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O que a chuva histórica de segunda-feira revelou sobre a drenagem de Flores da Cunha

Volume concentrado em cinco horas superou em 3,2 vezes a intensidade da enchente de 2024 e voltou a atingir áreas críticas
(Foto: Andrelise Cavagnoli/Prefeitura de Flores da Cunha/ Divulgação)

Passado cinco dias da chuvarada histórica de segunda-feira (21), é preciso aprender com o ocorrido. A quantidade de precipitação em tão pouco tempo, 160 milímetros de chuva em apenas cinco horas, colocou à prova as obras de drenagem realizadas nos últimos anos em Flores da Cunha. O balanço apresentado pela Prefeitura é de que as intervenções já ampliaram a capacidade de escoamento e ajudaram a reduzir os impactos em áreas historicamente atingidas, mas o volume excepcionalmente concentrado superou as estruturas em alguns pontos. Para o município, o episódio reforça a necessidade de avançar nas próximas etapas do projeto.

Os números evidenciam a dimensão do episódio. Segundo dados da Estação Climatológica da Prefeitura, considerando as cinco horas mais críticas, a intensidade média foi 3,2 vezes superior à registrada durante a enchente de maio de 2024. O temporal provocou ocorrências em cerca de 30 pontos do município, entre alagamentos, deslizamentos e quedas de árvores.

Os bairros São Cristóvão e  Videiras e a Linha 80, no interior, estiveram entre as áreas mais atingidas. Todas as ocorrências próximas à rota do Arroio Curuzu.

Se em outros momentos foi o acúmulo de vários dias de chuva que causou a enchente, desta vez o sistema de drenagem pluvial foi sobrecarregado pela intensidade instantânea, mesmo em estruturas que passaram por melhorias.

O episódio, pela conclusão municipal, deixa um balanço que não é de resolução do problema, mas também não representaria a repetição das mesmas condições de anos anteriores. Para a Administração Municipal, As obras alteraram a capacidade de resposta do sistema, mas a intensidade da chuva mostrou que ainda existem limites e etapas a serem enfrentadas.

São Cristóvão: proporção diferente

No bairro São Cristóvão, residências e empresas voltaram a ser atingidas pela água. O problema é histórico, contudo, após as enchentes de 2024, foi iniciado um investimento que já ultrapassa os R$ 9,1 milhões em busca de resolver os alagamentos. Estas obras, iniciadas em outubro daquele ano com o objetivo de ampliar a capacidade de drenagem, ainda não foram concluídas.

— Sabemos que é muito difícil para parte da comunidade passar novamente por uma situação como essa e entendemos a preocupação dos moradores. Para nós, da mesma forma, é muito difícil ver uma situação como essa se repetir, mesmo que em uma proporção diferente de outros eventos climáticos. Mas é importante lembrar que iniciamos uma intervenção de grande porte para enfrentar um problema histórico do bairro. Algumas etapas já foram concluídas e outras ainda precisam avançar. Vamos continuar trabalhando para dar sequência a esse planejamento e fazer o que ainda precisa ser feito — declarou o prefeito César Ulian.

(Foto: Tatiele Salvador/ Divulgação)

Segundo a Prefeitura, já foram implantadas 640 galerias pluviais na Rua Luiz Zanandrea e no entorno. Também foi substituída a estrutura localizada na região da Rua Francisco Ascari, com a retirada de uma antiga curva e a implantação de uma nova galeria em linha reta.

Com as intervenções já executadas, a capacidade de vazão do sistema mais que triplicou em relação à estrutura anterior, conforme os dados apresentados pelo município.

A comparação com outros episódios recentes é usada pela Prefeitura para dimensionar esse avanço. Em junho de 2025, por exemplo, foram registrados 108,5 milímetros em 24 horas e, segundo a administração municipal, os impactos no bairro foram menores. Nesta segunda-feira (21), porém, a intensidade da chuva foi muito superior. Em determinado momento, o volume de água ultrapassou a capacidade das galerias, que permaneceram submersas por cerca de 20 minutos.

