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Transporte público depende de subsídio mensal da Prefeitura para operar em Flores de Cunha

Operadora recebe R$ 40 mil mensais para manter circulação dos ônibus sem aumentar a passagem
(Foto: Klisman Oliveira)

No papel, o transporte coletivo de Flores da Cunha tem o que muitos municípios gostariam de oferecer: tarifa acessível, rotas que interligam bairros e ônibus circulando todos os dias. Contudo, por trás desse funcionamento regular, há um equilíbrio frágil, sustentado por um reforço financeiro que se mostra cada vez mais necessário.

Desde 2022, a operação do transporte urbano pela empresa Flor da Serra conta com subsídio direto da Prefeitura para seguir funcionando. O repasse mensal do município gira na casa dos R$ 40 mil e é a engrenagem que mantém o sistema em movimento, mesmo com custos crescentes e redução no número de passageiros.

Milton Antunes de Lima, diretor da Flor da Serra Transporte, costuma se debruçar sobre essas contas, que precisam fechar todos os meses. A empresa assumiu a operação do sistema em 2020 e, desde então, roda com 24 veículos. Contudo, segundo Lima, se não fosse o aporte público, os ônibus coletivos já teriam parado de funcionar.

— A tarifa de R$ 4,00 é, praticamente, a mais barata do estado. Só com a tarifa urbana, a operação não sobrevive. É impossível sem o subsídio do Município. A nossa passagem, sem esse apoio, teria que estar acima de R$ 10, o que seria inviável — afirma o diretor da Flor da Serra Transporte.

Transporte irregular reduziu 3 mil passagens

O diretor da Flor da Serra explica que a empresa opera com uma média mensal de 8,2 mil a 8,3 mil passageiros, bem abaixo dos 11 mil que já chegaram a ser registrados. Um dos principais fatores para a queda seria a concorrência do transporte irregular.

— A fiscalização deveria ser mais rigorosa. Muitas vezes, uma pessoa oferece transporte por R$ 100 mensais. Se a passagem custa R$ 4, e a pessoa usa duas por dia, em 20 dias trabalhados ela gastaria R$ 160. A pessoa acaba preferindo o transporte informal — aponta.

Esse cenário impacta diretamente na conta final. Quanto menos passageiros, maior a necessidade de compensação financeira por parte do poder público.

— Hoje nós teríamos que transportar uma média de 12 a 13 mil passageiros por mês para não aumentarmos o subsídio. É uma conta que não fecha sozinha — resume.

O equilíbrio entre as diferentes linhas também é motivo de atenção. Atualmente, a empresa opera em quatro rotas no município: Circular, São Gotardo, Nova Roma e Otávio Rocha. Algumas delas conseguem se manter financeiramente, mas outras rodam com prejuízo.

— A linha de São Gotardo, por exemplo, tem uma média de 250 a 300 passageiros por dia. Ela se sustenta. Já Otávio Rocha não paga nem o diesel, pois a média é de 50 a 60 passageiros — exemplifica Lima.

Mesmo diante do cenário apertado, a empresa busca manter a operação com qualidade. Segundo o diretor, os horários são cumpridos com regularidade, há atendimento por telefone e investimentos recentes.

— O urbano está rodando todos os dias, não atrasamos horário. Temos uma pessoa no telefone das 6h às 20h, porque mesmo com tabela divulgada o pessoal liga. Trocamos dois veículos no início do ano e estamos fechando a troca das catracas por modelos digitais com câmera — detalha.

A imprevisibilidade dos custos, especialmente com combustíveis, é outro ponto de pressão.
— O diesel é um peso enorme. Um dia tu paga um preço, no outro já é mais caro. É 10 centavos aqui, 10 centavos ali. No final do ano, o impacto é gigante — acrescenta.

O contrato de concessão, com validade de 10 anos, já previa o subsídio como medida de equilíbrio financeiro. Todo mês de outubro, a empresa envia os dados da Tabela GEIPOT (ferramenta de referência utilizada no setor de transporte público para estimar custos operacionais) à Prefeitura, que deve decidir entre ajustar a tarifa, aumentar o subsídio ou ambos.

