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“Golpe do Falso Advogado” faz vítimas em Flores da Cunha

Criminosos entram em contato por aplicativos de mensagens e pedem dinheiro aos cidadãos para a liberação de valores de processos judiciais
Advogada Carla Brogliato viu sua imagem ser utilizada em golpes (Foto: Karine Bergozza)

O estelionato é o crime que mais faz vítimas em Flores da Cunha. De janeiro a dezembro de 2025, foram 300 florenses enganados por estes golpistas, conforme os dados da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul. Para comparação, o segundo indicador criminal mais alto é o de furtos, com 168 registros.

Os números do ano passado mostram uma tendência de crescimento. Em 2024, foram 255 estelionatos em Flores da Cunha. Em 2023, 284 casos.

Com o avanço da inteligência artificial e sua capacidade de criar vídeos e áudios com vozes e imagens de outras pessoas, os golpes por meio digital estão cada vez mais convincentes — o que preocupa as autoridades. A Delegacia de Polícia de Flores da Cunha informa que, em janeiro de 2026, foram registrados 21 estelionatos. Chama a atenção que um terço destas fraudes, sete denúncias, foram referentes ao chamado “Golpe do Falso Advogado”.

Este delito se caracteriza pela ação de estelionatários que usam dados de processos judiciais para procurar e ludibriar suas vítimas. Fingindo serem advogados conhecidos, os criminosos entram em contato por aplicativos de mensagens e pedem dinheiro aos cidadãos para a liberação de valores de processos judiciais.

A advogada Carla Brogliato, que atua no escritório Scortegagna Brogliato Advocacia, é uma advogada que já teve sua identidade indevidamente utilizada:

— Aqui no escritório, a primeira vez que ocorreu foi com a Araceli (Scortegagna), no dia 28 de outubro do ano passado. O que acontece é que alguém usa a nossa foto, eles (golpistas) pegam, não sei se do nosso WhatsApp ou da rede social, e entram em contato com nossos clientes.

Carla lembra que a sócia e ela enfrentaram essa situação com seus números particulares por, no mínimo, sete vezes desde outubro do ano passado.

— Não sabemos exatamente como eles conseguem ter acesso às informações, mas eles conseguem, muitas vezes, o nome das partes e número do processo. Depois entram em contato com o nosso cliente afirmando que ele ganhou a ação — relata.

A advogada explica que soube que sua identidade estava sendo forjada por meio de seus clientes, que entraram em contato pelo número de WhatsApp ou telefonaram questionando se realmente o escritório estava solicitando valores e se o telefone para contato havia mudado. Depois disso, o escritório disparou mensagens de alerta para todos os clientes.

— Teve uma cliente nossa, que é uma senhora de idade e deve ter entre 60 e 70 anos, que fez um PIX, só que o banco dela identificou que a conta de destino era uma conta estranha, suspeita ou recém-criada, então barrou o PIX e ligou para ela. Quando o banco ligou, ela começou a pensar que poderia ser um golpe e aí ela nos ligou para perguntar se tínhamos sido nós que pedimos esse dinheiro — exemplifica Carla Brogliato, ao comprovar que o público-alvo dos criminosos costuma ser a população mais vulnerável, especialmente idosos.

Para tornar o golpe mais convincente, Carla explica que os estelionatários criam e enviam aos clientes documentos falsos com assinatura eletrônica do advogado, logomarcas do escritório, selos da OAB e brasões do país, além de utilizarem expressões jurídicas, fazendo parecer que o falso advogado teve acesso ao processo. Nesse momento, os golpistas aproveitam-se da empolgação dos clientes em saber que o processo está ganho, por exemplo, e solicitam o envio do PIX para as próximas etapas.

— O simples fato de estarem sendo cobrados valores antes de receber já é uma coisa que a pessoa tem que atentar, porque o advogado vai cobrar o trabalho dele quando ele recebe, não irá te pedir antecipado. Não existe isso de ter que pagar antes para depois receber.

Acesso aos dados

A advogada Carla Brogliato ressalta que é preocupante a forma como os criminosos conseguem ter acesso aos dados pessoais e aos processos.

— Para acessar os Tribunais, a gente tem que entrar ou com o certificado digital ou tem que fazer autenticação mediante usuário e senha. E, ainda tem o Google Authenticator, que gera um código e tu tens que digitar para entrar. O nosso acesso é “dificultado”, temos que fazer três etapas de segurança. Como esses dados vazam? A gente não faz a menor ideia — lamenta.

Para que esse tipo de crime receba a devida atenção, a advogada frisa que é importante registrar Boletim de Ocorrência, online ou presencialmente, e também destaca a necessidade de medidas mais incisivas:

– A gente está pedindo providências para a Ordem (OAB), para que a Ordem e o Tribunal (de Justiça) façam alguma coisa nesse ponto de (descobrir) como esses golpistas estão chegando na informação.

Não caia no Golpe

(Foto: OAB, Divulgação)

O presidente da OAB Subseção Caxias do Sul — que abrange também os municípios de Antônio Prado, São Marcos e Flores da Cunha —, Maurício Rugeri Grazziotin, menciona que o “Golpe do Falso Advogado” ocorre em todo o país e é difícil precisar uma data do início desta fraude.

— Desde os primeiros relatos de ocorrência de golpes utilizando os nomes de advogados, a OAB tem mantido contato com as autoridades, seja em nível local ou estadual, buscando a solução da situação. Além disso, foram realizados eventos em parceria com órgãos de segurança, campanhas publicitárias ao público em geral que, somente nas redes sociais, atingiram mais de 100 mil visualizações entre dezembro e janeiro, para alertar a sociedade sobre como proceder no caso de contato dos golpistas.

Grazziotin orienta os advogados a alertarem seus clientes sobre a possibilidade de golpe, bem como reforçarem quais são seus canais oficiais de comunicação.

O presidente também destaca que, em caso de golpe ou tentativa de golpe, a orientação é procurar o advogado contratado para que sejam tomadas as medidas que o profissional entender como adequadas e efetuar o devido registro policial. Além disso, é aconselhável guardar os prints das conversas, números de telefone, e-mails, links, comprovantes de PIX/transferência, nomes usados e fotos de perfil do criminoso.

— A população tem que ter em mente que não há a possibilidade de pagar (antecipar valores), para receber eventual crédito. Em qualquer situação, sempre confirme com seu advogado, pessoalmente, vá ao escritório, ligue no telefone que tem salvo como seu contato, sempre confirme qualquer pedido de valores, assim poderá evitar um grande dissabor — orienta Grazziotin.

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