Os efeitos da guerra entre Irã e Estados Unidos se espalham por diferentes setores da economia, mas na indústria do plástico o impacto já começa a se tornar evidente. Em Flores da Cunha, as empresas operam sob aumento sucessivo no custo das matérias-primas, instabilidade no fornecimento e dificuldade de repassar os preços aos clientes.
Para o setor, essa relação é estrutural. Resinas como polietileno e polipropileno, base da produção de embalagens e de uma ampla variedade de produtos industriais, têm origem no petróleo. Com a valorização do barril, esses insumos registram aumentos sucessivos no mercado internacional, pressionando toda a cadeia produtiva.
O impacto, contudo, não chega de forma imediata à ponta. Existe um intervalo entre o choque do petróleo e sua incorporação ao custo final das embalagens e produtos — o que cria uma defasagem entre custo e repasse e comprime as margens das empresas. É o que explica a mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), Marcela Kawauti.
— Quando falamos do impacto do petróleo para a indústria de plástico, é algo um pouco mais demorado do que para a cadeia de combustíveis, por exemplo. Normalmente essa indústria tem contratos de prazo um pouco mais longos e existe alguma facilidade de ajuste para que esse estoque seja reposto.
Segundo Marcela, esse percurso passa por diferentes etapas da cadeia produtiva e dilui o impacto no tempo, mas não o elimina. Por isso, o consumidor pode ainda não sentir integralmente os efeitos dos aumentos.
— É muito difícil cravar quanto tempo isso leva até chegar no consumidor final, mas podemos falar em algo entre um e três meses. Vai depender dos estoques de cada uma das empresas e dos contratos de longo prazo — explica.
No curto prazo, existe uma perda de produtividade nas empresas que esperam retomar quando o conflito se acomodar.
— Tem uma cadeia grande até que chegue, de fato, o preço do choque do petróleo à matéria-prima final. Temos impacto inicialmente no preço da resina, depois isso vai para as embalagens, indústria de transformação, até chegar no consumidor. A expectativa é de que no segundo semestre a gente já tenha alguma acomodação. Se isso se confirmar, as mudanças estruturais não ficam tão proeminentes — completa.
“O risco passa a ser o abastecimento”
Na prática, esse movimento já começa a ser percebido pelas indústrias da Serra. O presidente do Sindicato das Indústrias de Material Plástico do Nordeste Gaúcho (Simplás), Cláudio Meneghel, afirma que o cenário deixou de ser uma questão de custos mais elevados e passou a envolver um fator mais crítico para o funcionamento das empresas.
— O ponto principal é que não se trata apenas de custo. O que começa a preocupar o setor é a disponibilidade. Quando a cadeia global entra em tensão, o risco deixa de ser só custo e passa a ser abastecimento — alerta.
Diante desse ambiente instável, a indústria também começa a rever sua forma de operar. Com oscilações frequentes e dificuldade de antecipar movimentos do mercado, decisões que antes seguiam uma lógica de planejamento passam a ser tomadas com maior cautela.
— Hoje, talvez o maior impacto seja justamente a perda de previsibilidade. A indústria sempre trabalhou com alguma lógica de planejamento, custos, prazos, contratos. Com a volatilidade que a guerra nos trouxe, isso ficou muito mais difícil. A formação de preço passou a ser praticamente diária — afirma o presidente do Simplás.
Escassez de material
Além do custo direto, há um componente adicional que agrava o cenário. Em momentos de instabilidade geopolítica, grandes players tendem a segurar estoques ou redirecionar mercados, reduzindo a oferta disponível para países como o Brasil. Isso intensifica a competição por insumos e amplia a volatilidade de preços.
— Os efeitos das guerras dependem de dois fatores importantes: intensidade e duração. Neste caso, ambos se mantêm elevados, o que sustenta a pressão sobre o Estreito de Ormuz — avalia Marcela Kawauti.
Além disso, gargalos estratégicos como o Canal de Suez preocupam especialistas diante de uma possível escalada do conflito. Responsável por cerca de 12% do comércio global e 10% do transporte de petróleo, o canal amplia riscos em cenários de instabilidade prolongada, com impactos indiretos sobre cadeias dependentes de insumos petroquímicos.
É nesse ambiente que a indústria precisa operar. E, embora ainda não haja uma retração consolidada, os sinais de cautela já são perceptíveis no comportamento das empresas. Sem um horizonte claro de estabilização, o setor passa a lidar com reajustes e dificuldade em consolidar números.
— Ainda não temos um levantamento consolidado fechado em um número único, até porque o cenário está mudando muito rápido. Mas a percepção clara entre as empresas é de pressão crescente e contínua nos custos. As resinas já vêm apresentando aumentos relevantes, sobretudo nas últimas semanas, com expectativa de novas altas no curto prazo. Em alguns casos, já se fala em reajustes na ordem de dois dígitos — aponta Meneghel.
Mesmo sem uma queda na produção, o comportamento das empresas já indica uma mudança de postura diante dos riscos.
— Ainda não temos um movimento generalizado de redução de produção, mas já começamos a perceber sinais de cautela no mercado. Algumas empresas estão segurando pedidos, outras estão revendo prazos e há casos pontuais de ajustes no ritmo de produção, principalmente em função da incerteza sobre reposição de matéria-prima — conclui.
“Alguns fornecedores seguraram as vendas”
O impacto da alta das resinas já é sentido pelo empresariado de Flores da Cunha. Na rotina das indústrias do plástico, esse efeito interfere em decisões de compra e reposição.
Na Daviplast, em São Gotardo, a variação de preços alterou o custo de aquisição da matéria-prima, com reajustes que ocorreram em um intervalo mais curto de tempo.
— O reajuste já passa de 100%. Em algumas fontes de oferta, chega até 160%. Muita matéria-prima que comprávamos, por exemplo, a R$ 14,50, hoje já está em R$ 35 — relata o diretor David Pistorello.
O abastecimento também exige mais atenção diante da escalada do conflito.
— Sentimos dificuldades com o fornecimento logo na segunda semana pós-guerra. Não necessariamente pela falta do material, mas porque alguns fornecedores seguraram as vendas para estipular valores, ver até onde iria a guerra — conta.
Parte das limitações também está ligada às características técnicas da produção e às exigências de determinados segmentos.
— Atendemos o setor alimentício e não conseguimos migrar para materiais reciclados, que poderiam ser uma alternativa mais barata, pois temos que respeitar as exigências sanitárias — observa o diretor.
Diante das restrições, o controle de estoque ganhou mais relevância dentro da operação da Daviplast.
— Hoje eu tento estar com no mínimo 30% de material na frente. Criamos uma planilha para saber exatamente o que está sendo baixado do estoque. Quero saber quanto ainda tenho de material para vender. Os pedidos que já entraram eu consigo atender com preço antigo, mas, se o estoque baixar, vou ter que refazer orçamento — projeta David Pistorello.