O aumento da complexidade operacional e os reflexos da queda de demanda do transporte coletivo de Flores da Cunha acenderam um alerta. De acordo com o secretário de Segurança Pública, Transportes e Mobilidade, Itamar Brusamarello, o município está analisando todos os cenários possíveis antes de qualquer tomada de decisão.

— O valor mensal atual é de R$ 39.298,48, destinado ao subsídio do transporte coletivo. Com a reestruturação prevista, que inclui a ampliação de rotas e horários, os custos devem aumentar, exigindo uma revisão no equilíbrio econômico-financeiro do serviço. Sabemos que qualquer alteração na tarifa interfere diretamente na rotina das pessoas. Por isso, estamos conduzindo esse processo com muita responsabilidade e cautela. Nosso objetivo é encontrar um equilíbrio que atenda às necessidades do sistema e, ao mesmo tempo, respeite a realidade da comunidade — afirma.

Com a tarifa congelada há quase dois anos, a possibilidade de reajuste entra no radar, ainda que acompanhada de alternativas para aliviar o peso sobre os usuários.

— A tarifa de R$ 4 está em vigor desde 29 de agosto de 2022. No momento, estamos realizando estudos técnicos que avaliam a necessidade de ajustes no sistema e, caso os dados sejam confirmados, poderá haver um reajuste mínimo na tarifa, com o objetivo de restabelecer o equilíbrio econômico-financeiro do transporte coletivo. No entanto, é importante destacar que, paralelamente, o município também estuda o aumento do valor do subsídio público ao sistema — detalha o secretário.

Integração com fretamento

Além da manutenção do sistema atual, o município também está atento a possibilidades de integração com o transporte privado, em especial o fretamento voltado ao setor industrial.

— O tema da integração entre o transporte coletivo urbano e o fretamento empresarial já foi pauta de conversas com algumas empresas do município, justamente por reconhecermos a importância de facilitar a mobilidade dos trabalhadores. No entanto, são dois modelos distintos: o coletivo urbano, operado por concessão pública, com rotas e horários fixos; e o fretamento, de caráter privado e mais flexível; o que torna um desafio implementar essa integração. Mesmo assim, o município segue atento às possibilidades de melhoria da mobilidade urbana e mantendo o diálogo aberto com o setor empresarial para construir soluções conjuntas — conclui Brusamarello.

Transporte agrada usuários

Quem utiliza o transporte público com frequência reconhece o valor do serviço, mesmo com os desafios. Para Silvia Correa Dal Bó, de 52 anos, o sistema funciona bem e tem custo acessível diante das alternativas.

— Eu uso bastante o transporte. Se tu for ver, R$ 4 acaba saindo em conta muitas vezes, se formos olhar o preço da gasolina e o valor que dá o Uber… eu vejo que muita gente reclama dos ônibus, mas deveriam agradecer por termos, em Caxias é bem mais caro — opina a usuária.

Outro usuário que costuma pegar o ônibus da linha de São Gotardo é Marcos Siqueira, de 39 anos. Ele, que é de Caxias do Sul e vem com frequência para Flores visitar sua namorada, aprova a linha.

— A gente usa bastante o transporte público, uma porque achamos o valor em conta e outra porque não temos veículo próprio. O ônibus facilita muito pra quem precisa se deslocar com frequência, e até agora nunca tivemos problema. Os horários atendem bem e é uma tranquilidade saber que posso vir pra cá sem depender de carona ou gastar muito com aplicativo. Quando eu vejo que por R$ 4 consigo fazer esse trajeto com segurança, pra mim tá ótimo — comenta Siqueira.

A visão dos usuários encontra eco nas preocupações da empresa responsável pelo serviço. Com a alta dos custos operacionais e o número de passageiros abaixo do ideal, a sustentabilidade financeira do transporte público depende diretamente do subsídio municipal. Para o diretor da subsidiária, esse aporte precisa ser ainda maior:

— O aumento do subsídio deste ano para rodarmos com tranquilidade, com a quantidade atual de passageiros e o preço de tudo deveria ser de mais ou menos R$ 11,8 mil. Se hoje recebemos mais ou menos R$ 40 mil, nosso subsídio deveria ser de pelo menos R$ 51,8 mil — avalia o diretor da subsidiária Flor da Serra.

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