Flores da Cunha viveu nesta segunda-feira (21) uma das chuvas mais intensas de sua história recente. Em apenas oito horas, a Estação Climatológica da Prefeitura registrou 157,7 mm de chuva — volume muito acima de qualquer episódio recente no município. O rápido acúmulo sobrecarregou os sistemas de escoamento pluvial e causou alagamentos em pelo menos 20 pontos do município. Na Linha 80, uma caminhonete foi levada pela força das águas que transbordaram do Arroio Curuzu.
— A chuva foi mais concentrada que na própria enchente de 2024. Temos mais de 20 pontos de inundação mapeados. Pedimos muita atenção a nossa comunidade. Orientação é não atravessarem pontes ou locais em que a água cobre a pista — declarou o prefeito César Ulian, em vídeo compartilhado nas redes sociais.
Os números da estação municipal mostram que a chuva desta segunda-feira destoa amplamente de qualquer outro episódio recente:
- Setembro: até então, a maior chuva do mês havia sido de 47,5mm, no último sábado (19). Antes disso, no dia 11, choveram 41,9 mm em 24 horas.
- Agosto: o dia mais chuvoso foi 29 de agosto, com 76,7mm. Também houve 56,1 mm no dia 12.
- Julho: o mês foi marcado pelo temporal que derrubou a parede da capela e destruiu o telhado da escola de Mato Perso, precedido por 41,9 mm registrados nas primeiras horas do dia 28. O maior volume do mês, no entanto, ocorreu no dia 21, com 95,3mm.
- Março: no dia 5, um temporal causou diversos destelhamentos no município, com 68,3mm de precipitação.
- Maio de 2024: na catástrofe climática, a Estação Climatológica registou cerca de 825mm de chuva em 13 dias, de 29 de abril e 13 de maio. Um volume recorde, mas espalhado por mais dias de chuvas.
- Novembro de 2023: em outro evento climático que causou prejuízos, principalmente pelo granizo, a Prefeitura informou 350 mm entre os dias 13 e 19.
Ou seja: mesmo diante dos episódios de chuva forte e temporal que já haviam causado danos ao longo do ano, nenhum se aproximou do volume de água em tão pouco tempo como desta segunda-feira (21).
O que diz a série histórica de 86 anos
Para colocar o episódio em perspectiva de longo prazo, a reportagem consultou o Climate Memory, site que reúne dados de reanálise climática global desde 1940. Segundo a plataforma, Flores da Cunha tem precipitação média de 1.769mm por ano, com outubro sendo historicamente o mês mais chuvoso (183 mm em média), seguido de setembro (em torno de 170 mm).
O dado mais relevante para comparação: o maior volume de chuva em um único dia já registrado na cidade, em 86 anos de série histórica, foi de 208 mm, em 24 de janeiro de 1980. Os 157,7 mm de hoje — medidos em uma janela de apenas 8 horas, não 24 — ainda não superam esse recorde, mas a intensidade chama atenção: caso a chuva continuasse em ritmo semelhante, o total acumulado nas próximas 24 horas poderia empatar ou até ultrapassar essa marca de 46 anos.
Para efeito de comparação, o dia mais chuvoso de todo o ano de 2025 foi 28 de junho, com 70,6mm — menos da metade do volume registrado na manhã desta segunda-feira (21).
Chove mais do que antigamente?
Os dados do Climate Memory também permitem observar uma tendência de longo prazo. Comparando a primeira metade da série histórica (1940–1982) com a segunda metade (1983–2025), a média anual de chuva subiu de 1.671 mm para 1.833 mm — um aumento de 162 mm, ou 9,7%.
A trajetória, porém, está longe de ser uma linha reta: a quantidade de chuva não cresce ano a ano de forma constante. A série mostra forte oscilação — 2021, por exemplo, foi um dos anos mais secos já registrados, com apenas 1.114mm, enquanto 1998 aparece como o ano mais chuvoso da história, com 2.497 mm.
Entenda a fonte:
O Climate Memory é um site agregador que faz reanálise de dados meteorológicos globais fornecidos por serviços como o ERA5/Copernicus, distribuídos via Open-Meteo. Isso significa que os números de décadas passadas não vêm de uma estação física em Flores da Cunha, mas de um modelo de reanálise climática que estima as condições passadas com base em observações e satélites — uma metodologia amplamente usada e cientificamente aceita, mas diferente da medição direta feita pela Estação Climatológica da Prefeitura, que é a fonte primária para os dados do temporal de hoje e dos eventos recentes.

