A definição do nome do primeiro teatro municipal de Flores da Cunha ganhou um novo capítulo. A possibilidade de homenagear a atriz e empreendedora cultural Maria Della Costa, nascida no município e falecida em 2015, mobilizou familiares e pessoas ligadas à cultura. Na segunda-feira (14), a sobrinha da artista, Débora Marchioro, esteve na sessão da Câmara de Vereadores para conversar com o autor do projeto que prevê a denominação do espaço.
A proposta em tramitação no Legislativo é de autoria do vereador Deivid Schenato (PP) e prevê o nome Teatro da Terra do Sol, em referência à obra do escritor Flávio Luis Ferrarini. O projeto foi divulgado por O Florense na sexta-feira (11), quando o nome apareceu no texto protocolado para denominar o teatro da Casa da Cultura Flávio Luis Ferrarini. A informação repercutiu entre produtores culturais e chegou até Débora, que mora em Caxias do Sul.
A sobrinha lembra que, desde 2021, já existiam conversas para que o futuro espaço recebesse o nome de Maria Della Costa, com participação de diversas pessoas ligadas à cultura, inclusive de Natalina Flavia Francisconi, que era subsecretária de Cultura no início da gestão do prefeito César Ulian.
— A minha tia amava muito Flores da Cunha. Tinha um carinho imenso pela terra dela. Sempre que dava entrevistas, deixava muito claro que era gaúcha de Flores da Cunha — lembra Débora sobre Maria Della Costa.
Para ela, a homenagem representaria o reconhecimento de uma trajetória que ultrapassou a atuação nos palcos. Maria Della Costa foi uma das principais atrizes e empreendedoras do teatro brasileiro. Ao lado do produtor, Sandro Polloni, fundou o Teatro Popular de Arte, embrião da companhia que levaria seu nome, e participou da modernização das artes cênicas no país.
Débora ressalta que não vê a escolha como uma disputa ou causase opõe à homenagem a Flávio Luis Ferrarini, cujo nome já identifica a Casa da Cultura. O argumento da família é que o teatro, por sua natureza, poderia receber uma denominação diretamente ligada às artes cênicas. A sobrinha considera que a homenagem não se restringe ao nome da artista, mas ao significado e lembrança de sua trajetória.
— Nós não estamos falando de um sobrenome. Estamos falando de uma mulher que, em 1954, abriu uma companhia de teatro. Ela foi empreendedora, abriu portas para atores, atrizes, diretores, cenógrafos e muitos outros profissionais — destaca.
Na visita à Câmara, Débora conversou com Schenato, autor da proposta, e com outros vereadores. Segundo ela, a conversa foi cordial, e os familiares foram convidados a acompanhar a sessão quando o projeto deverá ser apreciado — que ainda não tem data definida.
Instituto defende Terra do Sol
A discussão também ganhou repercussão nas redes sociais. Na terça-feira (15), o Instituto Flávio Luis Ferrarini publicou uma arte defendendo que “Teatro Terra do Sol é melhor que o nome de uma pessoa”. A publicação foi compartilhada pelo prefeito César Ulian e pelo vereador Deivid Schenato, além de outros políticos. Não há confirmação pública de que a postagem tenha sido feita como resposta à visita da familiar à Câmara.
Débora revela que um dos argumentos contrários que ouviu é que já existe, em São Paulo, o Teatro Maria Della Costa, que foi fundado pela atriz e Polloni em 1954. Em sua visão, no entanto, seria importante aproximar o legado de sua tia das novas gerações de sua terra natal, para que também reconheçam seu legado.
— Eu acho que a terra dela tem que lembrar dela, tem que homenageá-la. Não é só nos grandes polos, como Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Porto Alegre, que o nome dela precisa ser lembrado — afirmou Débora, que pretende retornar à Câmara para acompanhar a votação.
Quem foi Maria Della Costa
Nascida em Flores da Cunha em 1º de janeiro de 1926, Gentile Maria Marchioro Della Costa tornou-se uma das principais atrizes e empreendedoras do teatro brasileiro. Iniciou a carreira artística em 1944 e, ao lado do produtor Sandro Polloni, fundou o Teatro Popular de Arte, em 1948, grupo que deu origem à Companhia Maria Della Costa.
Em 1954, o casal inaugurou um teatro próprio em São Paulo, projetado por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. A companhia teve papel importante na modernização das artes cênicas brasileiras, levando aos palcos obras de autores como Nelson Rodrigues, Arthur Miller e Plínio Marcos, além de abrir espaço para novos talentos, entre eles Fernanda Montenegro.
Maria também atuou no cinema e na televisão, com participações em produções como “Beto Rockfeller”, “Estúpido Cupido” e “Te Contei?”. Nos últimos anos de vida, manteve uma pousada em Paraty, no Rio de Janeiro. Morreu em 24 de janeiro de 2015, aos 89 anos.

