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Escolas municipais de Flores da Cunha ministram oficinas gratuitas para apoiar estudantes imigrantes

A iniciativa, que beneficia 40 alunos haitianos a argentinos, busca facilitar a integração ao ambiente escolar e à comunidade
Ladjie Celestin Pierre, Sleyanca Charles e Nickendia Jules aprendem o novo idioma na Pedro Cecconello (Foto: Karine Bergozza)

Mais do que falar e escrever uma língua diferente, aprender um novo idioma é conquistar a sua voz em uma nova comunidade. Em Flores da Cunha, 40 estudantes estrangeiros da rede municipal participam de oficinas de alfabetização. A iniciativa busca facilitar a integração de alunos haitianos e argentinos ao ambiente escolar e à comunidade.

As oficinas são atividades extracurriculares que servem como importantes ferramentas de inclusão social, espaços de transformação e acolhimento. Na Escola Municipal Professor Pedro Cecconello, em São Gotardo, desde o início deste ano, três alunas naturais do Haiti participam da oficina de Língua Portuguesa. Elas cursam o 7º e o 8º ano na instituição de ensino, mas compreensivamente estão em um estágio diferente no idioma.

A responsável é a professora Alessandra Accorsi Trindade, que relata focar o aprendizado nas semelhanças e diferenças entre Brasil e Haiti:

— Trabalhamos muito essa questão das culturas. Eu trago um pouco da cultura daqui para elas se sentirem pertencentes e entenderem sobre a nossa. Hoje (terça-feira), por exemplo, no segundo momento da nossa aula, elas irão falar sobre escritores do Haiti. Também faremos uma pesquisa, um painel, sobre a relação entre os países.

A iniciativa ocorre no contraturno escolar, sempre nas terças-feiras à tarde. As atividades são desafiadoras para professores e alunos, afinal o conteúdo precisa se adequar às necessidades de cada estudante, que possui diferentes níveis de compreensão do idioma.

— Sempre pergunto se tem alguma coisa que os alunos não estão conseguindo acompanhar na escola, para auxiliar. Nós temos um “acordo” de tentar fazer com que eles consigam dar conta das disciplinas (currículo) do seu ano letivo, a partir desse apoio de português.

Alessandra observa que as estudantes enxergam a oficina como um “momento de encontro” com suas origens e nota interesse na participação das meninas, especialmente na busca por mais autonomia.

— Fico feliz em acompanhar a evolução dos alunos. Acredito que eles precisam desse acolhimento, desse olhar, e tento trazer um pouco de alento. Eles estão vindo de um outro lugar, são estranhos aqui, e até nas próprias turmas eles têm um estranhamento. Tenho que ser uma pessoa com empatia.

“Oportunidade para aprender”

Ao lado de Nickendia Jules e Sleyanca Charles, Ladjie Celestin Pierre, 13 anos, é uma das estudantes beneficiadas com a oficina. O pai dela, Parel Pierre, 47, destaca que aprender uma nova língua “é bom e ajuda a todo mundo”.

— É bom porque ela veio de fora e a gente está tentando ajudar para ela se acostumar aqui no Brasil com a comida, a língua, com tudo. É tudo diferente, é frio, e quando tem calor também tem que acostumar.

Pierre conta que a filha aprende um pouco de português com ele, mas, como trabalha fora todo o dia em uma empresa de estruturas de concreto, e a mãe, Onithe Celestin, 45, não domina o idioma, a escola é uma “oportunidade para ajudar ela a aprender”.

Aprendizado dos filhos também ajuda a família a “se encontrar”

Alessandra Accorsi Trindade ministra as oficinas de
Língua Portuguesa na Pedro Cecconello e Leonel Brizola (Foto: Karine Bergozza)

A professora Alessandra também é a responsável pelas oficinas na Escola Municipal Leonel de Moura Brizola, no bairro Pérola, onde leciona para oito alunos haitianos, do 6º ao 9º ano. Neste educandário, a oficina já ocorre há dois anos. O objetivo é o mesmo: dar autonomia para os estudantes e suas famílias.

— Tem um aluno que leva a mãe e o pai para a aula, pois eles não sabem nada de português. No cotidiano, são os estudantes que, por vezes, levam os pais para o posto de saúde e para a prefeitura, por exemplo. Eles auxiliam a família a poder estar na cidade, conseguir encontrar um emprego e até regularizar a própria documentação. Enfim, em todas as necessidades — contextualiza a professora.

Alessandra explica que, em muitos casos, começa a trabalhar com os estudantes falas simples, como “preciso ir ao banheiro” ou “quero tomar água”, para que eles consigam “se encontrar” na própria escola.

— Alguns chegam à escola não sabendo nem pedir para ir ao banheiro. Hoje, eles conseguem interagir com os colegas e com os outros professores e conseguem acompanhar as outras disciplinas, falar com a diretora e com a merendeira.

Neste cenário, a professora destaca que as oficinas voltadas para alunos estrangeiros são fundamentais para os estudantes se sentirem em casa.

— Eles se soltam, riem, brincam, falam a língua deles. É um momento de encontro! Às vezes, eles estão sozinhos na sala, tentando se adaptar ao lugar. Hoje, noto que muitos já têm autonomia para escrever um texto!

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