Entre obras que ainda não avançaram, problemas recorrentes no tratamento de esgoto e a necessidade de transparência sobre investimentos e cronogramas, a população segue lidando com situações que evidenciam a distância entre as metas do Novo Marco Legal do Saneamento e a realidade do dia a dia florense. Esse descompasso se reflete, principalmente, no tratamento de esgoto, onde grande parte das intervenções previstas ainda não saiu do papel, é o que aponta o presidente da Comissão de Saneamento de Flores da Cunha, vereador Diego Tonet.
— Na questão do esgoto, a gente não percebe avanço. Já se passaram alguns anos desde que a Corsan assumiu e, a meu ver, para conseguirmos chegar em 2033 atingindo as metas, já deveríamos ter visto pelo menos algumas obras iniciadas — afirma.
Planejamento
Em vários trechos mais críticos, o esgoto corre diretamente para córregos, sem qualquer estrutura de canalização ou tratamento.
— Uma dessas obras seria entre Lagoa Bela e a Vinícola Luiz Argenta, onde temos um córrego que leva boa parte do esgoto da cidade, e a gente não vê um investimento ali. É preciso que seja canalizado, construídas galerias e, posteriormente, feita a estação de tratamento de esgoto — complementa.
Nas áreas em que há obras de canalização em andamento, Tonet observa que a iniciativa tem sido da Prefeitura, e não da concessionária.
— Até o momento, em relação ao esgoto, as poucas obras de canalização que tenho visto; obras estruturais tanto na parte central quanto na região do São Cristóvão, onde estão sendo feitas as galerias, são da Prefeitura e não da Corsan.
O avanço do saneamento enfrenta obstáculos que vão além das obras. A falta de investimentos estratégicos, a ausência de planejamento claro e a dificuldade de acesso a informações sobre prazos e custos dificultam acompanhar se as metas de universalização serão cumpridas até 2033.
— A gente nota que temos três gargalos: a falta de investimentos estruturantes, o planejamento e a transparência. O marco legal exige uma lógica de metas e de acompanhamento, e o que a população precisa enxergar é um cronograma mostrando onde essas obras serão feitas, quando e qual será o valor do investimento — aponta o vereador.
Para Tonet, aumentar a equipe e executar obras de maior porte é essencial.
“O cheiro é insuportável”
No bairro Pérola, os efeitos da falta de saneamento básico ficam visíveis no dia a dia dos moradores. O arroio Curuzu, que corta a região, recebe parte do esgoto sem tratamento, gerando desconforto para quem vive nas proximidades.
Solange Cardoso Noronha, de 55 anos, mora na Rua das Palmeiras há três décadas e conhece bem a rotina do bairro. Ela relata que a convivência com o esgoto a céu aberto é difícil de suportar.
— Faz muito tempo que a gente convive com esse esgoto a céu aberto. O cheiro às vezes é insuportável porque fica bem próximo das casas. A Corsan nunca fez nenhum tipo de tratamento no córrego. Quando ficam alguns dias sem chover, a água fica parada e o cheiro fica muito forte. Dentro de casa, muitas vezes, a gente tem que fechar a janela — conta.
O problema é agravado pela presença de famílias com crianças pequenas e gestantes, que ficam mais vulneráveis a doenças transmitidas pela água contaminada ou por mosquitos que se proliferam.
— Minha filha está grávida, vão nascer mais dois bebês, então é uma preocupação ainda maior, por conta de doenças e contaminação. Ontem mesmo fui à Prefeitura reclamar sobre a sujeira no entorno do arroio. Tem muito mato! Isso piora a situação porque o pessoal joga lixo, que acaba indo parar na água — acrescenta.
A ausência de obras para canalização e tratamento do esgoto aumenta a sensação de insegurança, especialmente em períodos de chuva
— O certo seria termos tubulação para organizar tudo. Antigamente, quando o arroio era limpo, o nível da água baixava; agora, quando chove bastante, ficamos até com medo de alagar — finaliza a moradora.
O que diz a Corsan/Aegea
Em nota, a Corsan informou que os projetos de implantação das redes estão em desenvolvimento, dentro do planejamento previsto pelo Marco Legal do Saneamento. Confira a nota na íntegra:
“O percentual de esgoto tratado em Flores da Cunha é de 2%. Os projetos e etapas da implantação das redes de esgotamento sanitário em Flores da Cunha estão em fase de desenvolvimento pelas equipes do setor de engenharia. Vale ressaltar que todos os projetos da Companhia, tanto para abastecimento de água como para coleta e tratamento de esgoto, estão direcionados à universalização do saneamento básico previsto pelo Marco Legal do Saneamento, estabelecido por lei federal. Até 2033, 99% da população deverá ter acesso à água potável e 90%, à coleta e ao tratamento de esgoto. Para alcançar esta meta nos 317 municípios que atende no Rio Grande do Sul, a Corsan planeja investir R$ 1,5 bilhão por ano até lá”.

