A criatividade nunca foi, para Hique Gomez, apenas uma ferramenta de trabalho. É uma forma de olhar para o mundo. É a partir dessa perspectiva que o artista, músico, ator e diretor construiu uma trajetória marcada pela originalidade, pelo humor e pela capacidade de transformar ideias em projetos que atravessam gerações.
Hique estará em Flores da Cunha no dia 16 de setembro, às 19h, no Clube Independente, para participar do Ciclo de Palestras O Florense 40 Anos. Com o tema “Trajetória Criativa”, o encontro será gratuito, com contribuição espontânea destinada à APAE.
Em entrevista ao O Florense, o artista revisita diferentes momentos da carreira e fala sobre aquilo que considera essencial para continuar criando. Para Hique, a originalidade está ligada à capacidade de um artista permanecer conectado com aquilo que considera essencial.
— Sempre fui ligado a projetos que primam pela originalidade e pelo valor artístico. A espontaneidade dos artistas é um fator que me mobiliza. Tenho a impressão de que, se um artista consegue estar ligado à sua essência, ele consegue colocar cada pessoa de seu público em contato com suas respectivas essências. É disso que se trata a arte — observa.
A transformação das redes sociais mudou a relação entre artistas e público.
— Construir identidade própria é a chave, dentro ou fora das redes. Sempre foi assim. As redes ampliaram a possibilidade de construir o seu próprio espaço. A luta é conquistar a atenção do público.
No dia 16, Hique pretende trazer um pouco da sua arte ao público florense.
— Gostaria que levassem para casa, que a cultura é um aspecto da natureza humana. Médicos criativos, engenheiros criativos, pedreiros, mecânicos e, especialmente, artistas criativos. É nos artistas que vemos os padrões de criatividade aos quais podemos nos ligar e processar da nossa maneira para vivermos uma vida mais criativa — destaca.
“Sempre há uma nova descoberta a ser feita”
Uma das experiências que melhor traduz essa relação com a criação é Tangos & Tragédias, projeto iniciado em 1984 ao lado de Nico Nicolaiewsky. O espetáculo atravessou décadas e alcançou diferentes públicos, mas a morte do parceiro, em 2014, colocou Hique diante de um novo desafio.
— Tangos & Tragédias me ensinou que sempre há uma nova descoberta a ser feita. Conquistar o público é uma tarefa constante. Manter o público é ser coerente com aquilo que te levou à conquista.
O artista lembra que nem mesmo o caminho até o humor estava definido no começo de sua carreira.
— Não pensava em ser humorista, mas o contato com o Nico me levou para este campo. Muitas vezes, o contato com o público te mostra aspectos de si mesmo que você não esperava. Às vezes, a gente se surpreende com nossas capacidades, se nos entregamos ao exercício de estar a serviço de algo maior do que nossas expectativas — conta.
Após a morte de Nicolaiewsky, Tangos & Tragédias chegou ao fim, mas Hique decidiu continuar a história. Em 2016, surgiu A Sbørnia Kontr’Atracka, espetáculo que mantém personagens e elementos da criação original, ao lado de outros artistas.
— A perda do Nico poderia ter colocado tudo no ponto zero. Mas procurei ser fiel ao conteúdo que havíamos criado e partimos para o aprofundamento deste conteúdo, contando com artistas de grande capacidade criativa que se engajaram de corpo e alma. O público percebe que estamos dando continuidade.
Arte também é negócio
Por trás da criação artística existe uma dimensão menos romântica, mas indispensável para quem transforma cultura em profissão: a administração.
— Isso acontece quando você tem que fazer as contas entre quanto entrou na bilheteria e o quanto foi contratado para o exercício do trabalho. Aí é simples: os relatórios de contabilidade e o livro-caixa te levam obrigatoriamente para a administração do trabalho — explica.
A partir daí, entram em cena estratégias de divulgação, promoção e comunicação. A diferença, para ele, está no produto oferecido.
Essa visão também se estende à economia. Hique defende que a cultura já movimenta uma cadeia ampla de profissionais, empresas e serviços.
— Na prática, ela já é um setor da economia. As leis de incentivo à cultura movimentam bilhões de reais, dão lucro aos cofres públicos, geram impostos e renda a muitas atividades. São milhares de famílias neste país enorme — conclui Hique.

