Home Destaque Antes da recuperação judicial, Keko preparou caminho para reconstruir o negócio

Antes da recuperação judicial, Keko preparou caminho para reconstruir o negócio

Empresa passou meses planejando o processo e encerrou a reestruturação com crescimento
Keko reorganizou a operação após a recuperação judicial e voltou a investir na expansão do negócio (Foto: Lucas Brito/Divulgação)

Entre a decisão de buscar a recuperação judicial e a formalização do processo, existe uma etapa decisiva. É nesse período que a empresa precisa entender a dimensão da crise, reorganizar prioridades e preparar as mudanças necessárias para atravessar o momento.

A recuperação judicial da Keko Acessórios começou muito antes de qualquer documento chegar à Justiça, em 2018. A direção da empresa passou meses estudando números, revendo processos e planejando como conduzir um dos momentos mais delicados da sua história.

A preocupação não era apenas financeira. A empresa precisava garantir que clientes continuassem comprando, fornecedores mantivessem o abastecimento e funcionários acreditassem na continuidade do negócio.

— Fizemos um trabalho muito criterioso antes de entrar em recuperação judicial. Mapeamos quem eram os nossos principais clientes, os fornecedores estratégicos e a estrutura que precisaríamos manter. Não era simplesmente protocolar um pedido. Precisávamos saber como a empresa iria se recuperar e como cada pessoa importante para o negócio reagiria — lembra o presidente executivo da Keko, Leandro Mantovani.

“Conversamos olho no olho”

Durante a preparação do processo, a recuperação judicial ficou restrita a um pequeno grupo de pessoas. A estratégia era evitar especulações que pudessem comprometer o funcionamento da empresa.

As primeiras conversas após a formalização do pedido aconteceram dentro da própria fábrica. O objetivo era explicar aos funcionários, antes de qualquer rumor, o que estava acontecendo e quais seriam os próximos passos.

— Na segunda-feira seguinte, comecei às 8h da manhã reunindo grupos de 30 ou 40 funcionários. Até aquele dia, ninguém sabia do assunto. Fizemos questão de explicar pessoalmente o que estava acontecendo e qual era o nosso plano. Operamos normalmente até o último dia. Não estocamos produtos, não fizemos nenhum movimento diferente. A nossa primeira preocupação era conversar com as pessoas — lembra Mantovani.

Na sequência, vieram os encontros com clientes e fornecedores considerados essenciais para a produção.

— Conversamos olho no olho com cada cliente estratégico e com os principais fornecedores. Alguns deles, se deixassem de nos atender, poderiam parar uma linha inteira de produção. Era preciso mostrar que existia um plano e que a empresa continuaria honrando seus compromissos.

Segundo Mantovani, a decisão de enfrentar diretamente essas reuniões fortaleceu relações construídas ao longo dos anos.

— Depois que passa essa fase, você precisa encarar todo mundo. Não pode fugir de ninguém. Recebemos fornecedores aqui dias depois da recuperação e conversamos com todos. Isso acabou aumentando a confiança porque perceberam que o processo estava sendo conduzido com seriedade e transparência.

“Aprendemos com a escassez”

Em fevereiro do ano passado, a Keko anunciou sua saída do processo de Recuperação Judicial. Mais do que renegociar um passivo de R$ 75,5 milhões, a empresa celebrava um crescimento acumulado de 170% e uma previsão de faturamento de R$ 360 milhões.

Afinal, a reorganização das dívidas é apenas uma parte do processo. A outra aconteceu dentro da própria empresa. A Keko revisou processos, reduziu o portfólio de produtos, deixou de atender operações que não davam retorno financeiro e substituiu uma gestão focada no fluxo de caixa por um modelo voltado ao resultado.

— Aprendemos muito com a escassez. Ela exige criatividade, disciplina e constância de propósito. Reduzimos o mix de produtos, deixamos clientes que davam prejuízo e passamos a tomar decisões pensando no resultado da empresa. Foram escolhas difíceis, mas necessárias para construir um negócio saudável novamente.

Para Mantovani, porém, o principal legado não está nos indicadores financeiros.

— O maior aprendizado foi entender que não podemos deixar a empresa chegar ao último estágio. É preciso procurar ajuda cedo, entender onde está o problema e enfrentá-lo. A recuperação judicial cria uma oportunidade, mas sozinha não resolve. Quem faz a recuperação acontecer é a mudança de gestão, o planejamento e a coragem para tomar decisões difíceis — conclui.

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