Falar sobre as drogas é um tabu para a sociedade e um desafio para quem se perdeu. Por isso, são essenciais espaços dedicados ao acolhimento, à escuta e à reconstrução de trajetórias. O Narcóticos Anônimos é um desses lugares. Em Flores da Cunha, esta missão é cumprida pelo grupo Fênix, braço local da irmandade, que celebrou duas décadas de atuação contínua no último dia 9 de abril.
O Narcóticos Anônimos é uma irmandade internacional sem fins lucrativos formada por pessoas que compartilham experiências, forças e esperanças. O objetivo é um só: se manter em abstinência do uso de drogas e ajudar outras pessoas a alcançar o mesmo propósito.
As reuniões regulares possibilitam aos membros compartilharem vivências da recuperação, incluindo dificuldades, vontade de usar, recaídas e conquistas. O anonimato é uma das bases fundamentais deste elo que evidencia que nunca é tarde para recomeçar.
Uma dessas vidas é a de um participante de 70 anos, que encontrou no Narcóticos Anônimos um caminho de reconstrução.
— Cheguei ao NA depois de ter perdido o controle sobre a minha vida. Hoje, depois de 33 anos sem usar drogas, entendo que isso não é só sobre parar de usar, é sobre aprender a viver de novo — relata.
Além de participante, o idoso atua no Subcomitê de Relações Públicas do Comitê de Serviço da Área Caxias+ da irmandade Narcóticos Anônimos.
— Quando a gente se mantém no serviço e ajuda outros a encontrarem esse caminho, a recuperação se fortalece todos os dias — afirma.
Ele revela que o seu momento de virada esteve ligado a um conjunto de perdas acumuladas e ao adoecimento em diferentes áreas da vida. É a partir dessa experiência que ele rememora o início de sua trajetória com as drogas.
— Eu comecei com a droga mais lícita do mundo, que é o álcool. Eu tive o primeiro “porre” com 10 anos. Na adolescência, qualquer coisa servia. Era compulsão e obsessão, eu era um escravo. Você não consegue usar pouco, precisa sempre de mais. E isso vai destruindo família, trabalho, espírito, tudo ao redor — conta.
Este é um roteiro que se repete entre os narcóticos anônimos. A maioria dos vícios iniciaram de forma gradual e, pouco a pouco, o uso de substâncias químicas passou a assumir um papel predominante em seus cotidianos.
Apesar da dureza do percurso, o homem de 70 anos reforça que há, sim, possibilidade de retorno social e destaca o que encontrou na recuperação:
— O mais importante é que hoje eu tenho paz, coisa que eu nunca tive antes. Aqui eu aprendi que posso viver bem, um dia de cada vez, e que nunca estou sozinho — conclui.
“Uma escolha que eu não entendia o tamanho das consequências”
A história de outro integrante do grupo, um homem de meia-idade com mais de 16 anos em abstinência, reforça a percepção de que a dependência extrapola o indivíduo. Ele conta que, mesmo nos momentos mais marcantes de sua vida, o uso de substâncias permanecia presente.
— Eu casei na igreja e fui para o altar com droga no bolso. Fui para a lua de mel já pensando em usar. A droga estava em tudo. Troquei tudo e todos por mais uma dose. É uma doença avassaladora — lamenta.
Seu contato inicial com narcóticos ocorreu aos 12 anos, motivado pelo desejo de pertencer.
— Comecei a usar com a turma de amigos. Ninguém me obrigou. Eu quis, porque queria fazer parte, queria me sentir incluído. E ali já tive contato com drogas mais pesadas, principalmente injetáveis. Foi uma escolha, mas uma escolha que eu não entendia o tamanho das consequências — afirma.
O homem destaca que a dependência se mostrava mais devastadora do que qualquer outra situação.
— Descobri que tinha HIV e depois um câncer. Naquele momento, achei que a vida tinha acabado. Mas, mesmo assim, o uso de drogas ainda era pior. A dependência me levou a destruir tudo ao meu redor, muito mais do que qualquer doença física — compara.
Apesar das trajetórias distintas, ambos os anônimos apontam um elemento em comum no início da recuperação: o reconhecimento da necessidade de ajuda. O processo nem sempre começa com a convicção de interromper o uso, o que se constrói ao longo do tempo.
— Nesse primeiro gesto nasce a possibilidade de mudança. Reconhecer a própria fragilidade não é sinal de fraqueza, mas de coragem. O passado já foi e o futuro ainda é incerto; por isso, o dia mais importante de nossas vidas é aquele que estamos vivendo agora, um dia de cada vez — reforça.
Um novo começo é possível
Para quem enfrenta dificuldades com o uso de drogas e busca um espaço de acolhimento, o grupo Narcóticos Anônimos de Flores da Cunha mantém reuniões abertas todas as terças-feiras, às 19h30min, na Galeria Paroquial, sala 18.
A participação é gratuita e não exige inscrição prévia. O único requisito para fazer parte é o desejo de parar de usar. O grupo funciona como um ambiente de escuta e partilha, onde pessoas em diferentes estágios da recuperação encontram apoio mútuo para seguir um dia de cada vez.
Em casos de necessidade urgente ou para esclarecimento de dúvidas, o atendimento pode ser feito por meio da linha de ajuda, pelo número 132, ou pelo WhatsApp (54) 99122-0060.
“Existe um efeito espelho”
A compreensão contemporânea da dependência química exige uma leitura que vá além de julgamentos morais. Trata-se de uma condição complexa, que envolve dimensões biológicas, psicológicas e sociais, e que demanda respostas igualmente integradas.

Michele Berlanda Marin
A psicóloga Michele Berlanda Marin, que atua na área desde 2004 e integra a equipe do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de Flores da Cunha, destaca que o cuidado efetivo depende da articulação entre diferentes frentes.
— A dependência química é uma doença crônica que está ligada a fatores biopsicossociais. Não está relacionada à aspectos morais, como falta de caráter ou força de vontade. O tratamento mais efetivo é aquele que articula diferentes estratégias: atendimento psicológico, grupos terapêuticos e suporte familiar e social. Em alguns casos, também é indicada a internação para desintoxicação — explica.
No tratamento da dependência química, o papel da família se mostra decisivo para a recuperação do indivíduo. A forma como os vínculos são estabelecidos e conduzidos ao longo da trajetória pode influenciar diretamente na adesão ao tratamento e na prevenção de recaídas.
— A família precisa aprender a lidar com a dependência. Sem orientação, pode acabar reforçando comportamentos que contribuem para recaídas. Por outro lado, quando bem orientada, ela se torna uma rede de apoio essencial, ajudando no estabelecimento de limites e no suporte emocional — ressalta.
Por isso, iniciativas como o Narcóticos Anônimos são vistas como aliadas importantes, ainda que não substituam o acompanhamento profissional.
— Os grupos de apoio têm um papel muito relevante. Existe um efeito espelho, em que a pessoa se identifica com a história do outro e se sente compreendida. Isso pode fortalecer muito o processo de recuperação — pontua.
