Home Destaque Evasão escolar persiste há 30 anos como principal demanda do Conselho Tutelar de Flores da Cunha

Evasão escolar persiste há 30 anos como principal demanda do Conselho Tutelar de Flores da Cunha

Três décadas após o primeiro caso, Conselho Tutelar mantém foco na garantia de direitos de crianças e adolescentes

Mesmo com três décadas de atuação, o Conselho Tutelar de Flores da Cunha ainda não é plenamente compreendido na sociedade. Sua atuação não é punitiva, mas sim protetora, de mediação e orientação às famílias. No ano passado, foram 1.229 atendimentos realizados pelos seis conselheiros eleitos.

Pensando nesta marca de 30 anos, os conselheiros Antonio Colloda e Luciana do Nascimento Dias fizeram um levantamento histórico e chegaram a uma constatação simbólica: o primeiro caso registrado, em 2 de setembro de 1994, foi por infrequência escolar — o mesmo tema que, três décadas depois, segue entre as principais demandas do órgão.

Na ocasião, a orientação foi para um aluno de 5ª Série. Na sequência, os atendimentos iniciais envolveram adolescentes que permaneciam nas ruas até tarde, casos de maus-tratos, assédio cometido por familiar, furto praticado por adolescente e fuga de casa. Situações diferentes entre si, mas todas marcadas pela necessidade de intervenção do poder público.

— O Conselho Tutelar não é polícia e não é órgão de repressão. Ele é um órgão protetivo. Nosso trabalho é orientar, mediar conflitos e garantir direitos. O grande erro da sociedade é achar que o Conselho Tutelar é punitivo. A nossa função é proteger, não punir — reforça a conselheira Luciana, que atua como coordenadora nesta gestão.

Em 2025,o Conselho Tutelar realizou 1.229 atendimentos. Um crescimento de 21% em relação a 2024, quando foram 1.016 atendimentos — o que evidencia a demanda crescente.

Adolescentes preferem trabalhar

Desde sua instalação até novembro de 2024, o Conselho Tutelar atendeu aproximadamente 6 mil crianças e adolescentes. Chama atenção que o número de atendimentos já finalizados ao longo de 30 anos é praticamente o mesmo dos que seguem em acompanhamento.

Hoje, o órgão mantém 1.510 registros sem pasta (casos menos frequentes) e 770 registros com pasta, referentes a acompanhamentos contínuos, totalizando cerca de 2.950 crianças e adolescentes atendidos. A média é de 125 atendimentos mensais, ou cerca de seis por dia útil.

Entre os principais motivos, a matrícula e a frequência escolar obrigatória seguem no topo, representando 15,2% dos atendimentos, o mesmo percentual dos encaminhamentos ao Ministério Público por violações de direitos, como agressões físicas e verbais, maus-tratos, negligência, abandono e problemas de higiene e saúde.

Segundo a conselheira tutelar e atual coordenadora, Luciana do Nascimento Dias, a infrequência escolar é o maior desafio enfrentado pelo Conselho.

— Cinco dias consecutivos de faltas sem justificativa já geram uma comunicação automática da escola. Antes de chegar ao Conselho, esse caso passa por uma rede de apoio que tenta resolver a situação junto à família — explica.

A conselheira destaca que o trabalho do Conselho não é punitivo, mas sim uma orientação sobre deveres e direitos buscando que este aluno retorne.

— Quando a família vem até aqui, a gente sempre explica que isso não é punição. É proteção. A gente está garantindo um direito da criança e do adolescente — afirma.

Luciana diferencia os casos envolvendo crianças dos que envolvem adolescentes.

— Com crianças, geralmente é infrequência ligada à negligência dos pais, mas a gente consegue recuperar a frequência escolar. Já com adolescentes, muitas vezes é abandono mesmo — relata.

Grande parte desses adolescentes tem entre 15 e 16 anos e deixa a escola para trabalhar.

— Se a gente fosse colocar em dez casos, eu diria que cinco são adolescentes que abandonam a escola para trabalhar — diz.

Segundo ela, na maioria das vezes, não se trata de necessidade extrema.

— Eles querem independência, um celular melhor, um tênis melhor, e não veem o estudo como um caminho.

A outra metade da evasão escolar seriam casos mais graves, com envolvimento com drogas — uma nova realidade preocupante no município.

Apreensões com drogas

Outro dado que preocupa é o crescimento do envolvimento de adolescentes com atos infracionais e entorpecentes. Em 2024, foram 18 apreensões de menores que exigiram a intervenção do Conselho. Nos primeiros sete meses de 2025, esse número mais que dobrou, chegando a 40 adolescentes apreendidos, alguns reincidentes em curto espaço de tempo.

Diante desse cenário, o Conselho acionou o Judiciário e o Ministério Público, o que resultou na redução a zero dessas ocorrências nos cinco meses seguintes de 2025.

Ciclos difíceis de romper

Se antes a maior parte dos atendimentos estava relacionada à pobreza material — falta de alimento, uniforme ou condições básicas — hoje os casos que chegam ao Conselho são, em geral, mais graves. Violência familiar, negligência crônica e exposição constante a situações de risco passaram a predominar.
Segundo Luciana, muitos desses jovens envolvidos com drogas já haviam sido atendidos pelo Conselho no passado.

— A maioria desses adolescentes foi vítima de alguma violação quando criança. Eles estão repetindo um ciclo de violência que não foi interrompido — lamenta.

Internet, frustração e novos conflitos familiares

Além das violações tradicionais, novos fatores passaram a impactar o cotidiano do Conselho. O uso excessivo de internet, redes sociais e jogos eletrônicos aparece cada vez mais como gatilho para conflitos familiares, queda no rendimento escolar e dificuldades de convivência.

— As crianças e adolescentes têm acesso muito cedo às redes, ao consumo, aos jogos, e não sabem lidar com a frustração do “não”. Isso acaba refletindo em conflitos que chegam até o Conselho — avalia a conselheira tutelar Mari Siqueira.

Esta vontade de ter novos celulares e comprar jogos também aparece no intuito precoce dos adolescente em ganhar o próprio dinheiro — o que leva à evasão escolar.

Leia Mais

Compartilhe:

Mais Notícias

Outras notícias:

plugins premium WordPress
Tem certeza de que deseja desbloquear esta publicação?
Desbloquear esquerda : 0
Tem certeza de que deseja cancelar a assinatura?

Entrar na sua conta