de criação da Bico Oficina Criativa.
Investimento em identidade
Segundo Vanelli, mesmo pequenas vinícolas têm percebido que investir em design deixou de ser um diferencial para se tornar uma necessidade.
— Tu pode comunicar por nuances, por elementos que agreguem valor ou algum conceito.
Segundo ele, toda a comunicação precisa conversar com a proposta da marca, desde a escolha da garrafa até o tipo de papel e os acabamentos utilizados no rótulo.
Casa Eva apostou nos sentidos
Um exemplo dessa estratégia é a Casa Eva. Lançada em 2023 e comandada por cinco mulheres, a vinícola entrou no mercado de vinhos finos com uma proposta baseada em propósito e identidade feminina.
A ideia precisava aparecer também nas garrafas.
Na linha Sentidos, em vez de descrever aromas por texto, a marca optou por ilustrá-los de forma realista. O projeto foi desenvolvido em parceria com a Bico Oficina Criativa e ganhou ainda figuras femininas em poses contemplativas, reforçando a identidade da vinícola.
— Os rótulos realmente chamam a atenção. A linha Sentidos se destaca nas prateleiras — afirma Alessandra Muraro.

Vinho Enigma, da Casa Eva. (Imagem: Bico Oficina Criativa)
O mistério como estratégia
A busca por diferenciação continuou no lançamento do vinho ícone da marca.
Batizado de Enigma de Eva, o rótulo não revela a composição das uvas utilizadas no vinho. Em vez disso, apresenta apenas uma letra “E”, desenhada manualmente com técnica de hachuras e formada por diversos rostos femininos.
— Queríamos algo icônico, bem diferente. Sempre procuramos algo inovador, que chame a atenção e reforce esse posicionamento da Casa Eva com destaque ao cuidado com os detalhes — explica Alessandra.
Assim, o rótulo deixa de ser apenas uma identificação do produto para se tornar parte da narrativa construída pela marca.

