O sol ainda nem venceu completamente a neblina quando o movimento já toma conta das propriedades rurais de Flores da Cunha e Nova Pádua. Enquanto boa parte da cidade ainda desperta, agricultores já estão entre parreirais, estufas de morango, vacas e galpões.
É ali que Plínio Scortegagna, 79 anos, e Roque Trentin, 75, encontram, há décadas, muito mais do que um trabalho. E foi para a colônia que Juliete Stuani Piccoli, 37, retornou. Histórias diferentes, mas que são unidas por um mesmo sentimento que se repete pelo nosso interior.
Neste Dia do Colono, celebrado em 25 de julho, eles representam três gerações da nossa agricultura. Dois veteranos que nunca imaginaram viver longe da terra. A terceira sonhou em seguir outro caminho, mas acabou descobrindo justamente na agricultura o propósito da própria vida.
— Eu nunca sairia da colônia para morar na cidade. Tenho prazer de trabalhar na colônia, porque, aqui, trabalhamos e vemos o resultado — revela Trentin.

Plínio resume em poucas palavras o significado de sua trajetória:
— Ser colono é produzir, colocar o pão de cada dia na mesa e sobreviver da agricultura. Sempre ter fé e esperança de dias melhores.
Juliete também carrega a agricultura na história da família, mas sua relação com a colônia foi construída de forma diferente. Filha e neta de agricultores, ela passou a infância ajudando os pais na lavoura, porém não escondia que sonhava com outro caminho.
— Eu odiava. Não gostava de ir junto na colônia, pois era sofrido ir no sol e chuva. Comecei a trabalhar com oito anos. Nunca imaginei que ia estar de volta com tanto orgulho e com tanto amor — conta.

Plínio Scortegagna se dedica a uva e suco integral (Foto: Nadine Dilkin)
Das primeiras enxadas às novas escolhas
A infância dos três foi marcada pela agricultura, embora de maneiras diferentes. Trentin lembra que começou a ajudar o pai e os avós ainda aos oito anos, no Travessão Pinhal, distrito de Otávio Rocha.
Antes de ir para a escola, já capinava ao lado dos avós e aprendia que a terra recompensava quem cuidava dela.
Scortegagna também cresceu na lavoura, no Travessão Alfredo Chaves. Caminhava cerca de três quilômetros até a escola, enfrentando frio e chuva, em uma época sem energia elétrica, ônibus ou tratores.
— Era tudo braçal — recorda sobre a colheita da uva e do milho que garantiam o sustento da família.
Apesar das dificuldades, nenhum dos dois demonstra arrependimento. Pelo contrário, contam orgulhosamente que foi essa vivência que moldou seus valores.
Para Juliete, porém, a infância deixou outra lembrança. Filha e neta de agricultores, ela também começou cedo a ajudar os pais, mas sonhava em seguir uma profissão distante da lavoura. Formou-se em Psicologia e imaginava construir carreira na área.
A mudança começou depois de conhecer o marido, Leonardo Piccoli. Os dois decidiram investir na produção de morangos, iniciando o cultivo com cerca de 25 mil pés.
— Eu tive um parceiro que caminhou comigo. Acho que, se tivesse sido outra pessoa, eu não estaria aqui hoje. A gente viu que não era só parceiro no amor, mas também nos negócios.
Hoje, além da propriedade, Juliete cursa Agronomia.

Juliete Stuani Piccoli que, quando criança, só queria sair da
colônia, hoje exerce o trabalho diário com amor e orgulho (Foto: Nadine Dilkin)
O campo ensina, mas também desafia
Quem vive da agricultura aprende cedo que nenhuma safra é igual à outra. Trentin guarda até hoje a lembrança da forte chuva de granizo de 2010, que destruiu praticamente toda a produção de uvas.
Mesmo tendo seguro agrícola, considera aquele o momento mais difícil da vida no campo.
— O pior desafio é produzir e não conseguir vender.
Scortegagna também viu a agricultura mudar diversas vezes. Antes de a família iniciar a produção de suco de uva, em 2018, passou por atividades como criação de frangos de corte, suínos, gado e cultivo de framboesas.
Juliete também conhece os desafios da atividade. Mas prefere destacar aquilo que a agricultura lhe devolveu.
— Hoje eu gosto de levantar sabendo o que vou fazer.
O sentimento é o mesmo
Se existe algo que une os três agricultores é a certeza de que a maior colheita nunca foi apenas a produção. É a família.
Trentin fala da esposa Julieta, companheira há décadas, e dos três filhos. Orgulha-se especialmente da educação que conseguiu proporcionar aos filhos.
— É um mais inteligente que o outro — exalta.
Um deles, Sidi, permaneceu na propriedade e dá continuidade ao trabalho em família.
Casado há 56 anos com Lídia, Scortegagna lembra que levava os filhos pequenos para a lavoura, acomodados em cestos, enquanto trabalhava. Hoje, o filho Alexandre conduz a agroindústria da família e o neto Bernardo já participa da rotina da propriedade.
Na família de Juliete, a história começou com os avós Orlando e Zaira Stuani, em Travessão Jacinta, distrito de Otávio Rocha. Hoje ela divide os negócios com o irmão, Fábio.
Enquanto ele assumiu os vinhedos, Juliete assumiu a produção de morangos, que já ocupa 115 estufas.
As histórias são diferentes. O sentimento é o mesmo.

(Foto: Nadine Dilkin)
O orgulho de pertencer
As propriedades também contam essa história.
Na família Trentin, nove hectares produzem cerca de 100 mil quilos de uva e outros 100 mil quilos de morango por ano.
Na família Scortegagna, oito hectares rendem entre 100 e 170 toneladas de uva por safra, parte transformada em suco pela própria agroindústria.
Já na propriedade das famílias Piccoli e Stuani, cerca de 300 mil pés de morango produzem mais de 300 mil caixas por ano, além dos sete hectares de videiras que completam a diversificação da propriedade.
Apesar das diferenças, todos chegam à mesma conclusão. Trentin afirma que seu maior prazer continua sendo acordar cedo sabendo que existe trabalho esperando.
Scortegagna resume a paixão sempre que entra no parreiral.
— Eu gosto de trabalhar nas parreiras. A uva é tão bonita.
Juliete acredita que a maior riqueza da agricultura está justamente em nunca existir uma rotina igual à outra.
— Hoje eu limpo o morango. Amanhã vou colher. Depois preciso ir para a cidade. É isso que me encanta.
Ela ri ao admitir que o marido costuma reclamar da intensidade do trabalho.
— Se deixar, eu trabalho 20 horas por dia.
Quem um dia sonhou deixar a agricultura hoje não consegue imaginar outro lugar para viver.
— Nunca imaginei que faria isso com tanto orgulho e tanto amor.
Entre quem jamais pensou em sair da colônia e quem precisou descobrir nela seu lugar, existe um sentimento comum. Em Flores da Cunha, ser colono continua sendo muito mais do que uma profissão. É uma forma de viver.