— O sistema de drenagem precisa ser analisado como um conjunto. As intervenções realizadas já aumentaram significativamente a capacidade de escoamento, mas o projeto foi concebido para avançar por etapas. O volume de chuva registrado na segunda-feira foi concentrado em poucas horas e a intensidade média nesse período foi mais de três vezes superior à registrada na enchente de maio de 2024. Esse cenário reforça a importância de dar continuidade às próximas etapas — afirma o secretário de Obras e Serviços Públicos, Valdir Machado da Silveira.

O secretário, portanto, coloca o episódio dentro de uma obra que ainda não chegou ao fim. A avaliação da Prefeitura é que as estruturas existentes responderam até determinado limite, mas precisam ser ampliadas para enfrentar volumes ainda maiores.

O que ainda precisa ser feito

Entre as próximas etapas previstas para o São Cristóvão está a substituição da estrutura conhecida como Ponte do Grisa, medida que já havia sido apresentada aos moradores e citada na Câmara de Vereadores. O planejamento também prevê estudos para identificar áreas que possam receber estruturas de retenção e captação de água.

A proposta é reter temporariamente parte do volume durante períodos de chuva intensa e liberar a água de forma gradual, reduzindo a concentração que chega ao sistema de drenagem. A definição dos locais e das soluções, no entanto, depende de estudos técnicos, mapeamento e licenciamento ambiental.

É nesse ponto que a chuva de segunda-feira ganha outro significado para o planejamento municipal: além de provocar novos danos, ela mostrou onde as estruturas existentes conseguiram responder e onde o volume acabou superando a capacidade instalada.

Linha 80 também teve intervenção superada

Na Linha 80, a resposta ao episódio desta semana também passa, na avaliação municipal, por uma obra realizada depois da enchente de 2024. Na sequência daquela catástrofe climática, o Arroio Curuzu recebeu serviços de desassoreamento e um muro de gabião, construído cerca de 1,5 metro acima do nível da rua para conter a elevação da água.

A estrutura segurou a água durante determinado período, mas foi ultrapassada com a continuidade da chuva. A água avançou sobre a área e atingiu novamente moradores da localidade.

Segundo a Prefeitura, o muro contribuiu para retardar a chegada da água às áreas próximas e reduzir a velocidade com que o volume avançou. Portanto, o episódio mostraria, ao mesmo tempo, o efeito e o limite da intervenção: a estrutura conseguiu conter a elevação por determinado período, mas não foi suficiente diante do volume concentrado registrado na segunda-feira.

Cerca de 30 pontos atingidos

Além das áreas próximas ao Arroio Curuzu, o levantamento municipal aponta ocorrências em cerca de 30 pontos de Flores da Cunha. Foram registrados alagamentos, deslizamentos de terra, quedas de árvores e interrupções de estradas. A chuva também provocou transtornos no transporte e deixou moradores isolados em alguns pontos do município.

Nesta sexta-feira (25), permanecem os bloqueios totais na Estrada do SER Flamengo, no Travessão Rondelli, e na Estrada Velha, no lado de Caxias do Sul.

Também há bloqueios parciais na Estrada das Oliveiras, entre Linha 80 e Capoeirão; na estrada de acesso a Otávio Rocha, com desvio por São Gotardo; e na Estrada Velha, no lado de Flores da Cunha.

Município prepara levantamento dos danos

O trabalho prossegue no levantamento dos prejuízos provocados pela chuva em todo o município. A Prefeitura prepara a documentação necessária para a decretação de situação de emergência, que permitirá reunir os danos provocados pelo temporal e buscar recursos para a recuperação das áreas atingidas.

Para o município, o episódio reforça a necessidade de continuidade das obras de drenagem. A chuva mostrou que as intervenções realizadas já mudaram a capacidade de resposta de pontos historicamente problemáticos, mas também que um volume excepcionalmente concentrado ainda pode superar o sistema.

É esse equilíbrio entre o que já foi feito e o que ainda falta fazer que passa a orientar a próxima etapa da discussão da Administração Municipal sobre a drenagem de Flores da Cunha.

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