O público viu acontecer. Caminhou entre os palcos montados no Parque da Vindima Eloy Kunz, experimentou a diversidade gastronômica, deixou-se conduzir pelos shows e permaneceu até o último acorde. A terceira edição do Flores Blues Jazz Festival reuniu 2,1 mil pessoas ao longo de três dias — 728 na sexta-feira (6), 850 no sábado (7) e 522 no domingo (8) — e encerrou reafirmando a ambição de consolidar-se como um movimento cultural permanente.
A estrutura com três palcos simultâneos ampliou a experiência e exigiu escolhas do público, que transitava entre estilos, sotaques e propostas. Artistas internacionais dividiram espaço com nomes regionais, enquanto muitos visitantes viveram ali o primeiro contato com blues e jazz ao vivo.
Orientados pelo tema Look At Her, o protagonismo feminino ficou no centro da programação e também nos bastidores, onde 80% da equipe foi formada por mulheres. A grandiosidade do festival reverberou na experiência do público, que percebeu no evento um posicionamento em favor da construção coletiva.
“Verdadeiro papel da formação de público”
Em cidades que não estão no eixo tradicional dos grandes circuitos culturais, a permanência de um festival depende menos do entusiasmo momentâneo e mais da capacidade de transformar interesse em hábito. Encerrada a terceira edição, a reflexão que se impõe é sobre a continuidade.
Para o produtor do evento e presidente da APAC, Felipe Corso, a resposta agora é ampliar a presença cultural ao longo do ano, fortalecendo ações permanentes que estimulem o pertencimento e consolidem a formação de plateia no município. Ele avalia que o festival já demonstra impacto na ampliação de repertórios e no despertar de novos interesses musicais entre o público local.
— Ainda precisamos investir mais na formação de plateia nos eventos da cidade, não apenas no nosso festival, mas de forma geral. Programações frequentes, mesmo que menores, fortalecem o sentimento de pertencimento e estimulam o interesse cultural. Muitas pessoas passaram a se interessar por blues e jazz depois do festival. Esse é o verdadeiro papel da formação de público — avalia.
Após três edições, a organização entende que o evento alcançou um novo patamar no cenário estadual, o que abre possibilidades de expansão e de fortalecimento.
— Neste ano, acredito que o festival se consolidou como um dos grandes eventos de blues e jazz do estado. Isso abriu portas para que possamos trazer artistas mais reconhecidos, mantendo também a valorização dos músicos locais e regionais. O festival acaba promovendo não apenas a música, mas tudo o que Flores da Cunha oferece — destaca Corso.
A experiência acumulada também traz aprendizados. A disposição dos palcos e a organização dos horários estão entre os pontos avaliados para aprimorar a qualidade sonora e reduzir interferências.
— Podemos melhorar a distribuição dos horários e a disposição dos palcos para evitar interferências sonoras. Ainda assim, a estrutura garantiu conforto ao público. Por exemplo, se chovesse, se estivesse frio eles ainda estariam cobertos — explica.
Entre os destaques desta edição estiveram as jam sessions, que ampliaram a interação entre artistas e plateia e criaram momentos espontâneos de improviso e troca no palco. A adesão superou as expectativas iniciais da organização.
— As jam sessions foram um dos ápices do evento. Tínhamos previsto duas jams e a gente acabou fazendo umas cinco, então ficou muito legal, ano que vem com certeza a gente vai ter mais disso — projeta.
Nos bastidores, o planejamento para a próxima edição já começou. Avaliações internas estão em andamento, assim como novas inscrições em leis de incentivo. A realização do festival depende do patrocínio público, da adesão de empresários e da compreensão de que o investimento cultural gera retorno econômico para o município. Neste ano, o festival contou com investimento cultural via LIC/RS, no valor de R$ 158.540,00, e apoio direto da Prefeitura de Flores da Cunha, com R$ 60 mil.
Mas, se há sede de arte, ela não se sacia em três dias. A próxima edição começa agora — na decisão de manter a cultura como um projeto permanente da Terra do Galo.

